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NOVILÍNGUA DO JORNALISMO
Pano pra muita manga
O texto de Marinilda Carvalho dá pano pra muita manga. Talvez seja inevitável misturar tanta coisa num quase libelo como este. Começa com uma incompreensão absurda do que dizem os lingüistas (eu nunca vi nenhum deles defender o tal do português livre - o que seria?), mas esse parece definitivamente um caso perdido. Na segunda linha se pode ler "uma única coisa" (caco), construção que condenaria, se coerente. Em seguida, os usuários da língua são reduzidos aos que escrevem em jornais – imagino que há outros.
Haveria muito a comentar, a distinguir, até mesmo a corrigir. Vou ater-me a um caso, o do emprego de "onde" que, segundo ela, se aplica apenas a lugar. Para isso, republico, se o Observatório permitir, um texto que publiquei há alguns anos no Jornal de Jundiaí, e que depois inclui em "A cor da língua" (Campinas, Mercado de Letras). O texto ilustra muito bem outro tipo de desconhecimento da língua, além do criticado por Marinilda.
Sírio Possenti
"Onde
Num desses congressos de lingüística, conheci uma pessoa que ficou me perseguindo com perguntas, achando que eu podia ajudá-la em sua dissertação de mestrado. Analisa manuscritos mais ou menos antigos, retocados por seu autor. Faz o que se chama crítica genética. Não sabia, mas acabei sabendo que está em Portugal, e o soube porque recebi dela um cartão. Primeiro, li seu recado, basicamente informações sobre o trabalho. Depois, fui ver de que cartão se tratava, afinal. Não era desses que retratam um dos lugares que todo turista deve ver, ou que nem precisa mais ver, de tanto que o conhece por cartões postais (desenvolvi uma teoria contra o turismo, baseado no fato de que as câmeras podem nos mostrar qualquer lugar melhor do que qualquer um de nós pode vê-lo; meus amigos não gostam de minha teoria; mas eu gosto).
O cartão reproduz - ou imita - uma capa de livro, que se chama A PRIMEIRA PARTE DA CRONICA DO EMPERADOR CLARIMVNDO, DONDE OS REYS DE PORTVGAL DESCENDEM. Como em muito livros antigos, as letras vão diminuindo de tamanho a cada mudança de linha (o título ocupa quatro). Como se sabe que é um livro antigo? Pelos indícios: a grafia PORTVGAL e CALRIMVNDO com V no lugar de U, a palavra CRONICA sem acento, REYS com Y, EMPERADOR por IMPERADOR e, principalmente, a palavra DONDE: EMPERADOR DONDE OS REYS DE PORTUGAL DESCENDEM. Hoje, um título não incluiria essa palavra nesse contexto. Usaria "do qual": imperador do qual os reis de Portugal descendem. Além dos indícios, há uma data, em baixo, mas, evidentemente, ela só serve para tornar mais precisa a época. O livro é de Antonio Aluarez (veja-se, agora, o U no lugar do V), e foi impresso em Lisboa em 1601.
Certamente, o leitor já ouviu muitas pessoas, na rua ou mesmo entrevistadas em rádio e TV, dizendo coisas como "Fui falar com o chefe, onde me disse que...", ao invés de dizer "que me disse que...". Nas gramáticas e dicionários, "onde" consta como advérbio, por primeiro; depois, como pronome, mas só quando significa "em que", como em "terra onde nasci", isto é "terra em que nasci". Mas, nenhuma gramática registra "onde" como pronome que retoma um nome como "prefeito". Mas, o que se pode ver, atualmente, é a palavra "onde" funcionando como um verdadeiro coringa. Com o tempo, se sua marcha não for detida, será o único pronome relativo do português...O que talvez seja bom.
De novo, o que se tenderia a dizer é que se trata de uma dessas variações lingüísticas que vêm de baixo, isso é, do povo que fala "errado". "Possa ser", diria alguém daquele grupo de falantes. Mas, o título acima mencionado, que é de 1601, indica que tal uso é antigo. Pode estar ocorrendo com essa palavra coisa semelhante o que ocorreu com "pissuir", de que tratei aqui recentemente: no caso do verbo, tal forma existiu antigamente, sem necessariamente ser exclusiva de falantes de pouca ou nenhuma instrução. Com "onde" parece ocorrer o mesmo, só que, neste caso, se trata de usos e sentidos, não de formas: foi usada antigamente por quem escrevia, e liberada como tal por quem liberava (os eruditos da Inquisição), significando "de quem". Se esse sentido, depois, permaneceu - e deve ter permanecido -, permaneceu marginal. Atualmente, ressurge com força, e se espalha entre grupos de falantes que, até há pouco tempo, usavam "quem, que, o qual" e que agora passam a usar indiscriminadamente "onde" com todas aquelas funções. Nada de novo sob a lua, de novo.
Além de um dicionário etimológico, preciso comprar uma boa gramática histórica (e descobrir tempo para poder consultá-la). Sírio Possenti - IEL-Unicamp"
Culpa do Word
No caso dos dias da semana e meses que aparecem em maiúsculas... não seria culpa do Word? Em muitos textos, não necessariamente jornalísticos, vejo segundas e janeiros em maiúsculas no meio das frases, o que sempre me assustou. Descobri que é um recurso do Word, que põe automaticamente o dia da semana em maiúsculas. Primeiro, se o autor não questiona é porque acha que a correção automática está certa, ou nem se deu ao trabalho de reler o próprio texto; segundo, quem fez a tradução do Word pro português não sabia que os nomes dos dias da semana e dos meses não se escrevem com maiúsculas, ao contrário da língua inglesa, com seus "Monday" e "January". Tradução ao pé-da-letra, fria, automática, braçal, vazia de qualquer raciocínio.
Raphael Perret Leal
Nota do OI: Essa é realmente uma possibilidade. Desabilitar tal função é simples: abra um documento do Word, vá ao menu Ferramentas (Tools, no Word em inglês), depois a Autocorreção (AutoCorrect). Desmarque a terceira função, "Maiúsculas em dias da semana" (Capitalize names of days). O problema vai desaparecer, como também uma irritante maiúscula no verbo ter (Ter), abreviatura de terça-feira.
Gostei e ri
Gostei é pouco. Adorei. E, dobrado por tantas cócegas, ri.
Deonísio da Silva
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