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CÁSSIA ELLER
Salva por uma "suspeita"

Cássia, você está salva. Depois de os outdoors amarelos e a manchete da capa de Veja a matarem com as drogas sem nenhuma picada de dúvida, uma pequena linha fina a tira da mira da agulha: "A polícia suspeita que um coquetel de droga, álcool e remédios matou a cantora, que havia dois anos lutava para se livrar da dependência de cocaína."

Como que a bradar desculpas, a frase desfaz o encanto do conto de fadas marqueteiro. A notícia está lá, sim, escondida na palavra "suspeita" e encantada pelas enormes letras que designam as substâncias ilícitas. Precisamos reconhecer, Cássia, Veja deu um bom jeito de produzir um título rentável sobre a sua morte neste começo de ano meio chocho – sem atentado terrorista, estado de sítio argentino ou guerra. Já que um "pode ter sido vítima" não vende notícia, a revista ousou na criatividade, mesmo que para sustentar a trama tenha sido necessário desmentir a manchete na pequena linha fina.

Não se preocupe, se um dia provarem que você não morreu por causa das drogas, não haverá problemas. Surgirá mais uma capa a anunciar a surpreendente razão da sua morte. Ao menos, Cássia, a notícia não manchou a sua vida como fez com as dos donos da Escola Base e as de tantos outros sobreviventes anônimos da grande imprensa brasileira. Resta a mim, aqui no país em que as suspeitas viram certezas antes da hora, pedir que os leitores brasileiros tenham "um pouco de malandragem".

Denise Casatti, jornalista

 

Cobertura mórbida

Enviei a carta abaixo ao Jornal do Brasil.

Bernardo de Mello Franco

"Tomo a liberdade de copiar para vocês artigo do Tutty Vasques publicado no site NO. sobre a "cobertura" que a imprensa vem dando à morte da Cássia Eller. Observe-se que o texto foi escrito antes das declarações inoportunas do presidente do STF acerca do destino do filho da cantora, publicadas hoje com grande destaque no JB, e da igualmente deplorável idéia do jornal de fazer do assunto sua "Pergunta do Dia" aos leitores na internet.

Entendo que a primeira página e o site do JB deveriam se dedicar a matérias de interesse público, e não à satisfação da curiosidade mórbida e da bisbilhotice de um certo público, por sinal mais afeito a publicações de outra linha editorial.

Por isso, faço o pedido para que o jornal reveja sua postura no caso. O que podia começar pela reprodução do texto do Tutty Vasques, que certamente seria subscrito por todos os fãs da Cássia Eller. Bernardo Mello Franco"

"Tutty Vasques - no.com.br

Deixem Cássia Eller em paz!

Não há circo sem palhaço, e o que se armou em torno da morte de Cássia Eller ressentia- se disso até a entrada em cena de Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia, que ganhou o papel ao lançar na imprensa um movimento para que a guarda de Chicão, filho de Cássia, fique com a companheira da cantora! O líder homossexual faz agora companhia no picadeiro do noticiário às grandes estrelas do caso: três porteiros de prédio, um frentista de posto de gasolina, um jornaleiro e dois enfermeiros que preferem não aparecer! Todos têm alguma bobagem a dizer sobre a tragédia, mas nenhuma se compara ao discurso inoportuno de Luiz Mott!

Homossexual assumida e bem aceita pela família, Cássia Eller viveu livre de preconceitos e não há qualquer indício de que, depois de morta, padecerá desse mal! Até prova em contrário, a guarda de Chicão, 8 anos, será decidida respeitando-se normas de civilidade e, sobretudo, o que for melhor para o garoto! Pode ser que Maria Eugênia Martins, casada por 13 anos com a cantora, ache mais certo visitá-lo no colo da avó, em Brasília! Pode ser que os tios da criança ponderem que ela talvez se sinta mais segura ao lado da segunda mãe, no Rio! Pode ser que todos achem mais adequado repartir essa convivência! O que não pode ser é essa palhaçada de movimento proposto pelo apóstolo gay do litígio!

Luiz Mott não entrou nessa história de gaiato! É puro oportunismo travestido de atitude politicamente correta! Para ganhar a primeira página do Jornal do Brasil na quinta-feira (3), o militante profissional da causa gay viu-se no direito de dizer o que provavelmente nem a família, aí incluída a companheira da cantora, havia parado para pensar nesses dias de tristeza sem fim! "Não há a menor dúvida de que Eugênia é a mãe adotiva de fato do filho de Cássia e quem oferece melhores condições emocionais e materiais para continuar com a guarda do menino!" Caso contrário, Mott ameaça falar grosso na Vara de Família "para que se respeite a vontade da falecida"!

Cássia Eller não deixou testamento para desautorizá-lo, mas não é difícil imaginar que sua vontade, no momento, seria dar um tapas nesse sujeito! Talvez apenas pedisse piedade, como fazia cantando, para essa gente careta e covarde que aproveita-se de sua ausência distraindo-se com fofoquinhas sobre sua morte! O porteiro dá entrevista em off sobre o estado de saúde da cantora, o jornaleiro a viu chorando, o médico percebeu um arranhão em sua coxa, um enfermeiro misterioso diagnosticou descontrole...! Se a polícia e a imprensa têm certeza de que foi overdose, podiam ao menos tê-la poupado dos cortes de bisturi no IML para exames toxicológicos de vísceras!

Droga! Cássia Eller tem currículo – nunca fez segredo disso – para abreviar sua carreira por causa de outras igualmente brilhantes! Pode ser também que o destino de Chicão seja decidido na Justiça, onde pessoas civilizadas acertam contas! Nada, entretanto, justifica a maneira mesquinha como a morte da cantora vem sendo tratada nos jornais! Isso não se faz! É coisa de gente que não tem ídolo – ou mãe, sei lá!

 

Mortes sem comparação

Concordo com quase tudo escrito no artigo de Alberto Dines, menos com esse comentário: "Por que razão desprezaram a repentina e misteriosa morte do seqüestrador Fernando Dutra Pinto – que todos sabiam estar marcado para morrer –, ocorrida a poucos quilômetros das redações, e preferiram explorar a morte também misteriosa, mas a 500 quilômetros de distância, da cantora Cássia Eller?"

Não sei por que se surpreender e questionar o fato de darem mais ênfase à morte da Cássia Eller do que à do seqüestrador. É obvio! Quem é esse cara? Em que ele contribuiu? É um bandido com muitos em nosso país, enrustidos ou não.

Existe comparação entre estas duas pessoas? Ao meu ver, não tem o que comparar e nem questionar. Acho que a morte do seqüestrador (não me interessa escrever o nome do cidadão) deve ser apurada, sim, e com muito rigor pois, como a maioria, não-envolvida nessa corja, acredito que sua morte esteja ligada a outros interesses. Aí, cabe à polícia averiguar isso sem interferência dos interessados em camuflar este fato.

Quanto a Cássia Eller, podem até fazer o comentário a seguir: "Roqueira debochada, lésbica assumida e drogada confessa." Que não deixa de ser em parte verdade, mas era às custas dela, sem precisar roubar, matar ou colocar a vida de alguém sob ameaça, a não ser a dela. Por isso, não queiram comparar a importância de um artista à de um bandido associado a outros bandidos "camuflados".

Enganam-se até ao rotular Cássia Eller de roqueira! Ela era uma intérprete de todos os tipos de música, inclusive a brasileira, uma pessoa versátil com um futuro brilhante, interrompido sem sentido algum, deixando mais uma vez o mundo da música órfão, nos obrigando a escutar porcarias como as que estão por ai.

Poliana Sá Ribeiro

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