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NOTÍCIA OU CUMPLICIDADE?
Gente honesta também viu
Voltamos àquele velho tema: se a informação não é indispensável, ou é perigosa, não deveria ser divulgada. Ótimo. Eu como cliente/consumidor de notícias pergunto: quem vai decidir qual notícia é indispensável para mim, ou qual informação é muito perigosa para que eu saiba? O repórter, o redator, o chefe da redação, o dono do jornal? Quem são essas pessoas para ditarem o que posso ou não saber? Eu sou a única pessoa que pode decidir o que é ou não indispensável para mim.
Numa situação dessas, como a explicitada no artigo [ver remissão abaixo], sempre pensamos nos marginais, nos criminosos, no mau uso que esses elementos podem dar a essas informações. Esquecemos que nós também recebemos tais informações. Que entender o mecanismos de golpes e o modus-operandi de criminosos representa segurança para os cidadãos honestos que poderão identificar situações de risco com mais facilidade.
Francisco Abreu
Daniela Lepinsk responde
Prezado Francisco, é preciso distinguir entre veicular dicas de segurança ao telespectador e ensinar truques para a prática de crimes que - de tão simples - poderiam ser cometidos por qualquer criança, como no caso em questão. A reportagem poderia listar todas as informações de precauções para o cidadão, sem dar o caminho das pedras para telespectadores mal-intencionados. É justamente por pensar no leitor/telespectador honesto que o jornalista tem a obrigação de analisar a maneira como as informações são divulgadas. Existem diversas maneiras de se repassar uma notícia. E responsabilidade jornalística é isso, em resumo.
Não é uma questão ditatorial, mas faz parte, sim, da função social do jornalista, ter o discernimento para separar, no momento em que realiza sua reportagem, o que é socialmente relevante. Isso não é - ou pelo menos não deveria - ser feito a esmo, baseado em "achismos". E é por essa razão que profissões que lidam com informação dependem de estudo e treinamento.
Tenho um exemplo interessante, do seqüestro de um empresário, ocorrido há quase dois anos, em Mato Grosso. O seqüestrador recebeu o resgate, mas o refém foi amarrado, jogado em uma vala e morto a tiros. No entanto, a partir de uma certa estratégia relacionada ao dinheiro do resgate, que não era a marcação tradicional das notas, a polícia rapidamente chegou ao criminoso.
Eu cobria o caso e o delegado responsável pela prisão me contou como era a estratégia. Comentei que a informação era interessantíssima. Ele, no entanto, me pediu para não divulgar os detalhes, pois, do contrário, em casos futuros não funcionaria mais.
Concordei, pois ele tinha razão. No dia seguinte, no entanto, a informação apareceu em outro veículo de comunicação. O delegado ficou enfurecido e, em casos posteriores, se tornou muito mais reticente em relação à imprensa.
Conhecer como agem os criminosos é importante, sim. No caso da matéria do caixa eletrônico, no entanto, os detalhes não foram divulgados como prestação de serviço e, sim, como informação pitoresca. Seria mais útil ao cidadão que os veículos de comunicação se preocupassem menos com o lado pitoresco das reportagens e mais com informações úteis, como dicas e conselhos sobre segurança, que o cidadão pudesse aproveitar ao sair de casa para sacar dinheiro em um caixa eletrônico. (D.L.)
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