JORNAL NACIONAL
Porta-voz enrustido
Na minha opinião, esse meio de comunicação de massa, como muitos outros sem alma e venenosos, não passa de mais um porta-voz enrustido do sistema.
Benjamin Ribeiro
Estudante pefelista
Caro estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense Marcelo Salles: se me permite, gostaria de fazer um acréscimo – e membro do PFL. E também descer das tamancas. Eu acompanhei até altas horas da madrugada a votação da Reforma da Previdência, e admito que o discurso do estudante de Jornalismo Marcelo Salles está impecavelmente similar ao dos líderes e integrantes daquele partido. Se alguém quiser conferir, requisite o vídeo à TV Câmara. Mas não é essa razão que me faz escrever ao OI sobre o artigo do estudante de Jornalismo Marcelo Salles, mas a profusão de falácias em seu conteúdo. O seu argumento tenta arregimentar opiniões usando o discurso da indignação, mas é o argumento da oportunidade.
Tenho feito intervenções nesse espaço como leitor e sou crítico ao papel da imprensa na atualidade, em postar-se como arauto de interesses sabemos lá quais sejam, principalmente Folha, Veja e Rede Globo, cujas matérias apresentam fragmentos, com desdobramentos imprevisíveis (ou previsíveis, quem sabe?), da conduta do governo atual. No entanto, a matéria do Jornal (Oficial) Nacional desse dia mostrou o que aconteceu, sem a propaganda divulgada pelo estudante de Jornalismo Marcelo Salles. Por quê? Porque as imagens mostraram.
Eu vi e ouvi a matéria divulgando aquilo que ocorreu: uma votação de madrugada. Isso é raro no país. Aliás, que ocorreu graças "à boa vontade" dos integrantes do PFL, cujos integrantes lançaram mão de prerrogativas regimentais para obstruir o processo. A todo instante apresentavam requerimentos tentando impedir a votação, ou adiá-la para o dia seguinte. Era nítida sua intenção. Além do mais, você, que é integrante do PFL, caro estudante de Jornalismo Marcelo Salles, diga-nos: esse partido defende os interesses de quem? Nós, brasileiros, já os conhecemos. Conhecemos bem esse lobo que agora se traveste de cordeiro. Não são os nossos, tenho certeza.
Eu vi as cenas da votação durante toda a madrugada e que se repetiram no Jornal (Oficial) Nacional. O deputado João Paulo usou também de suas garantias regimentais, ou seja, a de que a matéria seria votada naquela sessão. Era para isso que estava lá. A intenção do PFL, contudo, o jornal não mostrou, ressalte-se. Eu também vi, e ninguém precisou me contar, pessoas jogando pedras no Congresso Nacional. Eu também vi, e ninguém me contou, vidraças sendo quebradas por pontapés. Eu ouvi na matéria o carro de som do sindicato pedindo para que os manifestantes voltassem à passeata. Diga-se, do sindicato que promoveu a manifestação. Se foram montadas por um mirabolante editor, dou-lhe os parabéns, pois foi uma edição muito bem trabalhada, digna de Hollywood.
Quero garantir ao estudante de Jornalismo Marcelo Salles que meu pai é policial rodoviário e ele, tanto quanto qualquer outro da sua corporação, não sabe dessa suposta ordem dada para atrasar as caravanas que se dirigiam ao Planalto. Se houver alguma dúvida dou-lhe o telefone e ele, que é anti-Lula, anti-PT e anti qualquer coisa que venha da esquerda, lhe dirá ao ouvido. A votação não foi na calada da noite, pois foi transmitida. Há o recurso da gravação em vídeo para alguém que não quisesse acompanhar de madrugada. E a votação foi maciçamente a favor do governo, até (incrível!) por gente do PFL. As galerias não estavam vazias, mas ocupadas por "manifestantes vestidos a caráter". É bom também que se diga que a Reforma da Previdência não vai atingir 16 milhões de servidores. Basta lermos os jornais, com matérias dadas por jornalistas sérios, mesmo que sejam da Folha de SP, ou da Veja, para se conferir isso. Mais uma falácia de sua parte.
Que o Jornal (Oficial) Nacional não é isento todos nós sabemos, desde os tempos em que o Partido das Falácias Liberadas governava o país, ou até muito antes. É preciso também que se reflita sobre o discurso que uma parcela de políticos está fazendo, pregando a idéia da destruição do país graças ao que a Reforma da Previdência fará. Honestamente, é desmerecer a capacidade intelectual do povo brasileiro essa falação, vinda de quem vem, de quem realmente destruiu a nação, e que agora se apresenta como "bons mocinhos", imbuídos da vontade de "ajudar o país". Ora, convenhamos.
Alexandre Carlos Aguiar
Marcelo Salles responde
Prezado biólogo Alexandre Carlos Aguiar, não, não sou membro do PFL ou de qualquer outro partido político. Fico feliz com sua resposta, pois ela me permitiu compreender que a mídia atua no imaginário das pessoas de maneira muito mais intensa do que eu imaginava. Quando você diz "porque as imagens mostraram", me lembrou uma cena do filme Mera coincidência, quando eles inventam uma guerra e um sujeito diz ao personagem interpretado pelo Robert De Niro: "Mas não existe uma guerra." Ao que ele responde: "Claro que existe, passou na TV."
Você diz que viu e que ninguém precisou te contar as pedras que atiraram no Congresso Nacional. Você diz que viu e que ninguém precisou te contar dos pontapés nas vidraças. Você está parecendo um amigo meu que disse: "Eu vi, ninguém precisou me contar que o Stédile disse que iria matar os fazendeiros." Depois o próprio Lula afirmou que essa fala foi descontextualizada. Primeira pergunta que faço: viu onde? Quem fez a edição? Quais são os interesses?
Quanto a seu pai ser policial rodoviário, peço que encaminhe ao Fernando Rodrigues, colunista da Folha de S.Paulo, que deu a informação. E, pelo amor de Deus, você quer dizer que todos os aposentados que serão prejudicados por esta reforma têm acesso à TV Câmara, um canal fechado? Um pouco de bom senso não faz mal a ninguém...
Apenas para não deixar dúvidas: concordo com o Mangabeira Unger, que disse que PSDB e PT são duas vertentes do mesmo plano. E, por minha conta, incluo o PFL. Aliás, acrescente também as empresas da grande mídia, todas em dívida com o governo.
Para terminar: foi na calada da noite, sim, de madrugada, no fim do mundo (Brasília), que eles se apressaram para votar uma reforma imposta pelo FMI. Enquanto isso, os bancos fazem a festa. E não entra na pauta do Jornal Oficial Nacional... Um grande abraço. (M.S.)