|
MÍDIA & ELEIÇÕES 2002
Tempo nada significa
Sou um estudante de Jornalismo que ainda acredita que o jornalismo de grandes empresas de comunicação, como a Rede Globo, deveria estar livre de jogo sujo político. Não sou contra a defesa de um ponto de vista político e sim contra a manipulação da massa de telespectadores. Não há problema se um veículo de comunicação manifestar apoio ao candidato X ou Y. O problema é um veículo que se diz politicamente neutro favorecer tanto determinado candidato, assim como a Globo beneficiou o presidenciável José Serra.
Durante suas respectivas entrevistas ao Jornal Nacional, Lula e Serra tiveram tratamentos completamente diferentes. Enquanto o tucano pôde discutir seus planos para o governo, o petista foi bombardeado com uma série de perguntas sobre as denúncias de corrupção na prefeitura de Santo André durante a gestão de Celso Daniel. Eu não entendo por que durante a entrevista do ex-ministro não apareceram perguntas sobre o investigado caixa de campanha do PSDB, Ricardo Sérgio. Não falaram de operações irregulares no Banespa e, conseqüentemente, não tocaram no nome de Vladimir Rioli. Ah! Eu já ia me esquecendo de falar das "propininhas" na privatização da Vale do Rio Doce. Também se esqueceram de comentar a respeito dos boatos de que a PF e a Abin estejam espionando os adversários tucanos. O único momento de constrangimento de José Serra foi quando se falou em dengue, porém nada se disse sobre as acusações de corrupção contra pessoas ligadas ao candidato do governo, o que é muito mais constrangedor do que a dengue.
A insistência do âncora do Jornal Nacional em dizer a todos os candidatos: "Seu tempo está acabando" tem gerado uma falsa sensação de igualdade de tratamento entre os candidatos. Pois ultrapassar "os últimos 20 segundos" não significa nada. O favorecimento acontece não no tempo, como dizem ter acontecido em 89 (não me lembro bem que me disse), e sim no conteúdo das perguntas. Serra teve uma entrevista para discutir projetos e Lula teve uma entrevista para se defender. Que tal fazer o contrário agora? Depois disso, Brasil escolherá o melhor.
Carlos Fernando Jauregui Pinto, 18 anos
Mesmo discurso
Se a imprensa continuar calada ou sem poder emitir suas opiniões, nós eleitores ficaremos extremante divididos, tendo como informações somente as apresentadas pelos candidatos, e parece-me que todos têm o mesmo discurso, então eu pergunto, como diferenciá-los???
Cidinha Ballestero
Leia também
Bonner fala, Ciro cala – Alice Cavalcanti
Sem opinião e sem candidatos
A cobertura não apenas tem sido sem opinião, conforme o artigo "Rolha no rádio e TV só faz bem aos políticos" [ver remissão abaixo], mas sem todos os candidatos. Aqueles que disputam a presidência da República pelo PCO e pelo PSTU são ignorados pela imprensa brasileira. A Constituição Federal assegura o pluralismo político e ainda afirmamos que há liberdade de expressão, mas apenas quatro candidatos são entrevistados e convidados durante as transmissões dos programas de televisão para o debate que cada emissora realizará. Partidos inexpressivos no Congresso Nacional e sem orçamento milionário não têm necessariamente idéias inexpressivas.
É função do debate apurar se são irrelevantes. Infelizmente, tem parecido mais interessante à imprensa defender o Pensamento Único nestes eleições, pois os quatro candidatos defendem planos muito semelhantes, evitando falar sobre temas realmente polêmicos, como Reforma Tributária, Reforma do Poder Judiciário, programa de renegociação das dívidas internas e da externa, preferindo exercícios de retórica a reais projetos. A cobertura será democrática quando respeitar a existência de seis candidatos à Presidência da República ou, pelo menos, justificar o porquê de não mencionar dois deles.
Sérgio Coutinho, Maceió
Erro no domingo, correção na quinta
O artigo publicado neste Observatório "Rolha no rádio e TV só faz bem aos políticos" contesta a censura prévia da Justiça Eleitoral, dizendo que ela, além de péssima, é desnecessária. Que é ruim e inaceitável, disso ninguém duvida. Agora, dizer que no país do debate editado de 1989 ela é desnecessária beira a ingenuidade! Alguém realmente acredita que a Globo está querendo vender credibilidade? Um grupo de comunicação que quer ser considerado sério não deixaria um jornalista como Arnaldo Jabor fazer o que fez até outro dia na CBN (vá até a página da CBN e ouça seus comentários dos últimos meses para ver do que estou falando).
Enquanto a informação neste país estiver baseada neste coronelismo nacional imposto pela Globo leis como essa, apesar de imorais, são necessárias, sim. Não sejamos ingênuos (para não dizer completamente estúpidos) a ponto de acreditar que, deixada a seu bel prazer, a Globo (e outros) será completamente isenta em seus comentários sobre esta eleição. Não esqueçam que o jantar (dinheiro do BNDES) não é de graça. Também não esqueçamos que o candidato oficial deve estar muito assustado com o terceiro lugar, e certamente vai fazer de tudo para tentar polarizar esta eleição entre ele e o "sapo de Armani".
Pois é, no país de Brindeiro, "El Engavetador", esta é uma lei ruim, péssima, porém explicável do ponto de vista da realidade. Além do mais, é como diz meu pai: "Confiança é como vidro. Quando quebra..."
O autor do artigo ainda cita o exemplo da Folha de S.Paulo sobre as árvores cinco vezes mais caras que a prefeitura (do PT) teria comprado. A matéria com a denúncia foi publicada no domingo e a retratação, na quinta (4 dias depois, segundo o artigo). Cabe perguntar primeiramente qual foi a tiragem de domingo, quando saem os classificados de negócios e empregos, e qual foi a tiragem de quinta-feira, quando sai o caderno Agrofolha. E, depois, se o erro foi tão grave, a ponto de merecer uma página inteira, por que não foi apurado antes da publicação? Não seria o caso de se investigar melhor? Como já disse antes, não vamos bancar os bobos...
Depois da explicação esdrúxula dada, numa sexta-feira, pela Polícia Federal, em relação aos grampos sobre petistas – com aquela carta do José Dirceu e do Lula datada de 2002 pedindo que sejam utilizados grampos, se necessário, no caso Celso Daniel, para sugerir um grampo feito em 2000 –, não se falou mais em grampos. Conveniente... Agora, me diga de novo que a imprensa nacional quer credibilidade. Mas antes, por favor, me empreste o nariz de palhaço...
Lair Martes Junior, São Paulo
Erro na capa, correção no fim
Em relação à matéria da Folha, as coisas não ficaram no "olho por olho, dente por dente". A primeira matéria foi editada na primeira página do caderno Cotidiano, já a segunda saiu na última página. Parece ser uma simples picuinha (como dizemos nós, nordestinos). Porém, para o jornalismo, sabe-se que isso modifica a situação. Por questões até psicológicas, afinal a primeira impressão geralmente é a que fica. Porém já é um grande avanço democrático ter-se meia página de jornal (exatamente o mesmo tamanho da primeira matéria) justificando o erro.
Pedro Andrade Caribe, estudante Jornalismo da UFBA
Marcante filtro seletivo
Muito bom artigo, vista a inoperância da grande mídia frente esse fato, que passou quase obscuro – o filtro seletivo das notícias, e seu caráter relativamente preestabelecido de formação de opinião, com elo real com as eleições de outubro. O que interessa transmitir se atém a um caráter mais prático de confusão e desvio de certas tendências do eleitorado brasileiro. No mais, o texto de Muniz Sodré traz certas menções teóricas que dão consistência ao artigo de Weis, como uma sutil e implícita menção a Maquiavel. Foi assim que interpretei.
João Paulo López
Leia também
Rolha no rádio e TV só faz bem aos políticos – Luiz Weis
A mordaça nossa de cada dia – Muniz Sodré
Mídia esconde a realidade – Chico Bruno
|
|