19/08/2003 7/8

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MÍDIA & REFORMAS
Estudante niilista

"O regozijo suspeito da imprensa", de Muniz Sodré: silêncio. Vai ser lamentável, mas aposto que daqui a alguns anos vamos ver neste ou em outro observatório da "imprensa" pessoas sendo entrevistadas, outras dando explicações e justificativas sobre este comportamento da mídia. Vai mudar alguma coisa? A história foi escrita: o "regozijo suspeito" da imprensa. Não custa lembrar o programa deste Observatório sobre a mídia pré-64. Na verdade, custar não custa, mas também não tem adiantado nada estes momentos de "saudosismo".

Eu faço jornalismo, estou no último ano. Vou ter um diploma que me garante poder dizer: sou jornalista. Não estou no mercado, e, admito, tenho poucas chances de estar, não sou jornalista, falta muito, faltam muitos talentos e conhecimentos, talvez tantos que nunca realize o sonho, mas não fico impossibilitado de ao menos sonhar. Contudo, acordo assustado, em pleno pesadelo: por que não temos a mínima noção do papel que cabe ao jornalismo no Brasil? Não sei se a culpa é da universidade, do FMI, do Bush, do petróleo, dos portugueses, ou minha, mesmo, por resolver perder tempo com este e-mail.

Alexssandro Loyola Freitas

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O regozijo suspeito da imprensa – Muniz Sodré

 

JORNALISMO & PUBLICIDADE
Sobre fatos notórios

Costuma-se dizer, em processo, que fatos notórios independem de prova. Entretanto, muitas vezes a própria circunstância de o fato ser notório – paradoxo, aparentemente – precisa ser provada. Isto ocorre, por exemplo, quando são tomadas todas as providências para destruir as pistas ou para escamoteá-las ao máximo. É o caso do que se coloca na resenha à obra do professor Leandro Marshall, quando diz, com todas as letras: "Repórteres e editores passaram a se autocensurar e a produzir apenas reportagens que rendam audiência, tiragem e lucro, objetivo que minimiza a obediência aos manuais de jornalismo e impõe a lógica do mercado como princípio ao que deve ser publicado".

Este dado é notório? Sim, com toda a certeza o é. Tanto que muitas vezes os protagonistas de matérias jornalísticas sabem o que a simpatia ou antipatia pessoal de quem gere o meio de comunicação e da clientela respectiva pode significar na formação ou deformação da história. Por isso que estes dados têm, necessariamente, de ser documentados, e uma obra voltada a este fim sempre será bem-vinda como prova documental.

George Orwell, a propósito, observou:

"A verdade, ao que se percebe, torna-se inverdade quando pronunciada pelo inimigo. Recentemente, observei que as mesmas pessoas que engoliam qualquer narrativa de horror a respeito dos japoneses em Nanquim, em 1937, recusavam-se a acreditar nas mesmíssimas histórias referentes a Hong Kong, em 1942. Havia até a tendência de achar que as atrocidades em Nanquim tinham-se tornado, por assim dizer, retroativamente inverídicas, porque o governo britânico estava agora chamando a atenção para elas" (Lutando na Espanha e recordando a Guerra Civil, trad. Afonso Blacheyre, Globo, Porto Alegre/Rio de Janeiro, 1986, p. 250).

Mais adiante, falando, embora, do nazismo, chega a uma prospecção interessante, que realmente dispensa quaisquer comentários:

"O objetivo contido nessa linha de pensamento é um mundo de pesadelo no qual o dirigente, ou algum grupo governante, controla não só o futuro, mas também o passado. Se o dirigente disser, quanto a tal ou qual acontecimento, que o mesmo jamais ocorreu, é isso mesmo – jamais ocorreu! Se disser que dois e dois são cinco – pois muito bem, dois e dois são cinco." (ibid., p. 257).

Ricardo Camargo

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A determinação da notícia – Armazém Literário

 

MÍDIA & BUMBUM
Que miséria machista!

Penso que algumas mulheres usam o corpo e a sexualidade tão mal e porcamente (é bem isso mesmo!), que sobrou pra nós, normais (risos) assistirmos à degradação da espécie de camarote, sem podermos fazer muita coisa. São poucas as que exibem bumbuns tratados e sarados, mas a mídia em torno delas é tão maciça (claro!), e vende tanto o peixe da mulher-objeto e dá tanta audiência (viva o ibope!) que fica até constrangedor a gente reclamar.

Tudo é uma indústria e tudo se comercializa. Bundas são exibidas para que toda uma estrutura de funcionários e suas famílias sobrevivam. Os meios de comunicação são tão perversos que o que resta a nós, reclamantes, é apenas formar opinião das pequenas mulheres que temos em casa, para que sejam mais "seletivas" com seus bumbuns. Céus! Que coisa! Que miséria machista que assola este país de lambões!

Soraya Ruffo

 

PSEUDO-INFORMAÇÃO
Enquetes sem valor

A função social do jornalismo é fornecer informação livre, de qualidade e confiável para as pessoas formarem opinião e exercerem a sua cidadania da melhor forma possível. Mas a maioria dos jornais impressos e online gosta de fornecer "pesquisas interativas" para dar dados sobre qualquer assunto. Até mesmo a americana. E, na maior incoerência, ainda publicam embaixo que não têm caráter científico. Mas se não tem validade alguma a não ser distorcer os dados, para que são fornecidas?

Por exemplo, um jornal faz uma pesquisa para saber quantos homens gostariam de ser gays. Quem vai responder uma coisa destas é quem está atrapalhado sexualmente para se preocupar com uma enquête deste tipo, e eles é que responderão. O resultado não tem a mínima representatividade com a informação real das pessoas em geral.

Há uns 20 anos ou mais apareceu no mercado de livros uma obra da ex-striper formada em Sociologia Sharon Hite, que produzira o trabalho enviando 75 mil questionários encartados numa revista feminista, e recebeu 5 mil respostas. Um pouco mais de 5% das leitoras feministas (que são as que compram uma revista assim) por motivos íntimos se sentiram compelidas a responder. Publicou grosso livro, como se fosse conhecimento sério, que vendeu ao redor do mundo milhões de exemplares e lhe rendeu muito dinheiro. Desta distorção total de amostra produziu-se falsa informação, que persistiu no imaginário das pessoas por muito tempo. E até mesmo a opinião de uma pessoa anormal (uma em cinco mil) que relatara preferir fazer sexo com uma torneira, foi encarada como informação importante.

Na atualidade tem-se usado o mesmo viés com estas pesquisas sem validade: 50% são a favor do sexo após o casamento, 90% são a favor da pena de morte, 75% acham que o presidente foi o responsável pelo apagão em 2001, 10% acham que não deve ter segundo turno nas eleições, 60% consideram que a Petrobrás deve recuperar os corpos que afundaram com a P36... Qual o valor disso, a não ser testemunhar a baixa qualidade da informação fornecida pela imprensa diariamente?

Paulo Bento Bandarra, médico

 

CASO MARTA
E se fosse um frango?

A imprensa de São Paulo deu ampla repercussão ao petardo galináceo lançado contra a prefeita Marta Suplicy. A coisa ganhou destaque nacional em decorrência de ato falho do ministro Márcio Thomaz Bastos ao comentar o caso. Há ocasiões em que é melhor calar, como diz o ditado: para a seta lançada, a oportunidade perdida e a palavra proferida não há remédio. Se não há remédio, então, remediado está. Após acompanhar cuidadosamente o caso, pareceu-me que o jovem artilheiro não teve outras intenções senão fazer uma molecagem. Atirar uma galinha preta em alguém, além de ser brincadeira de mau gosto, atenta contra a dignidade do pobre animal. Embora essas aves de limitada inteligência sejam muito apreciadas cozidas ou assadas, merecem respeito enquanto estão vivas, como merecem todos os seres vivos.

É interessante esse comportamento humano: mostramos a maior consideração pelos mortos, mas desprezamos os vivos, principalmente se forem diferentes de nós. O caso teria tido outros desdobramentos se tivesse sido comprovado que o sexo da ave era outro. O enfant terrible, em vez de uma galinha, teria arremessado um frango. Passou batido. Nenhum repórter teve a curiosidade de examinar a ave para ver o sexo. Era só levar o bichinho até uma loja de aves e ovos e verificar. Se fosse um frango, então as manchetes seriam outras, mais ou menos dentro da linha: "Frango é arremessado na prefeita".

Não sei de onde o ministro poderia tirar um veado para comentar isso. Nas repercussões do fato, os jornais chamariam as autoridades de sempre para opinar, um professor da USP, um músico famoso e um pai-de-santo, no caso a autoridade específica. O que significa arremessar um frango preto vivo numa autoridade? Mortos sabemos que eles costumam habitar encruzilhadas, acompanhados de farofa e pinga, em certos casos a pinga é acompanhada de martini doce, bebida muito apreciada pela pomba-gira. Quando eu disse que os frangos pretos costumam estar nas encruzilhadas, deveria ter dito "costumavam", nos tempos bicudos em que vivemos um franguinho com cachaça desaparece logo da rua, mesmo com entes malfazejos acoplados.

Mas, voltando à imprensa e ao episódio tão pitoresco, causou estranheza a ausência dos defensores dos animais. Onde está o Greenpeace nessas horas? O único comentário sobre a ave foi de Bárbara Gancia que, além de ótima jornalista, parece ser grande apreciadora de frangos. O episódio também revelou algo que a imprensa não aprofundou. Apesar de vivermos tempos politicamente corretos, ainda há muito machismo e preconceito campeando nestas plagas. Isso está sempre presente quando se trata da prefeita. Na minha opinião ela faz o melhor que pode e merece respeito.

Sidney Borges

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