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Edição de Marinilda Carvalho

Amigos, a maioria das cartas trata da execução de Tim Lopes pelos traficantes, os verdadeiros donos do Rio.

Vale destacar que muitos leitores consideram corporativista a reação da imprensa, que deveria botar a boca no trombone também sobre os assassinatos de cidadãos não-jornalistas.

Em primeiro lugar, a imprensa faz isso o tempo todo. Muitos consideram até que a mídia é sensacionalista na cobertura policial. Em segundo, não é culpa da imprensa se a população não se mobiliza quando seu vizinho é executado. A imprensa se mobilizou.

Por fim, algo maior precisa mesmo ser feito quando é abatido o último freqüentador com passe livre nos morros. Os moradores são vítimas do traficante, os comerciantes também, até os policiais só vão à favela em grandes contingentes. Os jornalistas eram os derradeiros personagens com algum salvo-conduto para ir e vir. Isso acabou.

Como esses leitores esperam saber do que se passa nesta selva se os jornalistas são mortos?

A matéria pode não ter a finalidade desejável, a imprensa pode estar tristemente distanciada de seu público, a descrença em tudo e em todos é geral. Mas o jornalista precisa poder testemunhar os fatos e sobreviver para contá-los. Não porque é melhor ou pior do que o seu vizinho, leitor, mas porque no exercício da profissão ele é seus olhos e ouvidos, os olhos e os ouvidos do cidadão.

Só por isso o jornalista é especial: sem a presença dele tudo pode acontecer, e você nunca saberá. E aí, caro amigo, a vaca vai de vez pro brejo.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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TIM LOPES
Luto com luta

A indignação diante do brutal assassinato de Tim Lopes ecoou por todas os meios de comunicação. Obviamente que já ouvi dizerem que tudo isso é só "porque o cara é da Globo, pois morre gente assim todo dia e a mídia não faz esse estardalhaço". E é esse tipo de resistência consciente a tudo que envolve esse fato que me faz ficar ainda mais preocupada. Há coisas que precisam ser ditas de modo enfático, tal como o fato de que o trabalho investigativo de jornalistas como Tim em todo o mundo tem servido para salvar pessoas da morte cruel, do abandono e da violência. A sociedade precisa conhecer a importância desse trabalho e o que significa assumi-lo não só em termos profissionais, mas também políticos e humanos para o jornalista e para a sociedade.

A cosmetologia e o sensacionalismo caminham juntos no embotamento de uma visão que poderia ser mais apurada sobre o que representa um trabalho profissional na áreas de informação e comunicação. Ninguém sabia quem era Tim, nem vai saber quem é José ou Maria, que continuam a lutar para buscar a verdade de fatos que podem pôr criminosos na cadeia e salvar gente inocente até que um algoz os assassine cruelmente.

Quando manifestantes desarmados são mortos numa ação política coletiva e pública, como em Eldorado dos Carajás, aparece a imprensa corrupta para fazer a campanha anti-MST e pró-repressão, mas aparece uma voz minoritária de gente que tem compromisso e foi lá conferir tudo porque se engajou na produção de uma informação verdadeira que sirva à sociedade e não abre mão disso. Esses profissionais são os essenciais, aqueles que fazem a história da imprensa. Por tudo isso precisamos ainda que os jornalistas nos falem sobre como os riscos por que passam são fruto não só da natureza da atividade mas das relações de exploração profissional.

Sabemos que a morte de Tim foi uma tentativa criminosa e imbecil de intimidar os jornalistas, pois com a sociedade em geral já se faz isso todo o tempo. Sabemos que querem preservar obscuro o mundo opressor do narcotráfico que impera sobre todo um povo. No entanto, se optarmos por não deixar ao Tim a condição de mártir mas, para além disso, a de símbolo de uma nova consciência social sobre a importância do trabalho da imprensa, estaremos qualificando o impacto dessa tragédia e trazendo a sociedade para perto do jornalismo, fortalecendo-o e enfraquecendo não apenas a prática do extermínio material, mas também intelectual dos jornalistas. Afinal, diariamente o trabalho de muita gente competente é "assassinado" nas redações para que vozes sejam caladas e evidências não venham à tona em prol do interesse sujo de alguém ou de alguns.

Viva a liberdade de imprensa! Viva o compromisso com a informação verdadeira e com a sociedade! Viva Tim Lopes!

Wilma Pessôa

 

Faltou ir à polícia

Não sou jornalista, mas acompanho semanalmente os artigos deste sítio. Em relação ao caso Tim Lopes, acho que alguns questionamentos devem ser feitos, de forma a estabelecer até que ponto a emissora líder de audiência neste país tratou a matéria. Quando houve o recebimento da denúncia não teria sido aconselhável obter esclarecimentos com as autoridades policiais em relação à segurança?

Houve a preocupação com a segurança pessoal do repórter? Uma cobertura de apenas uma pessoa seria sensato? Ao não retornar no horário não seria indicado acionar as autoridades policiais, comunicando o teor e as condições da reportagem? Pelo que consta o repórter desapareceu entre 20h30 e 22h (quando deveria retornar).

Integrantes da quadrilha de Elias Maluco confirmam a morte de Tim em torno de meia-noite. Não daria tempo de se montar uma operação de busca nos locais da quadrilha? Talvez, ao avistarem a presença de uma operação policial, o repórter fosse libertado. A emissora somente noticiou o desaparecimento pela manhã.

Foi uma tragédia, mas pior é ocultar com argumentos outros a triste forma como a reportagem foi conduzida pela direção da emissora, abdicando da segurança e da integridade física de um ser humano em favor de um reality show.

Luiz Fernando Mendes de Santana

 

Mais teoria aliada à prática

Acho que os jornalistas deveriam debater mais alternativas de como sobreviver ética e humanamente no dia-a-dia da profissão. As teorias são lindas, porque nos dão o caminho correto a seguir, ou, pelo menos, a não nos corrompermos e nos perdermos completamente. Mas, na prática, o que vemos hoje são veículos de comunicação sempre amarrados de uma forma ou de outra a um poder econômico. Creio que a censura econômica é a pior de combater. E, muitas vezes, me pergunto se vale a pena ser jornalista. Na academia, as teorias, belíssimas, não nos preparam para o que vamos sentir na pele todos os dias. Gostaria que pensassem nisso e nos ajudassem a combater as guerras diárias em busca da verdade mais próxima que podemos alcançar, para que realmente exerçamos a nossa importância social na formação da opinião, com informação de qualidade, ética e de grande responsabilidade.

Monica Carvalho

 

De luto por Soros também

"Calai-vos fariseus, a Roma dos Tibérios, quem disse que sepulta a ossada dos impérios..." (O régio saltimbanco, de Fontoura Xavier). Concomitantemente ao desaparecimento do repórter investigativo Tim Lopes, O Globo publicou, em sua edição de domingo, declarações de George Soros. E, em função da dor pelo desaparecimento do jornalista – perfeitamente compreensível –, a gravidade das declarações do megainvestidor ficaram apagadas.

O que ele disse foi gravíssimo! Algo para justificar uma crise diplomática. Pois, afirma claramente, não são os brasileiros que elegem seu presidente, mas o mercado global. Ignorando completamente as suspeitas de fraude na eleição de W. Bush, ele entende que são os americanos da Roma neoliberal que votam lá nos EUA e... aqui no Brasil.

Afirma que ou votamos em Serra ou acabamos no caos – com Lula! Temo que, por mais dolorosa que tenha sido para a imprensa a perda de Tim, a perda do nosso respeito como cidadãos brasileiros não fica muito atrás. O enxovalhar da nossa soberania. E acho que a reação do nosso governo foi muito branda para palavras tão ofensivas.

Por que não coexistem nas manchetes esses dois lutos?

Fernando Dias Campos Neto


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