Edição de Marinilda Carvalho
A falta de imaginação da imprensa na cobertura do Planalto, especialmente quando o assunto é reforma ministerial – "cobertura", aliás, idêntica há 30 anos! –, ensejou, a partir de um texto de Luiz Weis [remissão abaixo], interessante carta do leitor Carlos Aguiar, que considera os flagras dos "escorregões" do governo "consumo de energia intelectual frívolo e até risível".
Diz ele: "Se não é a imprensa que está fritando esses ministros com certeza não é a minha vovozinha que jaz em seu túmulo, tampouco o governo. Quem seria, então? Colin Powell?"
Impressionante como intrigas dignas de colunas de fofoca viram "matérias"...
O tema rende.
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MÍDIA & GOVERNO
Cada um assuma seu papel
Essa proposta caricatural de comentar cada escorregão de ministro, cada braço quebrado de assessor, cada boné que o Lula usa, e classificar como atos de governo vexatórios, e que isso é "oferecer a cara para bater", quando não surte o efeito desejado é de um consumo de energia intelectual frívolo e até risível. Há mais o que fazer. Penso, sinceramente, que esse é um dos melhores governos de nossa República, pois se nossos jornalistas e articulistas só se preocupam com essas "coisas importantes" é porque o negócio vai muito bem. Eu prefiro ler Caras (argh!), pois pelo menos é mais autêntica. Ali as bobagens têm um sentido, o do entretenimento.
Se não é a imprensa que está fritando esses ministros, com certeza não é a minha vovozinha que jaz em seu túmulo, tampouco o governo. Quem seria, então? Colin Powell? Por favor, se não querem que a "intelectualidade" da imprensa seja afetada pelo menos não afetem o senso dos leitores. Quem coloca as matérias no ar é a imprensa, sim senhor, e não a "conspiração eterna" que anda fantasmagoricamente pelos corredores do poder.
Qualquer jornalista, mesmo os recém-formados, ou até aqueles que não passaram pelos bancos das faculdades, sabem que uma nota, uma linha, uma palavra que seja, colocada em outro campo, como fragmento de um contexto, terá o efeito desejado e muitas vezes sem possibilidade de retorno ou reparação.
O texto que exponho abaixo foi tirado do livro Recordações do escrivão Isaias Caminha, de Lima Barreto, escrito em 1909. Trata-se de um livro crítico, com uma linguagem ácida, que procura mostrar a sociedade do começo do século 20 no Rio de Janeiro e que bem serviria para nossos dias:
"(...) A imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de saltador; conhecimentos elementares do instrumento que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda a prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los de gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas (...) se o sol nasce é porque afirmam tal cousa...
E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis, trabalham para a seleção das mediocridades (...) Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um (jornal) que os combata... Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal (...)"
É hora de crítica sim, de análise crítica de fundamentos e de estratégias até onde for possível, mas convenhamos, com cada um assumindo seu papel.
Alexandre Carlos Aguiar, biólogo, Florianópolis
Lengalenga e retórica
Ao fazer a cobertura do Palácio do Planalto a imprensa presta um serviço duvidoso ao país. Explico:
1) Como todo governante astuto, Lula brinca de esconder e mostrar com os jornalistas. Procura colocar sob os holofotes da mídia o que é absolutamente público e notório e esconder o que a imprensa deveria mostrar, que são suas falhas.
2) Enquanto ficam à cata das migalhas de informação sonegadas pelo Palácio do Planalto os jornalistas deixam de fazer o que realmente importa, que é investigar o que está ocorrendo no dia-a-dia do cidadão brasileiro. Quem está ganhando e quem está perdendo em virtude das ações do governo Lula e por quê?
Acho que a imprensa faria um grande serviço ao país se desse as costas ao Palácio do Planalto e olhasse de frente o país com alguma isenção. A função da mídia numa democracia não é fazer propaganda governamental. Os filiados do partido no poder e os apaniguados do governante já se encarregam de fazer isto em benefício dos próprios interesses. A mídia deveria se preocupar com uma tarefa mais nobre, preparar o cidadão para criticar as ações governamentais, aprovando-as ou rejeitando-as sem se deixar influenciar pela lenga-lenga dos aduladores de plantão ou pela retórica dos inimigos de plantão.
Coletar e divulgar informações é algo diferente de fomentar intrigas e se deixar usar para difundir boatos. O microministro Zé Dirceu falou uma bobagem? Deixemo-lo falando sozinho. Quem sabe ele aprende a dar mais valor aos cidadãos brasileiros. Lula pretende divulgar como sua uma realização que poderia ser atribuída ao governo anterior? Melhor apurar quem foi o verdadeiro autor da obra, e não creditar ao plagiador a autoria.
O que está ocorrendo no país? Os fatos correspondem à propaganda governamental? A economia vai bem? Para quem? O nível de emprego aumentou? O governo continua desperdiçando recursos públicos? Onde? Como?
Fábio de Oliveira Ribeiro
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Em quem eu acredito?
Às vezes, ler mais de um jornal pode gerar algumas dúvidas no leitor. Hoje (14/1), por exemplo, o JB noticiou uma vitória diplomática do Brasil e demais países latinos sobre os EUA na Cúpula Extraordinária das Américas. De acordo com o veículo, o texto do documento final omite a data de janeiro de 2005 como limite para o fim das negociações da Alca. Já o Estadão afirma que a menção à Alca foi incluída no documento final e diz que esse reitera o objetivo de concluir as negociações para a criação da área de livre comércio em janeiro de 2005: "Foi uma vitória diplomática dos EUA, já que o Brasil não queria menção à Alca no texto". Segundo O Globo, deu empate. A Folha se absteve e apenas comentou que houve divergências. Não que eu acredite no mito da objetividade da imprensa, mas tudo tem limite, né!?
Laura Lowenkron, estudante de Jornalismo