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MÍDIA & ELEIÇÕES 2002
Presidenciáveis, livros e filmes
Como pode um escritor julgar o gosto literário das pessoas? Como pode, de seu ponto de vista, querer impor se este ou aquele filme ou livro impressionou mais determinada pessoa? Além dessas críticas que tece aos presidenciáveis pela escolha, ainda se dá ao direito de julgar este ou aquele filme ou livro, como se só houvesse uma possibilidade do olhar!
Nadja Antônia Alves Faraone
Deonísio da Silva responde
A leitora tem todo o direito de discrepar do escritor, mas não pode olvidar que não impus gosto algum. Estranhei não encontrarem nenhum romancista, poeta ou contista dos tempos republicanos. E os candidatos procedem de estados que contam com excelentes escritores. E no cinema, então, quantos esquecimentos! Anselmo Duarte, que arrebatou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com O pagador de promessas, está vivinho da silva e mora em Salto, no interior de São Paulo. Lygia Fagundes Telles acaba de lançar livro novo! Ariano Suassuna arrebatou o Prêmio Jorge Amado de Literatura e Arte por ser o escritor que mais influenciou a sociedade brasileira ano passado! E eles não lembram nem desses! Cabe-me estranhar as ausências. E não tenho o direito de reprovar o gosto deles. E por isso não cheguei a tal limite. (D.S.)
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A mistificação dos números
Acompanho atentamente os artigos do Observatório da Imprensa, especialmente quando tratam sobre jornalismo econômico, área que tanto me desperta atenção. Assim como é impressionante a mistificação em torno de índices, números e interpretações, impressiona ainda mais a inconsistência de algumas críticas.
O professor de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora Antônio Fernando Beraldo, em artigo no OI, pergunta ao leitor: "Não o perturba uma vaga desconfiança de que estão lhe fazendo de trouxa?" E fala do EMBI (Emerging Market Bond Index, o chamado "risco país" calculado pelo J.P. Morgan). Num parágrafo, o professor. Beraldo esclarece o que lhe parece ser o EMBI: "Acho que é esse tal do índice EMBI, que mede (?) risco-país. Da primeira vez que apareceu à frente de nossas retinas tão cansadas, decretando a falência da Rússia até a Argentina, parecia sério, coisa de americano. Olhando mais de perto, o grifo assustador revelou-se mais uma fajutice, coisa de americano. Aliás, estava na cara: EMBuste. O tal do índice consiste numa previsão (?) proto-astrológica, de (mau)caráter subjetivista que mede algo como "sensação de calote", que, segundo penso, brota da boca entrefechada de algum alto (no sentido etílico) funcionário da JPMorgan ou da Standard & Poor (quer dizer "padrão & pobre"), depois de umas cinco ou seis carreiras de pó e depois de ter feito seus clientes perderem um nota federal com a Enron, a WorldCom, a Xerox, a..."
Conforme o que ele escreve, isso é o que ele "pensa", não o que é de fato. E partindo dessa visão distorcida dos fatos, passa a criticar a imprensa por aceitar "acriticamente" esse índice. É possível que o professor Beraldo tenha confundido o "risco-país" com os ratings - notas dadas pelas agências de classificação de risco, como Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch. Estas são supostamente baseadas em critérios fundamentalistas, atribuindo a países (e empresas) notas expressas em letras ("AAA" para o menor risco, "DDD" para um país em calote). Em se tratando dessas notas, não é fácil saber o limiar entre a análise puramente econômica e o grau de subjetividade.
Não é o que acontece com o "risco-país". Nas palavras de Gustavo Franco (Estado, 23 de junho de 2002): "Trata-se de um índice concebido e regularmente publicado pelo Banco J. P. Morgan, que consiste em montar uma carteira-padrão de títulos da dívida externa de países emergentes, em proporções que refletem o peso de cada país no mercado de dívida soberana. E para cada país trabalha-se com uma cesta de títulos, com pesos proporcionais aos volumes transacionados. [...] O EMBI e o "EMBI-Brazil" são produzidos como um índice de preço – assim como o Ibovespa, por exemplo – e nesse formato são um número abstrato, cujo valor absoluto não tem muito significado. Todavia, uma outra forma de apresentação do mesmo número se tornou bem mais popular: em vez do preço, mede-se a taxa interna de retorno, deduzida a taxa de juros do Tesouro americano para o mesmo prazo. Um exemplo simples: um título de certo prazo que rende 5% de juros e está sendo vendido a 50% do valor de face é como se fosse, para quem compra, um título de metade do valor, mas rendendo 10%. Essa "taxa interna", menos 2%, digamos, a taxa do Tesouro americano para o mesmo prazo, é 8%. Diz-se, então que esses 8% são "o prêmio de risco" (spread), e se o papel do exemplo é, na verdade, uma média de papéis de um país, então os 8% seriam o risco país. Portanto, em conclusão, o risco país é um indicador do mercado secundário de títulos da dívida externa."
É freqüente a crítica de que os economistas responsáveis pela classificação dos países desconhecem a realidade do que classificam. Nada na linha do professor Beraldo, que indo além, imagina bêbados, drogados e vingativos. Mas, como disse Fernando Henrique (Estado, 10 de julho de 2002): "Em um mundo tão tempestuoso, algum jovem que mal conhece as realidades faz uns cálculos econométricos, às vezes a partir de pressuposições bastante duvidosas, e baixa a nota de um país inteiro." Mesmo essa crítica tem mais um quê de simplificação do que de verdade. A Folha de S.Paulo recentemente (7 de julho de 2002) entrevistou um dos mais influentes gestores de fundos. Não por acaso, a matéria abre quebrando a mistificação em torno do despreparo dos operadores: "O currículo do gestor de fundos Mohamed El-Erian, um nova-iorquino de ascendência egípcia, contradiz o provérbio segundo o qual o destino de economias emergentes está nas mãos de jovens de pouco mais de 20 anos que compram e vendem títulos de governos como se estivessem matando inimigos imaginários em jogos de computador."
Se em relação às notas das agências de classificação é possível apontar os "culpados", o mesmo não acontece com o risco-país. Num mercado de transação secundária, localizada em um "não-lugar", como afirma Gustavo Franco, os players são completamente impessoais e afetam o mercado em tempo real.
Decerto a mídia pode não estar cobrindo esses detalhes técnicos direito, pois o professor Beraldo, que não vê TV para se concentrar na leitura de jornais impressos, consegue fazer essa confusão entre ratings e risco-país. Daí tira a seguinte conclusão: "Mas a mídia impressa parece que está todinha comprometida com essa história de que se não elegermos o Sr. Serra, que é ‘o confiável’, este ataque especulativo ora em curso será resmungo do agiota da esquina perto do que vem por aí". Premissas falsas para uma conclusão de mesmo teor.
Há muito o que criticar da cobertura econômica da imprensa no Brasil. Mas não acredito ser o caso quando se noticia um índice que, de fato, é um termômetro da desconfiança em relação ao país. Achar que daí se segue uma conspiração dos jornais para eleger Serra é devaneio.
Renato Lima, estudante de Jornalismo da UFPE
Antonio Fernando Beraldo responde
Parabéns, prezado Renato! Você passou quase "full" em Econometria – só faltou deduzir a fórmula da composição do índice. Precisamos de gente como você, que se revelará um ótimo profissional nesta área. Mas, infelizmente, perdeu média em Português (Interpretação de Texto) e Estatística Básica. Quanto ao artigo, deve ser um defeito meu, pois alguns leitores não conseguem perceber algumas ironias, às vezes sutis demais, outras vezes grosseiras, que uso em meus textos. Quanto à Estatística, tomo a liberdade de lhe recomendar algumas leituras sobre os temas Robustez de Medidas, Fidedignidade e Validade (o livro do Hoffman é um bom começo). Estas devem lhe esclarecer boa parte das safadezas que rolam por aí. Quanto à mistura entre ratings e price indexes, não há confusão – são faces sombrias da mesma moeda. Sobre a maravilhosa história do desenvolvimento comercial dos nossos irmãos do Norte e o que seus adoráveis players e banqueiros fizeram e fazem com o nosso país, e a nossa aparentemente incurável ingenuidade, para começar é bom dar uma espiada em Mad Maria, do Márcio Sousa, ou Mauá, do Jorge Caldeira. Neste, às páginas 94-95, p. ex., está uma boa amostra do que seja "percepção de risco". Isto não passa na TV, e nem sai nos jornais impressos. Outra coisa boa é ler a entrevista do Sr. Delfim Neto no Jornal do Brasil de 14/7. Está na rede. Um abraço. (A.F.B.)
Nota do OI: A esse propósito, como complemento à literatura histórica recomendada, nunca é demais lembrar trecho da autobiografia do general fuzileiro americano Smedle Butlers, publicada em 1931. "Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo. Servi em todas as hierarquias, de tenente a general de divisão. Neste período fui pistoleiro de primeira classe para os grandes negócios, para Wall Street e os banqueiros. Assegurei o México para os interesses do petróleo dos Estados Unidos em 1914. Ajudei a converter Haiti e Cuba em lugares decentes para os rapazes do National City Bank. Ajudei a limpar a Nicarágua para os irmãos banqueiros Brown, entre 1909 e 1912. Deixei a República Dominicana madura para receber os interesses açucareiros americanos em 1916. Ajudei a abrandar Honduras para as companhias de frutas dos Estados Unidos. Acho que podia dar a Al Capone alguns conselhos, porque seu poder não ultrapassou três bairros. E nós operávamos em três continentes." (M.C.)
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