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MÍDIA ESPORTIVA
Quando o joio vira trigo

Alguns ditos populares certamente nos ajudam a compreender o comportamento da imprensa. Inclusive a frase "editor é aquele que separa o joio do trigo e publica o joio", muito recorrente quando o assunto é a ética nos meios de comunicação, é, na verdade, todos sabemos, uma derivação da sentença: "é preciso separar o joio do trigo". Mas podemos ir além, pois muitas vezes a situação passa pela vassalagem: seguindo a "linha editorial" do seu empregador, o editor publica o "trigo" para exaltação dos seus amigos, e o "joio" para execração dos seus inimigos.

Contudo, julgando que o comportamento do jornalista acaba também por ser um reflexo da sua condição humana, talvez seja esse o cerne da questão, podemos, também, na tentativa de alguma forma justificar o injustificável – pois sabemos que o jornalista no cumprimento do seu dever profissional não deve negar o seu compromisso primordial de informar a verdade, evitando, assim, macular a fé do seu ofício –, invocar outra máxima popular: "amigo meu não tem defeito; inimigo, se não tiver, eu boto".

Entretanto, lendo, no JB, domingo, 2/9, a coluna do Sr. Armando Nogueira, tido por muitos como um dos mais respeitáveis jornalistas brasileiros, descobri – santa ingenuidade, Batman! – que a incoerência – santo eufemismo, Batman! – no jornalismo é algo que gera distorções ainda maiores: o mesmo "joio" que serve para execração de alguns pode, surpreendentemente, transformar-se em "trigo" para exaltação de outros!

A coluna do jornalista é dividida em duas partes. Na primeira, intitulada "O começo da falência", o Sr. Armando Nogueira responde às cartas dos leitores angustiados com a crise moral do futebol brasileiro. Prega a criação de um dispositivo legal que permita, facultativamente, a transformação dos clubes em sociedade anônima, faz ataques às federações, à CBF, à Fifa e a conhecidos dirigentes, como Ricardo Teixeira, Onaireves e Caixa d’Água. Segundo ele, "esses cartolas são frutos atrozes de uma velhacaria política". Até aí, nada de novo. Mesmo porque todos reconhecem na figura do Sr. Armando Nogueira um verdadeiro paladino da moralidade no futebol e no esporte de uma maneira geral, clamando sempre pelo fim dos desmandos e das manobras que ferem o espírito e as regras, morais ou legais, do esporte.

No entanto, qual não foi a minha surpresa ao ler a segunda parte da coluna, intitulada "Gol de Abílio". De imediato, imaginei que se tratasse de algum novo craque que despontara agora no cenário do futebol brasileiro e, com toda certeza, marcara um gol antológico. Nada disso: Abílio de Almeida, por Armando Nogueira, "foi, durante décadas, uma espécie de ministro das relações exteriores do nosso futebol junto à Fifa. Operava no invisível (...) guardava, a sete chaves, uma manobra que pode ter tido o valor de um título de bicampeão mundial." Depois de apresentá-lo, o colunista revela a manobra operada no invisível, "entre tantas ações diplomáticas de sua carreira": na Copa de 62, Garrincha, jogador do Botafogo, foi expulso na semifinal, contra o Chile, e seria julgado. "Na Certa, seria suspenso e não jogaria a final, contra a Tchecoslováquia. Bastava que a comissão disciplinar lesse a súmula", sentencia. E, com uma verve demasiadamente gracejadora e amistosa para um intrépido defensor da moralidade, continua: "Mas cadê a súmula? Pergunta a comissão. A súmula só pode estar com o árbitro do jogo. E cadê o árbitro?(...) O árbitro do jogo, informa o hotel, o árbitro do jogo sumiu. Fechou a conta, pegou as malas, às pressas, e já deixou o hotel."

O Sr. Abílio de Almeida, "numa fulminante operação de guerra", embarcou o árbitro de volta ao seu país, na véspera da final, levando na mala a súmula do jogo. Assim, segundo o jornalista, sem ser julgado, pois não havia súmula, "Garrincha jogou a final, para variar, comeu a bola, deu um show em cima da Tchecoslováquia. Brasil, bicampeão do mundo." Por fim, revela o falecimento do Sr. Abílio de Almeida, há dias, no Rio, com 91 anos.

Ora, ora, vamos a algumas perguntas: aonde foi parar a doutrina moral preconizada panfletariamente pelo Sr. Armando Nogueira? Alguém que empunha a bandeira da moralidade pode ser condescendente com uma manobra como essa, "operada no invisível"? O Sr. Armando seria condescendente com alguma manobra que desse sumiço a súmula de um jogo em prejuízo da seleção brasileira? Imaginem, supondo uma situação similar em que o Americano de Campos, time do presidente da federação de futebol do Rio de Janeiro, tenha se beneficiado em prejuízo do Botafogo, uma coluna do Sr. Armando intitulada, amistosamente, "Gol de Caixa d’Água". Alguém acredita nisso? Será que os colunistas argentinos andam por lá comentando com gracejos a "marmelada" que foi o jogo entre a seleção daquele país e a seleção peruana na copa de 78, quando, segundo os comentários indignados dos jornalistas esportivos daqui, os jogadores peruanos "venderam" a derrota sob medida para levar a Argentina à final daquela competição e desclassificar o Brasil. Será, embora seja essa uma questão menor diante da "manobra invisível", que, em 62, o árbitro "esqueceu" a súmula na mala de graça?

Não sei, de fato, qual seria o grau de amizade entre o colunista e o Sr. Abílio, mas talvez fosse o caso de invocar novamente aquela frase: "amigo meu não tem defeito; inimigo, se não tiver, eu boto". Mas, talvez, sendo brasileiro e botafoguense, Armando Nogueira tenha se deixado levar pelo deleite de ter visto o maior craque da história do Botafogo disputando a final e conquistando o título para o Brasil. Nesse caso, então, devemos invocar a famosa "lei do Gérson", outro inesquecível craque do Botafogo: "bom mesmo é levar vantagem em tudo". Ou, quem sabe, dada a nossa conveniência patriótica, justificaríamos a patriotada alegando que a ausência de um craque como Garrincha na final da copa seria um crime contra o futebol, e diríamos: "os fins justificam os meios". É aquela história: "farinha pouca, meu pirão primeiro".

No início, inclusive, achei que o colunista, compadecido que estava pela morte do Sr. Abílio – que Deus o tenha! -, acabou movido pela benevolência que normalmente concedemos aos que já se foram. Mas, logo depois, lembrei que a mesma indulgência não foi dada ao ex-deputado, já falecido, Sr. Álvaro Valle, a quem ele acusa na primeira parte da coluna, "O começo da falência", de forma veemente, como convém aos defensores da moralidade, de deflagrar a "degringolada política do futebol brasileiro" com uma "emenda de teor demagógico", que acabou com o voto qualitativo e criou o voto unitário. A lamentar apenas o fato do ex-deputado não ter mais como se defender. Afinal, aos mortos não cabe recurso.

Eu, como brasileiro, sinceramente preferia não ter tomado conhecimento de tal fato. Consolava-me, inclusive, acreditar que perdemos a copa de 78 apenas por força das "manobras invisíveis" dos argentinos, esses "inimigos" atavicamente malvados e cheios de defeitos, como fazem-me crer. Lembro-me, agora, de uma outra sentença popular: "o castigo vem a cavalo".

Contudo, devo dizer que em nenhum momento pretendi aqui julgar o Sr. Abílio ou compará-lo aos atuais dirigentes, pois sequer tenho qualquer conhecimento a seu respeito. Apenas, eu e outros leitores do JB, fomos apresentados a ele, por assim dizer, de uma forma que talvez o próprio não quisesse, uma vez que guardava o segredo "a sete chaves", como afirmou o próprio Armando Nogueira. O objetivo aqui é apenas estabelecer um parâmetro para avaliar o trabalho da imprensa.

Aliás, conheço um ditado muito usado na Tchecoslováquia: "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Gol contra de Armando. Hipocrisia pouca é bobagem.

Fernando César C. d’Arribada, Rio de Janeiro



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