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COTAS PARA NEGROS
Mais preconceito

Sou negra e atualmente curso o quarto ano de Economia na Unesp. Ingressei na universidade pelo método tradicional, e quando soube da política de cotas adotada pela Uerj me perguntei se essa iniciativa só não reforçaria o preconceito, colocando sob o alvo de severas críticas aqueles que conseguiram aprovação pelo novo método.

Particularmente, acredito que me sentiria inferiorizada intelectualmente se tivesse ingressado na faculdade por um processo seletivo como esse. Contudo é interessante notar que surgem aos poucos propostas de mudanças e, principalmente, que o tema está recebendo a devida atenção pela mídia. Cabe a nós continuarmos o debate.

Mariana Correa Barra

 

Discutir é preciso

Estou particularmente interessada no assunto, sobre o qual escrevi dois ou três artigos há alguns meses. É muito importante que a discussão continue, aberta e sincera. Como ex-aluna e ex-professora aposentada da Universidade de Brasília, filha de pai operário e doutora pela universidade de Paris e pós-doutora pela Universidade de Harvard, quero muito participar desse debate. Parabéns pelo texto.

Maria de Lourdes Teodoro

 

Outras questões

Ao ler as matérias referentes a reservas de vagas (cotas) aos alunos negros e/ou carentes por universidades públicas, deparei-me com algumas dúvidas: de onde provêm os recursos para a manutenção das universidades públicas? Apenas do exercício produtivo dos membros escolarizados e/ou economicamente "bem sucedidos" de nossa sociedade ou pela nação como um todo, inclusos doutores, analfabetos, miseráveis, banqueiros e tantos mais?

Ao observar a freqüência de nossas universidades públicas percebemos como as classes A e B ali se estabeleceram. Em um país onde toda a população paga pelos recursos aplicados nestas universidades, que critérios permitiram que elas se tornassem reduto para os mais abonados?

Os mecanismos para o ingresso nos cursos de terceiro grau atendem a verdadeira prática democrática que garante o acesso à educação por todos?

Considerando os mecanismos de acesso ao ensino fundamental público – a que todo e qualquer representante da raça humana tem direito –, e os mecanismos de ingresso nas universidades públicas – provas de seleção, cujos critérios carecem de uma explicação mais explícita –, seria possível cobrar homogeneidade dos candidatos a graduação?

O que a sociedade entende por educação de qualidade? Quais os pressupostos que deveriam ser aplicados na educação fundamental para promover a formação de um aluno "bem formado"?

Como professora do ensino fundamental, observo que meus alunos iniciam sua escolarização nos mais diferentes "estágios" de apropriação cognitiva. Uns aprenderam em seu convívio social a função dos diversos veículos de comunicação e mesmo não sabendo decodificar convencionalmente os signos alfabéticos sabem que o texto exposto em uma página de jornal tem uma diferente função do que é colocado em uma bula de remédio, ou numa revista em quadrinhos; dominam rudimentos de informática, têm acesso a um grande acervo de vocábulos e expressões idiomáticas além de informação relevante e globalizada sobre o dia a dia do planeta; têm acesso a saneamento básico, sistema de saúde eficiente, lazer, práticas esportivas e principalmente tempo para as atividades lúdicas – o brincar.

Outros não.

Algumas crianças chegam em minha turma sem jamais ter tido contato com um lápis ou um livro. Expressam-se somente de acordo com a variedade lingüística de seu meio social, bem diversa da norma culta (pobrema, a gente vamos, largato etc.); chegam à escola com fome, doentes, cansados após tarefas laboriosas; em muitos casos são vítimas da violência familiar e social, encaram a sala de aula como um oásis de lazer, alimentação e principalmente de descanso. Essas crianças precisam aprender outro idioma (o português padrão), abstrair-se para conhecer as novas tecnologias (já que ter acesso real a elas é financeiramente impossível), dividir o tempo de forma a encontrarem tempo para estudar, garantir sua subsistência, dotar-se de profundo equilíbrio emocional a fim de superar os infortúnios físicos, causados pelas doenças e emocionais, causados pela violência e pelo preconceito.

Como nivelar as crianças? O que ensinar? Como proceder para que ambas detenham o mesmo saber e as mesmas oportunidades? O que as Universidades levam em conta da trajetória de vida de seus aspirantes a graduandos? Qual o saber que as universidades valorizam? A universidade se dispõe a ensinar (chama de hipossuficientes aos alunos que lá chegam com algo a aprender) e se o faz, o que ensina (além das sugestões bibliográficas)? Qual é o seu papel na formação de uma sociedade mais justa e igualitária?

Sou também graduanda e todas as vezes que chego à universidade, cansada, após lecionar o dia inteiro, e tenho que assistir a uma aula enfadonha, pouco criativa e que muitas vezes resume-se em discutir sobre o livro que melhor se adequa às teses desenvolvidas pelo meu professor, respiro fundo e me tranqüilizo. Afinal, estou me preparando para ser, daqui a alguns anos, professora universitária, e assim, poder parar de dar aulas.

Quanto às cotas, talvez, fosse uma boa sugestão manter essa população "mal-preparada" trabalhando e gerando receita a fim de sustentar a "boa formação" da intelectualidade brasileira. Quem quiser, que ponha seus filhos em uma "boa escola" e espere que eles acessem a universidade de acordo com os critérios estabelecidos pela elite sócio-econômica do país.

Cláudia Lúcia Duarte Silva

Leia também

Educação e a política de cotas – Nilson Lage

Política de cotas e democracia racial – Victor Gentilli

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