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MÍDIA & GUERRA
Nem a "pérfida Albion"

Caro Dines, aprecio seus textos, li emocionado o livro sobre o trágico Zweig, logo na primeira edição. E também não sou antiamericano, apesar de ter sido do velho, e quase sempre execrado, partidão. Como ser antiamericano se a gente passa a vida ouvindo o Thelonius, sem parar? Todo este nariz de cera é para dizer que uma frase sua me deixou meio desconcertado: "A população iraquiana está pagando um preço muito alto pela insanidade de Saddam Hussein." Que o Saddam é um insano não tem dúvida; mas não menos insano é o W. Bush, que não pode faltar nesta frase, de modo algum. Sem esquecer que um dia Saddam foi homem dos americanos, contra os aiatolás, deve-se lembrar que um alucinado como o W. Bush, acolitado pela direita cristã e por homens de negócios, é uma arma de destruição em massa apontada não só contra o povo iraquiano, mas contra muita, muitíssima gente mais. É a primeira vez que um império tem na sua direção homens de negócios, pura e simplesmente; nem a "pérfida Albion" era assim, com a sua classe política egressa do "ancien régime", capaz de fazer (algumas) mediações, de governar pela política, de buscar algum consenso entre os dominados. Bem, falei demais, e tudo por causa de uma simples omissão na sua frase, ou algo que me pareceu tal. Esteja certo da minha admiração,

Luiz Sérgio Henriques

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Tédio mortal

O artigo de Douglas McMillan minou minha resistência. O massacre (perdão, Douglas, chamar isso de guerra...) terminou e eu já estou com um certo enjôo. Entrei no automático e estou começando a fazer uma autocrítica. A cobertura da mídia foi imparcial. Não houve qualquer censura do Pentágono e os 600 repórteres incorporados às tropas da colisão (como se colidem, o que o "fogo amigo matou!!) estavam lá, dormindo com os soldados, para a preservação da independência de informar. O New York Times sempre esteve contra a invasão (se isso não é invasão, o que é?), disso não tenho dúvida.A prova cabal da oposição daquele jornal reside, principalmente, nos artigos de Thomas L.Friedman, que, lá no fundo d'alma, considera o Bush quase um traidor porque não invadiu ainda a Síria, a Turquia, o Irã, a Líbia, enfim, o conceito mais abrangente do "eixo do mal".

O fato de os órgãos de imprensa chamarem os Estados Unidos de "império", outro referir-se à "guerra de Bush", o Jornal Nacional qualificar as tropas da coalizão de "invasoras", o que provoca certo "enjôo" no articulista, obriga-me a uma indagação: quais os termos cabíveis e adequados que deveriam ser usados pela mídia? Libertadores, salvadores da democracia, agentes da paz?

O que me intriga também, e não deixa de me provocar um "enjôo", é que o articulista já prevê as próximas semanas, em que se falará repetidamente do "desastre humanitário" e "vítimas inocentes". Mais uma vez sou obrigado a recorrer a uma indagação: a mídia deve simplesmente parar de falar do que já está ocorrendo, para evitar os clichês, ou exaltar a extraordinária ajuda humanitária levada pelos estadunidenses ao, felizmente, libertado, povo iraquiano?

Confesso que a invasão que o articulista viu através da mídia não foi a invasão que eu vi, também através da mídia, cerceada, manietada, transcrevendo os comunicados oficiais do Pentágono. Exemplos: 1) Basora havia sido tomada pelos britânicos no segundo dia da guerra, segundo a parcial mídia apontada pelo autor do artigo. Depois, soube-se, acompanhando o noticiário cada vez mais distorcido, que apenas no 17º dia da invasão a cidade foi realmente tomada; 2) Quarta-feira, a Globo News noticiou que os soldados estadunidenses capturados no começo da invasão haviam sido mortos, sendo que a única prisioneira foi vítima de decapitação; sábado, a notícia de que todos haviam sido libertados; 3) O aeroporto internacional, no 10º dia da invasão, estava "capturado" pelas forças da coalizão; até agora, pelo noticiário de ontem, há "combates" no aeroporto, sem que se saiba quem combate quem. Não há a menor informação a respeito, principalmente a partir do momento em que teria havido, após a "tomada" pelos estadunidenses, um "contra-ataque" iraquiano (presume-se). Aliás, o "fogo cessou", segundo oficiais da coalizão, o que significa, teria terminado a invasão. Entretanto, vem e vai, há novos combates violentos em algumas partes de Bagdá, sem que se descubra o local, quem são os combatentes, enfim...

A invasão terminou realmente com o bombardeio do prédio da al-Jazira e do ataque ao hotel onde estavam os jornalistas" não-incorporados". A partir daí, a "guerra acabou". Moleza. Concordo plenamente com o autor da matéria. A parcialidade da mídia é escancarada. As razões da invasão já foram "esquadrinhadas" meses a fio pelos órgãos de comunicação. Nem por isso, a invasão deixou de ser ilegítima e não precisa se recorrer à mídia pra saber disso. Parece-me que o autor está meio entediado com as notícias da invasão e com o noticiário futuro. Eu também. Vem um tédio das histórias repetidamente contadas... Pô, lá vêm os da imprensa de novo, falando do envolvimento do vice-presidente Cheney com empresas de construção e uma das primeiras já catalogadas como parte da "reconstrução" do Iraque [Kellogg Brown & Root (KBR), subsidiária da Halliburton, que Cheney presidiu]. Que saco! De novo, noticiando-se a participação" militar empresarial" do novo governador regional do Iraque, não sei o nome do libertador [Jay Garner], aquele que como militar convencia o Congresso estadunidense a comprar os mísseis Patriot e hoje, reformado, é um dos donos da empresa que vende os tais mísseis. O envolvimento de Bush, Rice, Rumsfeld com empresas petrolíferas é um assunto cansativo, tedioso, desinteressante. Pra que ficar falando nisso?

Estou com Mr. McMillan. O assunto foi cansativo, está sendo cansativo e vai continuar cansativo. Da minha parte, acho que a mídia devia parar de falar a respeito de qualquer coisa dessa invasão sem qualquer sentido. Devia, inclusive, deixar de divulgar as ameaças do Bush à Síria e a outros países. Como cansa, meu Deus! Deixem o Império (opa!) em paz. Invadam a Síria, a Turquia, o Líbano, nós aqui não temos nada a ver com isso. Que a mídia deixe a "liberdade do mundo" aos critérios de Bush e Rumsfeld, eles sabem o que fazem e onde mora o perigo. A minha única preocupação é com a mídia lá fora: coitados desses caras, com a oposição ferrenha e antibelicista do New York Times e os demais da grande mídia estadunidense. Podem modificar os 91% de apoio da população às guerras de Bush.

Em tempo: algumas cenas desagradáveis de civis feridos e humilhação de prisioneiros iraquianos não teriam sido mostrados à orgulhosa gente estadunidense, segundo um amigo que esteve por lá nos últimos dias, na imparcialíssima mídia dos Estados Unidos da América. A libertação é tão grande que o povo iraquiano ficou "livre" de água, luz, emprego, enfim, coisas absolutamente dispensáveis a uma nação torturada por um ditador sanguinário, por anos seguidos. Graças ao pacifista democrata George Walker Bush, o povo iraquiano chegou ao paraíso com uma profunda libertação espiritual. Só tenho dúvidas quanto à mídia continuar falando dos desastres humanitários e de vítimas inocentes. Neste ponto, o articulista equivocou-se, com todo o respeito. Na verdade, em algumas semanas, uma noticinha aqui, outra ali, em cantos de jornal e em segundos de televisão, a respeito de algo sobre a não-tragédia do Iraque. Assim como no Afeganistão. Uma invasão inacabada, o retorno aos poucos dos guerrilheiros talibãs, a morte de alguns afegãos por tropas estadunidenses (como já se noticiou a semana passada), enfim...

O assunto é cansativo e já estou entediado, minha resistência acabou e ando com um pouco de "enjôo". Vamos mudar de assunto. A menos que haja uma provável invasão da Síria, vai começar todo o noticiário cansativo de novo! É tédio demais. As mesmas notícias, sempre, cansam. As mesmas guerras, não? Por alguns dias, acho que não teremos invasão (no Iraque nada está acabado, mas o assunto já cansou). Que a paz do Bush e do New York Times continuem a imperar sobre o mundo. E paz não é notícia. Assim como o povo iraquiano, também estamos livres. Do noticiário. Chega! Cansei! Outra música, maestro!

Zeca Paulito, advogado, 49 anos

 

Palavras raivosas

Parabéns, Sr. McMillan. Este foi, sem dúvida, um dos piores artigos que já li no Observatório. Suas palavras raivosas, ufanistas e mal escritas comprovam as críticas dos observadores da imprensa brasileira. Seu artigo demonstra que o velho jornalismo americano independente e livre ruiu com as torres do World Trade Center. Bin Laden e Bush devem estar orgulhosos. Recomendo enviar uma cópia do artigo aos dois grandes líderes da humanidade. Afinal, eles têm muito em comum com o seu pensamento único. Estamos diante de uma defesa do fundamentalismo jornalístico. Sua crítica aos críticos brasileiros reflete a necessidade de impor os valores e julgamentos americanos ao nosso jornalismo.

Pelo andar da carruagem, ou dos tanques americanos, sem dúvida teremos anos difíceis pela frente. Após suas críticas a nós, os pentelhos da mídia brasileiros, só nos resta aguardar, apreensivos, os corretivos de uma outra coalizão militar americana em terra brasilis. Estamos todos diante de uma pax americana no mundo e no jornalismo. Triste mundo. Pobre jornalismo! Péssimo artigo!

Antonio Brasil

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Críticas injustificadas – Douglas McMillan

 

Douglas McMillan responde

Olha, Antonio, li a sua resposta e não me deu muita vontade de replicar. Seu texto, ele sim bastante raivoso, mostra que tem muita gente engolindo sem mastigar, lendo sem entender. Você não entendeu meia linha do que eu disse. Se este e-mail sai no Observatório é exatamente porque eu prezo o debate – qualquer debate, inclusive este.

O primeiro ponto que eu gostaria de ressaltar é a sua premissa de que eu sou estrangeiro, devido ao meu nome com pinta de gringo. Carioca, filho de uma alagoana com um anglo-sergipano, sou Flamengo e tenho uma nega chamada Juliana. Portanto, não posso ser prova de que o "o velho jornalismo americano independente e livre ruiu com as torres do World Trade Center", como você disse. Ou que minha "crítica aos críticos brasileiros reflete a necessidade de impor os valores e julgamentos americanos ao nosso jornalismo". Sinto desapontá-lo, mas sou tão brasileiro quanto você. Mas espera lá: se eu fosse realmente gringo minhas críticas seriam inválidas? Isso não tem um nome?

Quanto à sua acusação de que sou adepto do pensamento único, pense você um pouco: a maioria dos críticos de mídia está dizendo uma coisa com que não concordo. Pela sua resposta, eu deveria ter ficado calado no meu canto ou aderido ao coro. É isso que você chama de diversidade de opiniões?

Acho que esse corporativismo, tão bem refletido no seu "nós, os pentelhos da mídia brasileiros", é que prova que há um novo pensamento único em gestação. Muitos críticos de mídia, e você é um deles, se crêem parte um bloco monolítico, que pensa parecido. E não aceitam muito bem críticos de mídia, e eu sou um deles, que pensam diferente. Isso também é pensamento único. Sua única diferença é ser "do contra". Mas nem por isso é menos impermeável ao debate.

Meu único desejo naquele texto – será que você leu essa parte? – era que a crítica saísse do automático, ganhasse um pouco de autocrítica. E passasse a usar melhor a própria língua. Acho que a CNN está "omissa", mas não "triunfalista", por exemplo. O que é muito pior! Nessas situações, a escolha das palavras é tudo. São elas que determinam a precisão do texto. O seu me parece uma das "bombas inteligentes" americanas.

Você diz, por exemplo, que eu defendo o "fundamentalismo jornalístico". Leio nisso um elogio, não uma crítica. Sim, eu sou adepto radical do fundamentalismo jornalístico. É por isso que eu acredito que devemos ser constantemente vigilantes. Antes de tudo de nós mesmos.

Agora, uma crítica ao OI: aquele chapéu vermelho em cima do texto, "CNN dá show", foi uma escolha péssima. Eu não disse aquilo e nem dei a entender aquilo. Achei horrível. (D.M.M)

 

Ditaduras benéficas?

Caro Carlos, eu até concordo com alguns pontos de seu artigo e discordo de outros, mas por favor, use argumentos válidos. Dizer que a democracia européia é coisa de 300 anos e que a cultura árabe tem mais de 6 mil anos é dar a entender que isto justifica ditaduras "benéficas", e de um racismo, preconceito e visão distorcida do mundo que não creio condizer com a sua condição de jornalista. Há ótimos argumentos para se ser contrário à guerra e há ótimos argumentos a favor dela (o melhor que eu vi foi o do atual presidente de Ruanda), logo você não precisava forçar a barra em seu artigo.

Rodrigo Carvalho

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Notícias gerenciadas

Bem exposto. Subentende-se que numa ditadura, como a do Iraque, não haja liberdade de expressão. Mas quando vemos informações suprimidas ou distorcidas pelo governo, num país que prima pelas liberdades individuais, isso é chocante. Foi na época de J.F.Kennedy, quando isso acontecia, que se originou a expressão managed news, ou seja, notícias gerenciadas.

Erlo Roth

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A entrevista de Saddam à CBS – Beatriz Singer

 

Porção trágica de dólares

José Carlos, louvo sua indignação, que faz com sonhe com o fim de nossa versão do século 21 da Pax Romana. Infelizmente para nós, desarmados leitores de Asterix, o máximo que se consegue de nossos simpáticos gauleses é que se transformem em parque temático, também modelo romano-americano. Falta-nos o principal: não temos a poção mágica e eles têm uma porção trágica de dólares. Mas vamos sonhar. Um comovido abraço de parabéns pelo seu brilhante artigo.

Humberto Crivellari

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