|
DO RECURSO AO MÉTODO
República Diafônica Brasileira
Assim como nos governos, nas orquestras nem sempre se fazem necessárias "ações intempestivas ou movimentos bravíssimos": são exigidos quando é questionável a qualidade dos instrumentistas, servindo também para ocultar certas ausências imperdoáveis das interpretações, não obstante gozem, hoje em dia, da simpatia do público (mesmo daquele nem tão desconhecedor assim) em detrimento até da música que quiseram consertar. Eminentemente técnica, a verdadeira arte da condução de um grupo de músicos procura distanciar-se o suficiente do ofício dos atores ou, melhor dizendo, daquele dos bailarinos, cujos corpos são educados para se conduzir em sorte de analogia com discursos como o da música, por exemplo (digo isto por haver quem dance poesia e mesmo o silêncio).
Para o conhecedor são dignos de nota e lástima tanto os movimentos desmesurados dos regentes sem resposta sonora compatível quanto a ausência do gesto adequado, na ocorrência de frase cuja execução o demandou.
Do lado dos conduzidos, os músicos, são inconvenientes as manifestações pessoais, exceto se na partitura se exige um solo. Garante da pretendida homogeneidade de concepção, não da manutenção do ritmo (esta pressuposta na formação de um bom músico), a figura do regente é incondicionalmente acatada pelos instrumentistas.
Por fim, guardadas as condições técnicas de cada orquestra, ditadas pela qualidade dos seus músicos, há regentes que delas fazem melhor proveito do que outros.
Quando o assunto é o Estado, não sou lá conhecedor profundo, mas curtido em certa idade o bastante para, mesmo não tendo morado senão no Brasil nos últimos 46 anos e não obstante o contínuo desconforto a que é submetida a nação há muito mais de quatro décadas, ter provado de algum bem estar, o bastante para torná-lo inesquecível e assim reconhecível em suas escassas aparições entre nós. Creio, em suma, saber avaliar quando se sente ou não se sente bem a minha cidadania, o suficiente para protestar e exibir as razões do meu protesto, a despeito de uma educação omissa em termos do real significado de 'civismo' (como o foi a do período da ditadura).
Se o Brasil fosse um teatro de ópera estaríamos vivenciando uma interminável fase estilística onde o antes "revolucionário" tornou-se clássico, tendo cooptado todos os compositores, agora meros conservadores: o abuso da dissonância é inequívoco, aqui e ali pontuado de solitárias tríades menores ou de uma cadência conclusiva.
Mas não adianta culpar o regente, embora o seu nome assine cada concerto, pois de fato nem tudo pode de sua condição, havendo quem por trás de si determine a ordem do programa e mesmo muitos ou todos os números, modulando-os segundo uma data, uma ideologia e mesmo uma preferência de algum mecenas a sustentar aquilo tudo. À frente do grupo, a biografia do maestro serve apenas de paliativo para os desígnios do poder que suporta o palco onde pisa: como em A festa de Babete, é esse o preço do exercício compulsivo de sua arte. Como muitos de nós, o nosso presidente sempre desejou sê-lo, decerto pelos motivos de todos: sua posse de semanas, uma das mais longas da história das democracias, pode ser dada como prova disso. Alguns viram nesse período uma campanha prolongada, como se Lula, pasmo com a realidade, recusasse despertar do sonho de candidato: a caravana à miséria foi talvez um seu gesto bravíssimo, com que deu por finda a fase, começando então a propriamente governar.
Mas estaria ele a governar propriamente?
Ora, diriam os jornais recentes, mas como não? O superávit primário, o dólar baixando, a revisão do risco da aplicação em papéis brasileiros, os lucros bancários! Já o outro lado das manchetes, pouco freqüentado pelo semi-analfabetismo e suas seqüelas, conta: onde estão ainda as doações para o Fome Zero e qual o estado desse projeto monumental (cujo nome se pronuncia Brasil e cuja sustentação é assombrosamente dependente do reinados como o de ACM); como deverão ser as leis trabalhistas até o fim do ano; qual a remuneração mensal de cada político e desatinos mais, sem fim.
E a esses que até viram a folha do noticiário (considerável fatia do eleitorado petista composta de estudantes e intelectuais), é oferecido osso duro o suficiente para mantê-los ocupados enquanto nada de melhor se tiver para dizer: argumentos fortes e 'tacitamente irrecusáveis' como têm sido para boa parte do ocidente os cartesianos do Discurso do Método (que admitem visar mais o domínio de si que a manipulação alheia), embora usados como meros instrumentos de um modo dissimulado de despotismo.
Tenho como certo ser todo governo um bem dosado coquetel de despotismo e democracia, uma vez jamais satisfazer a unanimidade. A atual gestão brasileira, como parece típico do nosso povo, inventa um novo jeito – da aparência mais cordata – de sê-lo e, não bastasse isso, invertendo surpreendentemente os destinatários de suas ações.
Enfim, nestes dois meses de música petista, cada qual toca como quer – embora todos digam ler a mesma partitura – e o maestro abusa dos "gestos intempestivos" sem maiores efeitos senão para quem é desatento ou surdo: é evidente a falta de recursos técnicos básicos e, se há alguém sinceramente satisfeito com tudo isso, este não sou eu, nem é ninguém do meu círculo próximo. Há aplauso, que parece vir dos camarotes e das frisas e acho que sou obrigado a ficar até o final sem sequer saber se consigo de volta o dinheiro do ingresso...
Waldemar M. Reis
Walter Regis responde
Caro senhor, desejo inicialmente agradecer pela gentileza de sua resposta ao comentário que fiz; não acredito que seria possível a uma pessoa com sua visão e seu conhecimento intelectual se dispor a receber novamente o dinheiro do ingresso e abrir mão do aprendizado, mesmo sendo o espetáculo de qualidade duvidosa e o maestro estar encontrado dificuldades na regência. Acredito sim que o senhor estará torcendo intimamente como todos os outros espectadores para que no próximo movimento o show possa surpreendê-lo e, como todos da platéia, possa levantar-se e gritar "Bravo", "Bravissimo", e pedir bis para a performance do maestro.
Esperança, caro senhor, ainda é a resposta para a desventura dos oprimidos, e educação é o caminho único para os poucos escolhidos. Estou estudando como outros poucos privilegiados e desejo que jamais eu me afaste da esperança, ela é a energia que move os empreendedores, ela é tão forte quanto a fé que todos devemos ter. (W.R.)
Leia também
Descartes a serviço do príncipe – Waldemar M. Reis
Brasil não é orquestra – Walter Osvaldo Webski Regis, no Caderno do Leitor (rolar a página)
|
|