19/08/2003

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Edição de Marinilda Carvalho

A julgar pelo número de cartas sobre o assunto (18, em 43 mensagens), a morte de Roberto Marinho e a maciça cobertura que mereceu da mídia continuam assuntos candentes, duas semanas depois.

O tom apologético dessa cobertura claramente contraria a imagem que a maioria dos leitores construiu sobre a vida e a obra de Roberto Marinho. Um debate instigante. Por sinal, neste e em vários casos, a ausência de sincronismo entre imprensa e leitor, tão freqüente, às vezes abissal, é um dos tópicos mais estimulantes da crítica da mídia.

Aproveitemos a oportunidade.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. E se reserva o direito de solicitar ao remetente o número de seu telefone para eventuais checagens de informação. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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ROBERTO MARINHO
Shakespeare explica

Cabe recordar o discurso de Marco Antônio no Júlio César, de Shakespeare:

"O mal que o homem faz sobrevive, o bem, geralmente, é sepultado junto com ele."

Pode-se dizer que o grande legado de Roberto Marinho, no sentido de praticamente fortalecer a confusão entre liberdade de imprensa e liberdade de empresa, já encetada, antes, por Assis Chateaubriand, é algo bem presente. Por outro lado, a força do seu conglomerado, como bem colocado nos questionamentos postos por Alberto Dines, aponta para o modo como a vedação constante do § 5º do artigo 220 da Constituição Federal foi simplesmente tornada letra morta.

Com efeito, o mercado midiático é oligopolizado, e cabe, mesmo, perguntar com o eminente jornalista:

"Como criar no país outras grandes corporações jornalísticas num momento em que as atuais empresas, além de quase falidas, estão sendo comandadas por administradores, financistas, engenheiros, empresários e fazendeiros?".

Neste sentido, o juiz federal no Rio de Janeiro Luís Gustavo Grandinetti de Carvalho (Liberdade de informação e o direito difuso à informação verdadeira, Renovar, Rio de Janeiro, 1994, p. 56) disse:

"A sofisticação dos meios de comunicação de massas e o alto custo dos equipamentos necessários para pôr em funcionamento um veículo da imprensa, principalmente a televisão, acaba por acarretar um alijamento da imensa maioria da população da possibilidade de informar. Desta forma, o direito de informar só é verdadeira e praticamente alcançável por pouquíssimas pessoas ou grupos que disponham de condição econômica para arcar com um empreendimento de tal envergadura."

Em várias oportunidades, tanto neste Observatório como no meu livro Os Meios de Comunicação no Direito Econômico, vim chamando a atenção para o fato de que o aludido veto constitucional está a necessitar de um estudo mais aprofundado. E os dados postos por Alberto Dines, ao comentar o caráter concentrado do mercado midiático brasileiro, concentração esta que teve em Roberto Marinho e Assis Chateaubriand seus principais protagonistas, com alguns coadjuvantes de certa expressão, como os Civita, os Bloch e os Mesquita, nos convidam, recorrentemente, a tal reflexão.

Ricardo Antônio Lucas Camargo, advogado em Porto Alegre, doutor em Direito pela UFMG

 

Os erros e a morte

Eu me solidarizo com a família, mas a morte de uma pessoa não pode apagar de vez todas as suas ações, mesmo que em toda sua vida tenha acertado mais do que errado. Mas errou. A imprensa não podia de forma nenhuma deixar de lembrar como Roberto Marinho influenciou negativamente na política no período da ditadura. Mesmo sendo jornalista, e como escreveu Alberto Dines em seu artigo, "porque era um jornalista queria participar, influir, intervir e mesmo protagonizar", de forma nenhuma poderia usar a TV Globo e suas ramificações para que concretizar suas idéias sobre o que seria bom para o Brasil. Não é segredo como Roberto Marinho lutou para que Lula não fosse eleito em 1989. E não só isso, o caso NEC, por exemplo, usando sua influência para nomear ACM como ministro das Comunicações... e o resto da história todos conhecem.

Roberto Marinho pode ter sido um grande empresário, visionário, empreendedor e mais tantas outras coisas, mas usou de acordo com seus interesses uma grandiosa estrutura em benefício próprio, desrespeitou a Constituição (caso Time-Life), sendo beneficiado por um decreto presidencial. Pelo menos na faculdade isso era tido como "falta de ética".

Erros não podem ser esquecidos com a morte.

Kiko Machado, Univale, MG

 

Sabemos quem foi

Nós que temos mais de 55 anos sabemos quem foi Roberto Marinho. Ele foi um porta-voz da ditadura. Sua TV foi criada para dar sustentação ao regime militar. Ele, politicamente, não foi este homem virtuoso que estão dizendo. Ficou contra as Diretas, até notar que estava na contramão, e para não ficar mal mudou de lado. Nós que estivemos nos comícios sabemos disso. Ele deu todo apoio ao Collor. Fez aquela famosa montagem contra o atual presidente Lula na eleição de 1989. Esteve ao lado de Collor no processo do impedimento político, até notar que estava novamente contra a maré, e mudou de lado.

A sua família, de luto, que respeitamos, deve ter perdido um grande homem, mas o Brasil não.

Ruy Magalhães Viola

 

Mais cristalino

Num país em que se rendem homenagens a alguém que se fez e se consolidou e construiu um império às custas do regime militar há sinal de que o povo tem memória muito curta. Estou cursando pós-graduação em História Contemporânea do Brasil, e fica mais cristalino para nós o que representa o papel nefasto da Rede Globo para o nosso país.

Plauto Gyanny

 

Sucesso e fracasso

Parabéns (parcialmente) pela diferença do texto em relação à mídia nacional. Para buscar um pouco mais de verdade li artigos em Le Monde, The Guardian, entre outros, um pouco mais decentes dos que os do Brasil. Vale ressaltar que decentes em relação a notícias sobre nós, não sobre eles próprios (franceses, ingleses etc.), que pecam igualmente quando existem interesses de seus próprios mafiosos. Uma lacuna que achei imperdoável no texto foi a façanha de uniformização dos costumes dos brasileiros, principalmente pelas telenovelas. Hoje o mesmo cidadão é visto em qualquer parte do país sem qualquer identidade com as referências regionais. Felizmente temos alguns focos de resistência cultural que, espero, vençam a mediocridade da uniformidade humana imposta por este influente jornalista imperialista.

Outro problema sério do texto é que coloca administradores, engenheiros e demais profissionais como incapazes de levar adiante uma empresa jornalística. Antes de ser jornalista, um administrador de empresas de mídia tem que ter honestidade e competência de gerência. Para isso esta pessoa pode até não ter curso superior. Basta inteligência e honestidade, o que é coisa rara nesta imprensa maldita. Nas entrelinhas ficou clara a afirmativa de que o Dr. Roberto foi uma pessoa bem-sucedida. Para quem escreveu, bem-sucedido é ter grana e poder. É uma questão filosófica. Para mim ele configurou um fracasso humano sem precedentes. Daqui a pouco, com a falta da âncora num pensamento sem maldade, vão justificar que Adolf Hitler, Ariel Sharon e semelhantes desempenharam um grande papel na história.

Luciano Arruda, engenheiro civil, Recife

 

De passagem

Nós, vivos, precisamos seguir em frente, tenho plena convicção de que a pessoa em questão, como todos os outros bilhões de seres habitantes deste pobre planeta, não é insubstituível. Estamos aqui de passagem.

Walter Osvaldo Regis

 

Com licença!

Esse Observatório da Imprensa é uma piada. E sobre a falsificação de documentos, estelionato etc. na compra da atual Globo-SP, ninguém fala nada? Esse país está cheio de farsantes. Com licença!

Alfredo Pereira dos Santos

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