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MÍDIA & ELEIÇÕES 2002
Bonner falou demais

Sobre as entrevistas dos candidatos ao Jornal Nacional da Globo, faço minhas as observações da Alice Vasconcellos, estudante de Comunicação da UFMG [ver remissão abaixo]. Em minha casa, ficamos também inconformados com o tempo subtraído ao Ciro Gomes pelo William Bonner, que falou demais. Hoje, na entrevista do Garotinho, tanto ele como a Fátima Bernardes já foram mais sintéticos. Enfim, a Globo está devendo algum tempo ao Ciro. Talvez eles devessem dar "tempo líquido" igual a todos, isto é todos falariam o mesmo tempo, as falas dos entrevistadores não seriam consideradas.

Wilson Guimarães Cavalcanti, engenheiro aeronáutico

 

Perguntas redondas, respostas polidas

Meu nome é Marcelo Franzese, trabalho com informática, e sou jornalista (não-praticante), e sempre acompanho este Observatório. Posso dizer que é de extremo bom gosto praticamente tudo o que é publicado. Na edição desta quarta-feira, presumi que poderia haver um comentário sobre as entrevistas realizadas pela (tendenciosa) revista Época com os candidatos à presidência da República. Na penúltima edição foi a vez de José Serra (queridinho do FHC) dar "voz" aos leitores, numa entrevista "comum". Perguntas redondas, respostas polidas. No entanto, não foi dado ao candidato Ciro Gomes, na última edição, o mesmo tratamento, assim como aconteceu no Jornal Nacional, onde começaram perguntando se ele era ou não "pavio curto". Sou um ignorante, mas é perceptível a tendenciosidade do veículo em "promover" o candidato do governo.

Marcelo Franzese

 

E os outros candidatos?

Lendo o Último Segundo pude observar ao final da matéria a frase "(...) Os outros dois candidatos, os nanicos José Maria de Almeida, do PSTU, e Rui Costa Pimenta, do PCO (Partido da Causa Operária), não aparecem na pesquisa." Para confirmar, veja o endereço <http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/eleicoes/artigo/0,,842486,00.html>. Uma pergunta: os institutos de pesquisa têm direito a omitir nomes de candidatos? A Globo (e outras) não tem a obrigação de pelo menos registrar a ausência destes nomes nas pesquisas (como fez o Último Segundo)?

Wesley Lopes Honório, publicitário, professor, Piracicaba, SP

 

O show dos 10 minutos

Durante uma semana, o Jornal Nacional promoveu um verdadeiro show de 10 minutos a cada dia. Aliás, 10 minutos com tolerância máxima de 30 segundos. O principal protagonista deste show ou pelo menos o pretenso protagonista foi, sem dúvida alguma, o jornalista William Bonner. Ele nem deixou a mulher, Fátima Bernardes, fazer outros questionamentos. Falou a maior parte do tempo durante as entrevistas com os presidenciáveis. Dizem, até, que falou mais do que os candidatos. Talvez seja exagero.

O que não é exagero é a visível condução de uma entrevista para determinado direcionamento a partir de certos detalhes. Nada de novo, tratando-se de jornalismo brasileiro. E isto ocorreu na primeira rodada de entrevistas feita recentemente pelo Jornal Nacional (ainda o mais apreciado pela maioria da audiência). Ciro Gomes, o primeiro a ser inquirido, foi chamado três vezes de "pavio curto" por Bonner. E eu pergunto: há relevância nacional em se saber qual a personalidade de um candidato? É este um fator preponderante a ser evidenciado para um povo que clama por melhores salários, emprego, educação, moradia e segurança? O que está por trás desta pergunta, que teve até direito a tréplica, permanece um mistério. Mesmo assim, parece que Ciro Gomes conseguiu dar seu recado. Driblou a concorrência e mostrou pavio longo.

Anthony Garotinho sofreu aquilo que colheu. Com justiça. Foi questionado sobre a caótica situação de insegurança no estado governado por ele até bem pouco tempo. Foi para o "paredão" falar sobre a promessa do salário mínimo de 100 dólares e emitiu suas justificativas. Plausíveis ou não, foram dadas. Neste segundo show, o questionador William Bonner saiu-se mais jornalista e menos psicólogo preocupado com a personalidade dos entrevistados. Obviamente o "irretocável" âncora do Jornal Nacional não perdeu a possibilidade de fazer o candidato prometer que as gravações contra ele, negadas aos meios de comunicação inicialmente, fossem agora reproduzidas pela Rede Globo. Em duas vezes, Bonner fez Garotinho declarar a promessa no ar. Tudo ao vivo para um Brasil à espera de soluções práticas para seus problemas. Tudo bem. Vamos ao próximo.

O seguinte, pela ordem do sorteio, foi o governista José Serra. Não faltou uma indagação sobre o esquema de propina do seu antigo arrecadador de fundos para campanha e nem sobre a dengue. Perfeito. Sobrou tempo para Serra falar de seus projetos, de suas idéias a respeito da questão econômica, enfim, de discorrer sobre o programa de governo. Foram 10 minutos bem aproveitados, principalmente por Serra.

E finalmente o petista Luiz Inácio Lula da Silva (sempre lembrando que a ordem das entrevistas foi designada em sorteio). Falou-se da suposta corrupção em Santo André e de outros temas pertinentes ao Partido dos Trabalhadores. Inclusive foi questionada, novamente, a experiência de Lula para governar. Tudo bem. Nada fora da normalidade. A interrogação sobre a mudança de atitude do partido em relação ao rompimento ou não com o FMI e as respectivas implicações também se mostraram propícias.

E o programa de governo do PT? Quem assistiu à série de entrevistas não soube o que Lula e o PT querem para o Brasil. O programa não foi objeto de um questionamento direto sequer do indagador obstinado William Bonner. É engraçado que os outros, pouco é verdade, puderam falar sobre seus principais projetos para o Brasil caso sejam eleitos. Menos Lula. Só ficou se defendendo. Uma das perguntas menos importantes a ele dirigida foi a seguinte: "Você subiria num mesmo palanque ao lado do Orestes Quércia?" Será que a população está interessada nesse tipo de discussão partidária? A nação precisa destas respostas, seja de Lula, Garotinho, Serra ou Ciro?

Felipe Lemos, produtor de rádio

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