CENSURA TOGADA
Luta diária e injusta
De todas as formas de governo, a democracia é a menos pior. Assim, a sociedade deve trabalhar para seu aperfeiçoamento, numa luta diária e às vezes injusta. Entre os vários grupos sociais, os jornalistas são os mais expostos às injustiças nesta caminhada. Seja pela noção de que a liberdade realmente existe, e com isto ferem interesses, seja pelo uso indevido da liberdade em interesses escusos. Estes serão diluídos no tempo. Aqueles combatidos a ferro e fogo. Sobreviverão os verdadeiros profissionais, se agüentarem o bombardeio ou a cadeia, como foi o caso de Avelino Ferreira.
Certa ocasião, um jornal carioca publicou nota sobre um advogado. Sentindo-se prejudicado, recorreu à Justiça, solicitando fosse publicada sua versão dos fatos. O jornal foi obrigado a fornecer o mesmo espaço, e assim o outro lado foi ouvido. Esta deveria ser a prática. Se alguém se sente prejudicado por alguma notícia ou reportagem que lhe seja dada oportunidade de apresentar sua versão. Quem em última análise deve julgar são os leitores. A condenação do jornalista Avelino Ferreira, estando ele certo ou errado, é um grande retrocesso. Comparo o episódio ao ato de se afinar um violão. Se as cordas forem esticadas demais com certeza arrebentarão. Muito frouxas não teremos nenhuma nota. Sugiro aos manipuladores do poder uma reflexão sobre isto, pois em qualquer um dos casos eles vão estar à frente da fila.
Aurílio Nascimento, Rio de Janeiro
ESTUDANTES EM SALVADOR
Os pobres atropelam
Parabéns ao Ricardo Leal Costa Santos, que dá claros nomes aos bois, em "Mídia, perplexa, cala ou rotula". Não se vê outra coisa nos grandes jornais brasileiros, desde a posse do governo Lula, além de silêncio sobre tudo quanto de mais importante está acontecendo no Brasil; ou berreiro alucinado sobre tudo que não tem importância alguma; e, em todos os casos, um festival de rótulos. Ah! E todos os rótulos são iguaizinhos, em todos os jornais brasileiros, do Oiapoque ao Chuí.
Exemplos de coisas importantíssimas que estão acontecendo no Brasil, hoje, são o MST (que parece viver, lutar e crescer sempre, totalmente à margem do mundo que a imprensa brasileira sabe ler e que, só Deus sabe como, tem resistido bravamente a todas as forças mais poderosas e mais reacionárias que há no Brasil, há 500 anos); e, na última semana, o movimento dos estudantes de Salvador (que não sei se a imprensa brasileira não soube ler ou se não leu porque não quis).
Exemplos de berreiro alucinado sobre tudo que não tem importância alguma são todo e qualquer suspiro de vice-presidente ou ministro-empresário (eternamente a pedirem juros menores), ou de empresários da Fiesp a pedir juros menores, ou de colunista de economia a pedir juros menores, ou de colunista social a pedir juros menores, ou de cientista social trotskista a ensinar aos cientistas sociais leninistas o que é a direita e o que é a esquerda, ou de cientista social trotskista a ensinar que Lula é neoliberal, ou de cientista social leninista a ensinar que Lula é neoliberal, ou de filósofo fascista a ensinar que Lula é neoliberal, ou de filósofa marxista a ensinar que Lula é neoliberal, ou de FHC a ensinar, com sua sociologia pós-tudo e pré-nada... que Lula é neoliberal e analfabeto e incompetente (e as aulas são caríssimas, mas vivem lotadas!).
Para colaborar com Ricardo Leal Costa Santos: na minha opinião, além da imprensa que só cala ou rotula, já tô achando que nossos cientistas sociais anti-Lula e os filósofos fascistas anti-Lula que assinam coluna na grande imprensa brasileira anti-Lula e mais a Luciana Sogra, a senadora HH e o Babá (todos anti-Lula)... praticamente todos esses, também ou só calam (o que haja de importante, no Brasil) ou só rotulam (o que não tenha importância alguma; e quando, vez ou outra, alguma coisa importante ganha algum rótulo, sempre ganha o rótulo errado).
E na minha opinião, tudo isso acontece por uma razão bem simples: o MST, o governo Lula e os estudantes de Salvador são sinais muito claros de que o Brasil pobre está começando a se mexer, aparentemente sem dar a menor bola, nem para a grande imprensa brasileira, nem para os cientistas sociais trotskistas do Brasil (e nem pros correspondentes deputados federais, tipo Luciana Sogra e Babá), nem para os cientistas sociais leninistas, nem para os filósofos fascistas, nem para o PSTU e coisa e tal.
Aí... é olhar e ver: parece que nem a "grande" imprensa brasileira (e nem o Pasquim21! Quem diria?!) nem os cientistas sociais nem os deputados sogristas entendem de pobre, no Brasil. E todos esses aí, na maioria brancos letrados e considerados muito "inteligentes", todinhos, não estão apenas "perplexos" com a arrogância dos pobres: todos esses estão sendo atropelados pelos pobres. E é isso que me enche de esperanças. Viva o Brasil!
Caia Fittipaldi
O desafio dos baianos
Acompanhei, preocupado com a postura da imprensa baiana, o episódio dos estudantes em Salvador e fiquei surpreso com a omissão de alguns meios de comunicação do estado – em especial os jornais impressos –, com exceção do jornal A Tarde. O Correio da Bahia, com sua postura muito bem-explicitada nos textos, prefere transformar o episódio em divergência política interna de determinado grupo; a Tribuna da Bahia, com seus "quartos publicitários", também fez vista grossa. Um debate claro do papel e dos abusos dos meios de comunicação na Bahia é básico na democratização da informação no estado. Se na capital, onde doutores e "baluartes" da comunicação baiana se concentram há esta situação, imaginem no interior, onde 90% dos meios de comunicação estão ligados a grupos políticos. Temos uma missão difícil: entre a cruz do compromisso social e a espada do patrão lutar pela democracia da informação na Bahia.
André Luis, jornalista, Caraíbas FM