Lula cumpre um ano: valeu a pena?
Rocco Cotroneo (*)
Crescimento bloqueado. Desocupação aumentando. Reformas sem solução. Todavia os estrangeiros investem, a confiança se mantém e também a Bolsa voltou a deslanchar. Para o "homem dos milagres", que tinha que mudar o colosso sul-americano (e a esquerda mundial), chegou o momento do primeiro balanço. Ai está.
Lula fala, Lula ri, Lula decide, Lula não decide. As democracias presidenciais têm isso de bonito: o povo elegeu uma pessoa de carne e osso, olha somente para ele de manhã à noite e também nos fins de semana. Todo o resto é contorno. O que está fazendo Lula? – é a primeira pergunta que um brasileiro ouve ao botar um pé fora do país. Ou talvez um turista estrangeiro, que tenha somente passado uma semana pegando sol na praia: – Vai bem ou não? Ainda agrada? É verdade que prometeu muito e o Brasil continua o mesmo? Qualquer resposta que se procure aprofundar desilude um pouco. O sistema é à rockstar, a regras da política-espetáculo, personalizada, nesse caso valem o dobro.
Comecemos então, de outra forma. Com uma lista daquilo, que seguramente, Luiz Inácio Lula da Silva não fez, desde 27 de outubro do ano passado, quando foi eleito presidente do Brasil, com esmagadora votação. Não fez a revolução, mas isso era esperado. Não fez fugir do país os capitais e as empresas, nem criou pânico em Wall Street, como preconizavam seus adversários. Não brigou praticamente com ninguém, deixando com poucos argumentos seus opositores internos. Até agora não tomou decisão alguma considerada digna de constar dos livros de história. Idéias muitas, escolhas pouquinhas. Não entusiasmou os pobres, nem desiludiu os ricos. Quem votou nele o refaria, quem não votou ficou com algumas dúvidas, mas nada de desesperar.
Que tipo de presidente, revelou-se então, o vencedor acompanhado a Brasília com expressões fortes como sonho, esperança, mito, história, paixão? Talvez o melhor caminho para entendê-lo é voltar ao homem. Lula é um ex-operário de origens camponesas, que a vida inteira, essencialmente, foi sindicalista e viveu cercado de um grupo de fiéis "companheiros". Dos campos áridos do Nordeste Lula trouxe consigo a paciência camponesa e o olhar para o céu sem uma nuvem, à espera da chuva. Muitas vezes da impressão de movimentar-se como se devesse ficar no governo por algumas décadas. Um passo de cada vez e, quando necessário, um passo atrás. Não tem as ambições dos seus velhos amigos Hugo Chávez e Fidel Castro; o primeiro sonha verdadeiramente em ficar no poder da Venezuela até o fim de seus dias; o segundo em Cuba o conseguirá.
Todavia, como eles, Lula tem consciência de ter nas costas séculos de problemas, e para resolvê-los seria necessário muito tempo. Pode-se dizer isso, numa democracia, a quem enfiou a cédula na urna com teu nome porque não tem emprego, casa, água potável e hospitais? Certamente não, contudo se pode pensar e agir de conseqüência também numa democracia. Ponto a favor da honestidade intelectual, até agora.
Dos anos do sindicalismo, Lula aprendeu uma extraordinária capacidade de mediação, de acalmar e depois convencer o interlocutor. Os seus operários, na verdade, jamais chegaram a um embate, assim como o seu PT acompanhou o Brasil da ditadura à democracia, com nada além que algumas greves e encontros nos estádios. Com toda a paciência necessária: foram precisos anos de limbo, para passar dos generais às eleições diretas para presidente. Hoje Lula não submete, coopta. Fez passar suas reformas no Parlamento, onde não tem maioria, convencendo os adversários que não convém ser malvados, assim os traz para seu lado. Por outro lado, eleito por 53 milhões de votos, hoje o presidente ainda goza de um consenso pessoal superior ao 70%. Resultado que soa extraordinário num país onde a economia está estagnada, as pessoas têm menos dinheiro no bolso que dois anos atrás e o desemprego cresce. Lula não prometeu a Lua, mas um país mais justo. Não declarou guerra a quem tem muito, mas à fome. Talvez seja vago, mas evita de identificar inimigos em carne e osso.
Está mantendo um estilo direto, que o leva falar todos os dias para qualquer platéia, a usar o boné de qualquer agremiação e a evitar, no geral, as perguntas dos jornalistas. Os quais, e ele o sabe, não têm a confiança das pessoas. Estilo que leva a entender por que, depois da origem camponesa e sindical, também o terceiro componente do DNA de Luiz Inácio aparece ainda vencedor, aquela de líder de um grupo de amigos que estão jogando juntos a partida de suas vidas. No vértice do poder brasileiro Lula colocou um grupo restrito de pessoas, que a Constituição não prevê, mas que age acima do conselho de ministros (sic). Com os "companheiros" José Dirceu, Luiz Gushiken, Luiz Dulci e poucos outros, Lula não se limita a manter reuniões. Os convida aos domingos para o almoço no jardim – o churrasco brasileiro de todas as classes e latitudes – e depois, inevitavelmente, se joga bola. Quando algum deles aparece na segunda feira com o tornozelo enfaixado – e acontece com freqüência – o Brasil sabe por quê. Uma vez por semana, sempre no palácio presidencial, todos ao cinema, "para dar apoio à produção artística nacional".
Que depois milhares de homens fiéis ao Partido dos Trabalhadores foram colocados a ocupar cargos públicos, com direito a honras e carros oficiais, parece ainda um pecado venial. Enquanto há confiança (mas até quando?), Lula obscurece as dezenas e dezenas de ministros por ele nomeados. Faz esquecer que o próprio escudeiro da economia Antônio Palocci não é um acadêmico de Chicago, mas um médico pediatra (sic) do interior. Enxuga as lágrimas da ministra do Meio Ambiente Marina Silva, "passionária" da Amazônia, que ameaçava pedir demissão, por causa da liberação da soja geneticamente modificada. Todos os outros responsáveis por ministérios como saúde, educação, cultura são deixados a administrar o existente, porque não há dinheiro. Conseguirá manter-se fiel o lulismo? Para saber serão necessários outros 365 dias. A propósito: Lula prometeu que o bonito já está para começar. Até agora somente tomou medidas.
(*) Texto publicado na revista Sette, do Corriere della Sera de . Traduzido pelo leitor Giulio Sanmartini, Belluno, Itália