Edição de Marinilda Carvalho
O artigo de Alberto Dines sobre o carnaval da mídia em torno do boné do Lula e o texto de um estudante de Jornalismo da UFSC sobre os estereótipos na cobertura da violência no Rio são os destaques desta edição.
No primeiro caso, a maioria dos leitores concorda. No segundo, choveu carta de carioca indignado.
É disso que é feito o Caderno do Leitor.
***
Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
***
SÍMBOLOS & SIMPLIFICAÇÕES
A "verdade" bem ali
A bem da verdade, é assim que a imprensa, de maneira geral, se insinua nos meandros existenciais de nossa "civilização". O que o autor propõe é uma relativização de nossa cultura, que deve ser feita pela imprensa, coisa que, a meu ver, é papel da antropologia. A fonte de energia de nossa imprensa, a do mundo ocidental, é a de metaforizar aquilo que já é uma metáfora, ou seja, procura dar caráter de relevância aos assuntos que nos são apresentados e truncados, transforma-os em algo que deve ser imperioso para o funcionamento do sistema e, quando menos se espera, aparecem as conclusões mirabolantes tiradas de algum semanário escondido nos rincões. Acredito até que certos colunistas e formadores de opinião pensam estar fazendo um belo exercício de dialética, oferecendo aos "embasbacados" leitores, ouvintes e telespectadores a oportunidade de mostrar e destransformar a "verdade" que estava bem ali, "vocês não viram?"
Então, a idéia de "quarto poder" surge até por ignorância (de ignorar, desconhecer) do seu real papel, o de informar todas as versões, assumindo uma forma de controle, perene ou definitivo, da situação, por considerá-la sua posse. Ou pelo menos de tê-la transformado assim. Um governante usar um símbolo, ou valer-se de uma metáfora, não representa nada, se quem a divulga passar adiante a idéia de saber algo que está implícito na metáfora. Ou deixar entender que há algo mais do que isso. No mais, a vida segue.
Alexandre Carlos Aguiar, biólogo, Florianópolis
Cabeça em perigo
Ótimo artigo, principalmente quando menciona a superficialidade da mídia; entretanto, creio que isso ocorre de propósito, para que o povo permaneça como está. O ibope do Ratinho mostra bem por que a mídia procede dessa forma. Afinal, é o mercado quem manda. A derrubada do Collor, que em meu entender foi "o mártir do liberalismo", por investir contra a Usiminas, aterrorizou os "servidores" que, encastelados em suas estatais que ameaçavam desabar, lançaram mão de tudo ao seu alcance para combater o inimigo. Naquele tempo o símbolo era a Casa da Dinda; hoje, é o boné do MST. Mas, por trás de tudo está o servidor ameaçado em seus "direitos adquiridos", não importa se adquiridos através de conchavos ou ignóbeis pressões corporativistas, ameaçados pela reforma da Previdência.
O artigo menciona os brioches de Maria Antonieta, mas quando eu presenciei a cena do boné me veio a idéia do barrete frígio, símbolo da revolução, que colocaram na cabeça de Luís XVI. Agora, ou Lula dá uma de Napoleão ou permanece como Luís. E perde a cabeça.
Regis Baldino
Um boné e quatro páginas
Vivemos num país que enfrenta diversas dificuldades, e a nossa imprensa valoriza coisas tão banais que é difícil de acreditar. No dia seguinte ao acontecido no Palácio do Planalto, a Folha de S.Paulo, um dos jornais mais renomados do país, dedicou praticamente quatro páginas para escrever sobre o boné do MST que o presidente vestiu. Não seria mais importante esclarecer a população sobre a reforma agrária ou a reforma da Previdência? Há inúmeras pautas que seriam de maior importância para o leitor do que discutir um boné.
Gabriel Rotta, estudante Jornalismo, MS
Receitas de bolo
Com uma mídia engasgada e um governo embalado em símbolos e metáforas, ambos falando só no idioma dos comunicadores e comunicantes, sob este ponto de vista, não seria o mesmo que falar em receitas de bolo na época da censura?
Benjamin Ribeiro
Numa palavra
Sensacional!
Daniel Juliano Doederlein Soares
Leia também
O boné não é um boné – é um sistema – Alberto Dines
Numa pergunta
Eu só tenho uma pergunta: será que essas pessoas sabem onde erraram?
Roberto Bueno Mendes
Leia também
A reinvenção da imprensa – Luciano Martins Costa