Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição de Marinilda Carvalho

O show da vida. Que vida?

Fiquei indignado ao assistir no programa Fantástico, exibido em 14 de março de 1999, a matéria sobre o "emprego alternativo". O repórter Maurício Kubrusly apresentou reportagem sobre pessoas com formação superior que estão desenvolvendo atividades aquém de sua formação por pura falta de opção no mercado recessivo do nosso país. Essas pessoas, que me pareceram pessoas dignas, honestas e fundamentalmente trabalhadoras, a meu ver, não foram tratadas respeitosamente, assim como o assunto, pois, a matéria banaliza uma situação socioeconômica gravíssima. A matéria é finalizada com piadinhas do repórter, que não faz em nenhum momento uma abordagem construtiva e encerra quase que "mangando" de um advogado subempregado.

Também fiquei extremamente indignado, no mesmo programa, com a matéria sobre "a galinha de alguns milhões de dólares". Ora, até parece que o Brasil não tem assuntos mais importantes para tratar, que temas de relevância nacional devem ter seus espaços inibidos em função de reportagens como a apresentada. Com nosso país mergulhado em crise profunda, o fantasma da inflação ronda, o desemprego assola nosso povo de forma nunca vista e a violência torna caótico o convívio social, este programa, assistido por milhões de brasileiros, não se preocupa em informar a realidade dos fatos; não se preocupa em abrir espaço para discussões e propostas de solução dos problemas nacionais, preocupa-se em informar a "brilhante" e "fantástica" história de uma galinha que tem seguro milionário em um país de Primeiro Mundo.

Será que os repórteres que formulam e apresentam este tipo de matéria são tão medíocres? Ou será que não conseguem fazer-se ouvir? Não consigo crer que repórteres de tamanha expressão nacional não enxerguem o que estão fazendo neste país. O que essa televisão está agregando à visão social do nosso povo? Qual será o verdadeiro papel da imprensa em nosso país? Esses repórteres não conseguem enxergar o que fazem ou se deixam manipular para ter notoriedade e projeção? Perguntas para as quais tenho minhas respostas. Ou estou enganado e este é o real papel da imprensa em nosso país?

Marcelo Lima

Duas ou três coisas sobre
a edição número 62 (5/3/99)

Li toda a edição do dia 5 de março. Chamou-me a atenção a inquietação com o papel da imprensa e a sensação, que permeia grande parte dos artigos e comentários, de que estamos entrando numa era de perda da cidadania nacional e de que este é um problema mundial. ("... Que todos estejam atentos – os episódios de João Ubaldo Ribeiro, Alberto Dines e este de Paulo Henrique Amorim não estão isolados, fazem parte de um contexto que vale por dez ditaduras do passado. O inimigo do homem é o mesmo, mas só que muito mais poderoso e sutil." José Rosa Filho.)

Parece que, realmente, os jornalistas se encantam com o fato de serem o quarto poder, e nós, o público, de termos o veículo que nos protegeria dos ditadores. Esquecemos todos de que a educação era um flanco desguarnecido. ("Em uma turma de estudantes de Jornalismo, ninguém soube o que significava ‘neoliberalismo’, uma palavra muito utilizada na mídia. E muitas outras palavras eram desconhecidas pelos estudantes. Se alunos do curso de Jornalismo não entendem o vocabulário utilizado nos meios de comunicação, quanto mais o público em geral. ..." Jairo Faria Mendes). E que a teoria de consumo era uma arma mais poderosa do que parecia ("... Qual o comunicador capaz de resolver o problema no lugar da polícia, da administração regional, do pronto-socorro?... O que importa é ter uma boa manchete, é vender, é dar ibope. Se estiver errado, publica-se a correção na seção Errata do dia seguinte e pronto. Dois dias depois, ninguém - além do envolvidos - se lembra mais de nada e fica por isso mesmo. Desculpem-me o desabafo, mas é que eu continuo com a macaca!" Beth Klock).

Agora parece ser necessário que nos voltemos a projetos de educação para a cidadania e para uma atuação profissional (em qualquer profissão) que esteja impregnada de cidadania (sabe, aquelas coisas de checar informações, não sonegar impostos, cumprir as regras de trânsito, orientar a educação dos filhos, indicar livros que estimulem a cidadania, dar recibos, ler as entrelinhas, atender bem os clientes nos hospitais etc.). ("... Acredito que a TV seja o melhor instrumento de comunicação de massa do mundo. Mas ela é e tem servido de instrumento de alienação e dominação da classe dominante sobre a massa da população socialmente excluída. Podem me chamar de arrogante, mas quem detém esse instrumento deterá o poder e a dominação do povo." Paulo César de Paiva).

A atuação individual é importante porque não é possível existir liberdade coletiva sem a individual e vice-versa. A individualidade tem como origem o coletivo; como não há diferenciação na solidão, é muito fácil confundir individualismo com individualidade e comunicação de massa com liberdade de expressão. Está na hora de pararmos de falar em democracia e começarmos a nos comportar democraticamente. "Caro colega: não podemos mudar o país e sua imprensa só porque queremos. Seria voluntarismo. Mas quando as novas gerações de profissionais começam a ter este tipo de comichão na alma, então estamos no bom caminho. As mudanças começam com a disposição de mudar. O resto se encaixa. Sucesso na empreitada!" Alberto Dines a um leitor do O.I.)

Vera Silva

Torcemos pelo Brasil ou o quê???

Dines, não pude resistir quando li seu artigo A bola da vez é o dólar, em VIP, e encontrei um eco para algo que sempre digo: jornalista não entende de economia. Também digo com certo conhecimento de causa, já que trabalho em uma emissora de TV e vejo que eles basicamente falam (não só sobre isso, mas outras barbaridades) sobre o que não têm a mínima idéia...

Na minha opinião é responsabilidade da imprensa, a parte ruim dela, metade do caos a que estamos submetidos. Caos sim, porque já que temos uma cultura inflacionária e um governo pouco atuante, vemos descaradamente todos os preços sendo majorados e a maioria deles sem a menor necessidade. À imprensa irresponsável cabe a culpa da manchete que estampou um caderno da Folha uns dois meses atrás, dizendo em outras palavras que o Brasil estava indo pro buraco. E a arte do barquinho feito de uma cédula de R$ 1, afundando na cabeça de uma reportagem da Veja? Não sabem eles que o psicológico é importante? Que notícias simplesmente divulgadas sem lastro causam pânico? Que se você vai ao Jornal Nacional desta noite dizendo que o Brasil quebrou e todos nós estamos perdidos, amanhã estaremos mesmo perdidos?

Gente, é necessário ter ética e inteligência. O mesmo país que insistimos em destruir ou pintar de preto numa manchete é o país onde moramos nós e crescerão nossos filhos. Cabe aos inteligentes da imprensa dizerem primeiro à população (que acredita em tudo o que vê e ouve) que é necessário boicotar os preços altos, e só depois, se não o fizermos, teremos problemas sérios.

Não pode ser do jeito que foi. O dólar subiu, todo mundo sabia que tinha que subir; e quando aconteceu se instala o desconcerto generalizado; até de uma equipe de governo que era tão austera e parecia que sabia exatamente o que estava fazendo. Tanto que passava credibilidade, coisa difícil por estas bandas. Todo mundo correndo: "Ai meu Deus, ai meu Deus". E se o governo tinha que desvalorizar o dólar, que o fizesse com parcimônia e o conhecimento da população, não assim da noite pro dia, lembrando os ataques sorrateiros dos planos Cruzado e Collor. Não queiram perder as rédeas do país, este maravilhoso mercado potencial de 150 milhões de pessoas. Nós podemos ser grandes! Tendo consumo, podemos gerar muitos empregos. Mas precisamos ter economia de mercado. Se ficarmos pensando só em balança comercial (que, claro, é importante) seremos uma China ou uma Coréia, que produzem barato e vendem para meio mundo, mas o próprio povo não consome nada, está fora do carrossel.

Vamos parar de brincar com o que é sério e cobrar do governo o que é devido; mas façamos nossa parte direitinho. Espalhemos bandeiras do Brasil pelo país e digamos que o povo já aprendeu o que é respeito, não aceitamos mais voltar atrás. Sejamos patriotas pelo menos desta vez; sem derrotismos ou espertezas. Aprendamos a ser nação, antes de ser um amontoado de gente querendo se dar bem! E os Itamares que querem aparecer, só aparecem porque deixamos. Deixamos e incentivamos.

Sei lá o que dizer, queria que o Brasil desse certo. Espalhemos otimismo e disciplina! É nossa função, já que tudo o que falamos ou escrevemos, as pessoas acreditam. Perguntemos a todos "o que vamos deixar para nossos filhos?"

Marcelo Willian Marcengo

Haja resistência

Como jornalista e dirigente sindical, tenho acompanhado atentamente o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, pela Internet e pela TV. Quero cumprimentar a toda a equipe pelo belo trabalho realizado. Moro em Londrina (PR), sou redator de primeira página da Folha do Paraná/Folha de Londrina e diretor do Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná (que abrange Londrina, Maringá e região). A atual diretoria do sindicato iniciou mandato em abril do ano passado, com a proposta de estimular o debate da ética jornalística entre os colegas de profissão e a sociedade.

Aqui no Paraná, a ética profissional luta contra um monstro de três cabeças: 1) a relação promíscua entre as empresas jornalísticas e o poder público, celebrada pela cumplicidade financeira (não se sabe onde começa a imprensa e termina o governo); 2) a ganância raivosa dos jornais, rádios e TVs, que cada vez mais querem transformar departamento comercial e redação numa geléia só; 3) a proliferação dos programas de TV mundo-cão, que pisam na dignidade humana, faturam alto e se apresentam como jornalísticos (não por acaso, Londrina foi o ninho do Ratinho).

Haja resistência. Desde maio do ano passado, temos uma publicação mensal da categoria, o Jornal da Casa, com 2 mil exemplares, destinada não apenas a jornalistas, mas a professores e alunos de Comunicação, entidades comunitárias, sindicatos, empresários, políticos, ONGs, clubes de serviço, igrejas, instituições de ensino... O Jornal da Casa, modéstia à parte, tem feito muito sucesso entre os colegas e a comunidade da região. Primeiro, porque foge ao sindicalês habitual e não se limita às questões corporativas da categoria. Desde o início, a questão da ética tem sido a linha-mestra de nossa pauta. Já no número de estréia, colocamos o dedo na ferida. Fizemos artigo sobre o comportamento da imprensa em um caso policial ocorrido no Paraná: a morte de um garoto durante suposto ritual de magia negra em Guaratuba (litoral do estado). Esse crime ganhou dimensão nacional. Em 1992, a imprensa paranaense condenou antecipadamente, e sem provas, duas mulheres, mãe e filha, logo estigmatizadas como "bruxas" e que foram depois inocentadas pela Justiça. No Jornal da Casa, fizemos um histórico desse crime da imprensa.

Outra razão do sucesso do Jornal da Casa: ele se transformou num painel de livre debate. Matérias censuradas na imprensa ganham espaço em nossa publicação. É uma espécie de "outro lado" do que vem sendo divulgado pelos jornais, TVs e rádios do Paraná. Quem quiser conhecer os textos da nossa pauta, basta enviar-me e-mail.

Paulo Briguet, diretor de imprensa do Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná

Perguntas a Dines... à espera de resposta

Prezado jornalista: estou inteiramente de acordo com sua observação crítica acerca da deslavada complacência dos meios jornalísticos (inclusive da mídia eletrônica) em relação ao "sumiço" de Maluf do noticiário – mais uma vez, ele corre ao exterior para "aprimorar" sua vasta cultura humanista e democrática... A Rede Globo até que teve um papel importante na reversão da CPI na Câmara Municipal. Mas, sobre Maluf, silêncio sepulcral. (Imagine-se, no entanto, o Carnaval que nossa "imprensa independente" faria se descobrisse respingos de lama no governo de Erundina.) Depois de ressuscitar Jânio, eleger Collor e reabilitar Maluf (que elegeu Pitta), não se pode ter dúvidas sobre o conservadorismo e reacionarismo do eleitorado (leia-se: empresariado, sindicalismo de resultados, imprensa, intelectualidade etc. etc.) do estado de SP (em tempo: sou paulista...).

Para concluir: recentemente enviei ao programa na TV Cultura sugestão no sentido de se debater o "colunismo social" praticado por nossa imprensa. Minha simples questão: qual é o papel, o significado, a relevância do colunismo social para o fortalecimento de uma imprensa democrática? (Leitor da Sra. Pascowitch, por exemplo, considero um insulto à cultura democrática a bajulação aos ricos e poderosos, o oficialismo e o culto à frivolidade diariamente veiculados por aquela seção.) Até hoje, jamais um ombudsman do jornal ousou questionar esse jornalismo marrom. JPascowitch é a Caras (tão questionada por alguns críticos do jornal) em papel jornal...

Caio N. de Toledo, professor do IFCH, Unicamp

Nota do O.I.: Amigo, ficamos devendo estas respostas. A quinzena foi muito atribulada...

Indignação paulistana

Faço uma correção no texto de Beth Klock. O impresso que primeiro divulgou o telefone dos vereadores contrários à CPI foi o Jornal da Tarde. Publicou os números errados e os corrigiu no dia seguinte, sempre na primeira página. Tenho notícia de que a repórter responsável pela apuração foi despedida. Usando o caso dessa profissional como mote, gostaria de comentar um aspecto não abordado em Indignação paulistana. Concordo que sobram falhas de informação, mas vejo um agravante para o problema. As redações foram enxugadas, como os consultores empresariais aconselhavam. Com menos funcionários, vem declinando a qualidade de informação. Não excluo a hipótese da incompetência, mas o aspecto administrativo também deve ser focalizado.

Daniel Merli, aluno de Jornalismo

Beth Klock responde: Daniel, obrigada pelo seu e-mail e pela correção no caso dos telefones dos vereadores. Não tive a intenção de registrar quem teve a sacada primeiro, mas sim de ilustrar como a cobertura de determinado assunto vai mudando com o vulto que ele toma entre seus leitores. Se é verdade que a repórter foi demitida, seu editor deveria ir primeiro, não acha? Como é que ele publica telefones sem saber se foram todos verificados ou não? Mas voltando ao seu e-mail, concordo com você quanto à questão do enxugamento das redações. Isto explica, mas não justifica. O buraco, certamente, é mais em cima. Este é o assunto que abordo nesta edição do OBSERVATÓRIO. Gostaria que você lesse e me mandasse seus comentários. Um abraço, B. K.

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"Qual o órgão de comunicação que vai nos devolver a cidadania? O jornalismo, a cada dia que passa, mais se distancia da sua verdadeira função, que é a de informar. Apurar os fatos com rigor, comunicá-los com isenção, esclarecer, explicar e – por que não? – instruir seus leitores, seus ouvintes, seus telespectadores, municiando-os com dados suficientes e confiáveis para que possam tecer seu próprio julgamento, este me parece ser o papel da imprensa." (Beth Klock)

Ao ler o artigo escrito pela jornalista Beth Klock ocorreu-me complementar seu pensamento. Além de informar e apurar com rigor, como citado acima, o jornalista tem sim, a meu ver, a obrigação de denunciar, de prestar serviço à comunidade trazendo à tona conflitos, abusos e descasos que tanto atrapalham e dificultam a vida do cidadão. Desde que verdadeiras, as denúncias ajudam a patrulhar, pelo menos um pouco, o trabalho das autoridades, que nem deveriam depender de tal controle. Afinal, são elas pagas para isso, ou não? Só para citar um exemplo, o que seria de nós, paulistanos, sem o serviço das rádios na hora do rush, que indicam aos motoristas melhores opções na volta para casa? A CET é a grande responsável, assim como o poder público, porém depender deles é padecer nos congestionamentos.

É certo que se dependemos da imprensa para termos a cidadania de volta, os valores estão invertidos. Não deveria ser assim, também acho. Mas além de informar, volto a insistir, é preciso chamar a atenção das pessoas para as barbaridades que são cometidas, dando-lhes subsídios para que se manifestem, para que votem com mais consciência, para que saibam o que acontece por baixo do pano. Talvez através dessa inversão de papéis possamos modificar um pouco essa realidade e resgatar o exercício investigativo e rigoroso da profissão.

Tudo pelo Ibope. Já faz alguns dias tive a oportunidade de analisar uma reportagem que me chamou atenção para o fato. A fotografia impressiona porque traz a imagem de uma garota soterrada pelos escombros de sua casa, devido à erupção de um vulcão na Colômbia. E, na verdade, seria mais uma imagem de tragédia, entre tantas que circulam pelas agências de notícias todos os dias. O inusitado, no caso, foi o texto da jornalista. Em vez de abordar o drama dos sobreviventes, a devastação da cidade etc. etc., entrevistou o próprio fotógrafo que, indignado, levantou a problemática do descaso das autoridades. O fato de a garota ter morrido após três dias, sem que ninguém fizesse nada para ajudá-la, trouxe à tona a questão das prioridades. Não foi possível, ou não compensava, deslocar uma bomba hidráulica e um guindaste para salvar uma vida? No entanto foi conveniente levar à região as câmeras de TV para cobrir a tragédia e ganhar audiência, já que, como disse Beth Klock no seu artigo, "é difícil fazer um programa sem enchentes". A publicação de um texto com teor de denúncia e perplexidade nos faz refletir sobre a importância do jornalista na fabricação de uma história e como isso pode levar os leitores a pensarem mais profundamente sobre aquelas imagens e letras consumidas diariamente com uma passividade aterrorizante.

Suzana Vidigal, tradutora, estudante de Jornalismo

Beth Klock responde: Prezada Suzana, em primeiro lugar quero agradecer seu e-mail. Mas permita-me discordar, em parte, de você. Não quero aqui desanimar uma estudante de Jornalismo. Mas há que se colocar as coisas no seu devido lugar. Não são os jornalistas que têm a obrigação de denunciar abusos e descasos que tanto atrapalham e dificultam a vida do cidadão, como diz você. São os órgãos de comunicação. Aos jornalistas cabe a tarefa de fazer seu trabalho bem feito. Quem decide que trabalho é este são os patrões. Não foi à toa que coloquei os parênteses (não será campanha de marketing?) quando me referi ao Boris e à mudança - para melhor - do SPTV de Chico Pinheiro. Tanto é de marketing que a TV Globo estreou programa jornalístico aproveitando o ibope da corrupção da Prefeitura de São Paulo. Menos mal. Ainda assim, o telespectador interessado no assunto deverá conceder sua audiência ao decadente Sai de Baixo, que vai ao ar antes.

É óbvio, também, que não é de responsabilidade das rádios, que mantêm seus helicópteros no ar, a administração do nosso trânsito caótico. Mas longe está tal responsabilidade da CET. Não é de responsabilidade da CET o incentivo à fabricação de automóveis, que remonta ao fim dos anos 50 (e que gerou empregos, é verdade), nem a aplicação das verbas públicas em minhocões e túneis, em vez da ampliação do metrô e da malha ferroviária. A CET tem a responsabilidade de minimizar o caos. Ao repórter, lá das alturas, só cabe constatá-lo e indicar, aqui e ali, um caminho alternativo. A nós, motoristas largados à própria sorte, resta seguir atentamente seus conselhos. E optar por este ou aquele legislador – um engenheiro de viadutos ou militante da classe operária? – segundo as informações de que dispomos deles e da sociedade em que vivemos. Colocar as coisas no seu devido lugar, com clareza e competência, esta é a tarefa do jornalista. E para isso há que ter boa formação para, ao apurar um fato, não engolir gato por lebre. Senão, ao povo só será mostrado o gato, entende? E não são todos capazes de perceber que aquilo mia e que, portanto, não é lebre. Aí, na hora de votar, já viu, não é? Como disse no meu artigo, não quero ensinar o padre-nosso ao vigário, mas parece que cutuquei numa ferida mal cicatrizada. Foram muitos os e-mails, o que me encorajou a escrever novo artigo. Você, é claro, é minha convidada especial para lê-lo e tecer seus comentários. Se tiver um tempinho extra, visite também o meu site <www.headsites.com.br/klock/>. Meu intuito é colocar a cidadania na moda outra vez. E não dependo de nenhum patrão para isso. Um abraço. B. K.

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Concordo plenamente com a indignação da articulista: a imprensa vem praticando o nefasto ofício de camuflar suas responsabilidades cidadãs por trás de uma indignação de última hora. Está claro que os cidadãos precisam criar condições para reverter a agenda midiática conforme os interesses coletivos, e não somente "espetaculares" (nos quais os referidos "indignados de plantão" se ancoram). Nem Boris Casoy, nem Chico Pinheiro, nem Ratinho. Ninguém vai solucionar questões que não são deles – reprodutores de uma agenda viciada e orientada conforme interesses que passam ao largo de variáveis que seus patrões não querem ver nem de longe.

Não que o Boris não possa achar tudo "uma vergonha"; que o Ratinho não "ajude" os miseráveis que não têm acesso a serviços mínimos que o Estado não oferece; que o Chico Pinheiro não busque minimizar o tom editorial escolhido por sua emissora. Enquanto cidadãos que reclamam, como nós, eles têm toda a razão.

Apenas essas não são as nossas questões: só quando pudermos demarcá-las é que poderemos entrar no jogo como ele deve ser jogado: ditando as nossas regras que, talvez em breve, sejam respeitadas pela mídia.

Ricardo Leal Costa Santos, professor universitário

A Globo torce no Sambódromo

No caso específico da empolgação da Globo com o desfile da Mangueira, registre-se que o repórter não só "comandava" os sempre incautos telespectadores como a própria torcida presente no Sambódromo. Fui dormir certo de que ninguém tirava a vitória da Mangueira, não que estivesse concordando com o repórter/comentarista, mas por achar que a emissora já escolhera o seu candidato e quando ela escolhe... mas juízes ainda julgam... Como estava certo, e aí acertei, de que a Beija-flor, com a temática de Minas Gerais não levaria, já que naqueles dias nada poderia ser dado ao Itamar. É mais um truque do "polvo"; observem o Galvão Bueno "animando" o pessoal das gerais, no Maracanã. Vai lá no meio do povão e descobre um torcedor que está fazendo propaganda de uma matéria a sair num programa da rede. A Globo, cansa repetir, comanda o espetáculo Brasil. Ela atua no atacado; no Congresso, o ACM transforma em lei as "mensagens" que a telinha global passou aos seus apalermados telespectadores/congressistas/eleitores. Passarão o céu e a terra e a luz no fim do túnel não aparece. Mas há uma esperança: o Brasil está acabando.

José Rosa Filho

O discurso único
do governo Olívio

Concordo em gênero, número e grau com o governador Olívio Dutra. O governador está disciplinando e orientando o 1º escalão no diálogo com a imprensa, muito normal, afinal está em jogo a imagem de um governo, de um partido, partido este que deseja o poder para um povo, e tirar os capitães hereditários, estabelecer uma democracia neste país dividido, onde os capitães impõem uma tirania, uma ditadura escancarada sobre o resto do país. Observe o número de mortos no Brasil pobre e com a mão na consciência, e não no bolso, pergunte-se se não estamos numa guerra civil.

A imprensa dos capitães, pessoas pobres de espírito, ambiciosas, gananciosas e medíocres, vão atacar de todas as formas os governos populares. Governos que governam para o país pobre. O Zero Hora de Porto Alegre com certeza prefere um governo em que todos dizem o que querem, usam a mídia como palanque, e o poder de transformar as palavras em fatos fique com o FMI na área econômica e com o Toninho Malvadeza na esfera política, enquanto o presidente passeia pelo mundo, faz belos discursos na imprensa, posa de intelectual e finge que manda. Ora bolas, vão catar coquinho.

Gilberto Suavi

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Senti um misto de inconformismo e indignação com o texto na página do OBSERVATÓRIO em que o Sr. Thadeu Niemeyer ataca fortemente o governo Olívio Dutra (PT), em função de uma bobagem de uma cartilha que foi elaborada para supostamente dar uniformidade ao discurso de todos que trabalham no governo gaúcho. Não conheço esse Sr. Niemeyer, mas lamento que ele se disponha a atacar o governo gaúcho por uma coisa tão ridícula, mas não se disponha (e nem esta página, a do OBSERVATÓRIO, que se propõe democrática, apartidária) a discutir o bloqueio que a mídia gaúcha (evidentemente, a RBS, quase monopólio por aqui) sempre fez à oposição, e, principalmente ao PT.

Apenas um exemplo: apesar de premiado por várias órgãos internacionais, o projeto Orçamento Participativo jamais foi destaque nos veículos da RBS. Contudo, foi destaque em jornais europeus. Agora, quando o PT assume o governo gaúcho, a rede RBS tem "democraticamente" concedido espaços igualitários aos governistas e à oposição. Estranho que somente agora, quando o governo é petista, que eles descobriram que situação e oposição devem ter o mesmo espaço nos veículos da empresa para debater. Não, mas isso certamente não passou pela cabeça do articulista Niemeyer... espero que ao menos o OBSERVATÓRIO conceda espaço para que esse tipo de aspecto também seja ressaltado... até porque, se é criticável o governo do RS se guiar por uma cartilha, o que dizer da imprensa brasileira, que salvo exceções se guia não apenas pela cartilha governista, mas o que é pior... pelo dogma neoliberal globalizante.

Acho que o Sr. Alberto Dines também deve explicações sobre a sua saída abrupta da Folha e sua ida para o JB. Até há poucos dias o Sr. Dines descia o cacete no Jornal do Brasil... de repente, lá está ele. Será que vamos ter que criar um "Observatório do Observatório"?

Fritz Rivail F. Nunes

O Globo onde sempre esteve

Amigos, enviei a seguinte carta ao Globo: "Ao Jornal O Globo, Att. Ilmo. Sr. Roberto Irineu Marinho, Rio de Janeiro, 4 de março de 1999. Prezados senhores, o jornal O Globo recentemente passou por grandes modificações gráficas (novo lay-out, novo parque gráfico) e foi só. O pensamento editorial permanece onde sempre esteve. Vive plenamente, no final dos anos noventa, a ultrapassada contradição pós-moderna: sua imagem vale mais que seu conteúdo. Na busca da construção da imagem de meio de comunicação isento e imparcial, é mais importante a bela imagem do jornalista Zuenir Ventura de calça e camisa jeans e tênis contra o espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas refletindo o céu de uma manhã ensolarada do que propriamente o que tem a dizer este mesmo jornalista sobre a cidade partida.

O contorcionismo de marketing é tão desmesurado que em recente peça publicitária na televisão o jornal quis passar a idéia de que existiriam pessoas que o considerariam com tendência à esquerda. Mas nem mesmo seu publicitário considerou esta afirmação crível, inserindo um quase desapercebido "até mesmo" antes da expressão de esquerda.

Em artigo assinado por seu editor-chefe, Sr. Ali Kamel, publicado em 25 de fevereiro último, seus leitores tiveram a confirmação de que sua modernidade reside apenas em sua fachada. Analisando o filme Central do Brasil, o Sr. Kamel afirma ser inverossímil a situação vivida pelo menino Josué após a morte de sua mãe. Não acredita o Sr. Kamel que Josué pudesse passar a noite na Central do Brasil – por que não voltaria para casa, já que tinha endereço conhecido?, questiona. Acredita, sim, que seria resgatado por um policial que, segundo o Sr. Kamel, "atravessaria a rua" e o levaria ao Juizado de Menores, "a poucos passos dali".

Acha o Sr. Kamel que Central do Brasil denigre a imagem do Brasil quando o personagem Pedrão, guarda ferroviário vivido por Otávio Augusto, executa um punguista nos trilhos por ter roubado um rádio – isso não acontece, afirma, considerando ainda que existem várias redações de jornais nas redondezas que dariam grande repercussão a um fato desta natureza. Acusa o diretor Walter Salles de afirmar em seu filme a existência de quadrilhas de venda de órgãos aliciando crianças no país, fato que, segundo ele, nunca foi comprovado pelas mesmas redações destes mesmos jornais em exaustivas investigações.

Pois bem, então vejamos: 1) O Sr. Kamel não compreendeu que a dor de Josué pela perda da mãe atropelada na sua frente o tenha deixado em estado de choque, se iludindo com a sua volta à estação de trens para levá-lo de volta pra casa. 2) O Sr. Kamel acredita que os policiais do Rio de Janeiro recolham menores nas ruas e os levem ao Juizado de Menores; 3) Ao insinuar em seu artigo que Walter Salles nunca deve ter ido ao Juizado de Menores, o Sr. Kamel "entrega" o seu desconhecimento sobre a cidade onde vive e trabalha. Como provavelmente só a atravessa dentro de um belo carro com ar condicionado ligado e vidros fechados, jamais deve ter tido a oportunidade de perceber a real distância entre a estação da Central do Brasil e a sede do Juizado de Menores, localizado junto ao Sambódromo; 4) O Sr. Kamel não acredita em fuzilamentos praticados por policiais à luz do dia. O jornalista desconhece, então, o episódio ocorrido em frente ao shopping Rio Sul gravado por equipe de televisão e retransmitido em todo o mundo. Desconhece também, tragédia ocorrida no antigo Restaurante Sagres, há alguns anos, quando um policial prestando serviços de segurança matou a cadeiradas um jovem por ter discutido o valor de sua conta, só para citar dois exemplos; 5) O Sr. Kamel não compreendeu que o que afirma a personagem de Marília Pêra, mulher simples do subúrbio do Rio, não representa necessariamente o que pensa o diretor Walter Salles, e sim o que se passa no imaginário do povo.

O Sr. Kamel dá indícios, ao longo de todo o artigo, de não ter compreendido que o filme se trata de ficção e não de um documentário. Por mais incrível que pareça, o Sr. Ali Kamel, editor-chefe de um dos maiores jornais do Brasil, dá provas de desconhecer a realidade e a cidade em que vive. Que me desculpem os camelos, mas este senhor não poderia ter sobrenome mais apropriado. Atenciosamente."

Fernando H. de A. G. Newlands

Imprensa parceira da inflação

Sobre o texto Mídia treinada pela inflação não sabe como combatê-la, faço os seguintes comentários:

"A mídia não leu o que os sabichões e as sabichonas proclamavam nos seus próprios veículos, e foi surpreendida pelos efeitos da liberação das taxas do dólar."

Deveriam ter acreditado no Gustavinho Franco?

"O Globão já ostenta a maior coleção de colunistas de esquerda da mídia brasileira, e percebem-se indícios de que ensaia uma oposiçãozinha – ma non troppo".

Já o OBSERVATÓRIO na TVE, com a Míriam Leitão e a Dora Kramer... Alguém falou em jornalistas chapas brancas?

"O mais dramático é que as empresas não estão assustadas com a ressurreição do fantasma da inflação. Comportam-se algidamente com a deslavada remarcação de preços, submetem-se à dolarização indecente."

E o governo, que o Dines defende (por não criticar), por que aumentou a gasolina? Falando em defender o governo, aquele programa criticando a foto da Reuters, que mostrou uma filazinha de nada do Banerj como sendo a população retirando reais, estava muito pró-FHC. Já pensou se a Reuters fotografasse as filas do Banco do Brasil? Vocês iriam pedir a proibição de jornalistas estrangeiros no Brasil!

Os jornalões paulistas já aumentaram o preço das suas edições de domingo? E os jornalões cariocas, que aumentaram as edições diárias, antes dos paulistas?

Não se pode generalizar, há editores sérios e responsáveis que se empenham em escancarar este despudor.

Gostava mais do Jornal da Cesta, no Pasquim...

Fernando César M. de Andrade, Niterói, RJ

Nota do O.I.: Mas ele acabou, não é mesmo, Fernando? E nós estamos aqui para ouvir as broncas dos leitores... Ainda bem! :-))

A crise da Veja

Leiam o que diz sobre a crise a Veja de 10 de março de 1999. Só há duas alternativas para interpretar um texto como este: ingenuidade ou má-fé. Você decide.

"O país não vai acabar. Pelo que se lê na imprensa a cada dia, o Brasil parece estar acabando. Do ponto de vista econômico, o país estaria afundando num caos irremediável. Do ponto de vista social, a impressão que se tem pelo noticiário é de que o governo está em guerra aberta e deliberada contra os pobres. O ministro Paulo Renato, da Educação, já usou o humor para reagir ao catastrofismo. Segundo ele, parte da imprensa entrou em orgasmo com a crise do real. O fato é que a excitação não encontra muito paralelo na vida real. A subida do dólar tem um forte componente especulativo. O real deveria ter se desvalorizado em 25%, no máximo – e não em mais de 40%, conforme registrava a cotação da semana passada. Não é certo mas é provável que a correção se faça naturalmente, com o passar dos meses. Há, além disso, vários dados positivos no quadro atual. A desvalorização do real acabou com o grande entrave à retomada do crescimento. Com a flexibilização do câmbio, as exportações aumentarão e as importações cairão. Como resultado, o déficit da balança comercial some e com ele desaparecem do horizonte econômico as nuvens mais negras. É evidente que o Brasil está num péssimo momento. A crise é grave e muitos de seus desdobramentos são imprevisíveis. Políticas recessivas como as que estão sendo implementadas agora – na falta de soluções menos dolorosas – nunca criam um estado de felicidade. As pressões políticas negativas se avolumam em momentos assim. Há um desgaste político imenso. Até o PFL critica o governo. Isso, no entanto, não quer dizer que o país esteja no corredor da morte. O Brasil amadureceu nos últimos tempos. Coletivamente, o brasileiro dá um valor extraordinário à estabilidade da moeda. Nunca se teve tanta clareza sobre o papel dos governos na criação de déficits. Soluções populistas e perigosas para crises econômicas, como o congelamento de preços e o calote na dívida, já não desfrutam o mesmo prestígio de anos atrás. Essas coisas fazem a diferença na hora de lidar com uma crise."

Ainda bem que a Veja sabe a receita para sair do buraco...

Ronaldo Bressane

Títulos traiçoeiros

A IstoÉ e a Época utilizaram em suas capas duas estratégias enunciativas muito criativas, mas questionáveis eticamente. A IstoÉ colocou foto do rosto de Itamar na capa como um título que aparece parte em letras enormes e o resto em letras muito menores. Bem destacado aparece a palavra "Traidor", em letras menores "é quem se curva ao capital estrangeiro". A princípio o leitor tem a impressão de que Itamar é chamado de traidor pela revista, depois quem continuar a leitura do título verá que o sentido é exatamente o oposto. Trata-se de uma fala de Itamar acusando FHC. A Época utilizou estratégia semelhante, mas sem a mesma carga difamatória. Colocou a foto de uma mulher que se transformava em super-mulher e no título com muito destaque a palavra "Frágil" e, em letras bem menores, "era a vovozinha".

Será ético o uso desse tipo de "brincadeira", que ilude inicialmente o leitor e que pode até dar uma idéia contrária a quem só olha rapidamente as capas das revistas nas bancas?

Jairo Faria Mendes

Mais apuração, leitor!

Calma, gente. Claro que a mídia continua com a boca torta, pelo uso do cachimbo. Só bate no Legislativo, como nos anos de chumbo; agora investe contra o Judiciário e fica tonta com a volta da inflação. Até aqui ninguém redigiu uma linha sobre a verdadeira desvalorização do real. Afinal, onde está escrito que inflação se combate por decreto? Quem foi que acreditou que, cortados mais três zeros, nosso real passaria a valer 1 dólar?

Inflação só pode ser combatida com produção. Não de papéis, mas produção de verdade, que gera empregos e faz a economia girar. A moeda francesa, como noticiou esta semana a Tribuna da Imprensa, sofreu nos últimos meses uma desvalorização de 33%. Na Itália, o extraordinário recorde de 70%. E não morreu nem caiu ninguém. Simplesmente não atrelam suas economias ao mercado do dólar.

Mas, voltando ao tema principal, não podemos rasgar o velho diploma do bom jornalismo, forjado nas redações, no dia-a-dia. Vamos apurar com absoluta isenção essa inoportuna retaliação contra o mestre Dines. Todos nós esperamos uma palavra dele sobre o episódio. Minhas desculpas, mas enxergo um certo açodamento tanto na punição do Dines quanto na divulgação dos fatos. Claro, estou com Dines, mas cada veículo tem o direito de escolher seus colaboradores. Ou estarei enganado? Vamos apurar os fatos e lançar um grande jornal nacional a partir da web. Quem sabe um dia ele não chegue às bancas, impresso, bonito, valente e independente.

Aluisio Lacerda

Vida de jornalista

Meu nome é Débora Menezes, repórter em início de carreira que trabalha em uma revista segmentada (de mergulho). Escrevo por não saber mais a quem recorrer. Sim, é sobre questões trabalhistas, que no meio profissional jornalístico não são tão profissionais assim...

Há quase dois anos, passei a trabalhar em um jornal chamado Todo Dia, em Americana, interior de São Paulo. Veículo de médio porte, o jornal tinha uma boa estrutura de redação, cadernos segmentados como Turismo, Informática etc. Nesses cadernos é que eu trabalhava, cobrindo Cidades e Esportes nos plantões de fim de semana e fazendo reportagens especiais para a edição de domingo.

Não havia motorista no jornal; então, cada repórter tinha que sair para fazer suas reportagens dirigindo. Como havia tirado carta pouco tempo antes, vi nisso uma oportunidade de dirigir, uma vez que não tinha automóvel. Mesmo com a falta de experiência, percebia que a maioria dos carros estava com problemas de amortecedores, suspensão, freios, em cada carro o problema era um. A maioria dirigia sem muito cuidado, com pressa, então os carros pareciam estar um pouco "detonados".

Quase seis meses de jornal depois, voltei à redação depois de uma tarde inteira rodando pela cidade para fechar algumas matérias. Estávamos perto do Natal, e algumas reportagens precisavam ser adiantadas. Dirigia um Fiesta com a planilha de madeira que precisávamos preencher em cima do painel do automóvel. Confesso que uma atitude de distração, mas enfim... estava a 20, 30 km/h e fui fazer uma manobra para dar a volta no estacionamento do jornal, quando perdi o controle em uma curva, pois a prancheta caiu e prendeu minha mão no volante. O freio não respondeu como deveria, e acabei batendo em uma saveiro estacionada – zerinho, e de um cliente da gráfica do jornal!

Ninguém se machucou. Nenhum vidro se quebrou. Mas o Fiesta, por falta de freio, foi raspando toda a lateral da Saveiro. Sim, foi um estrago até razoável, pelo menos no eixo traseiro da Saveiro e na roda dianteira do Fiesta. Assustada, entrei na redação. Pensei: "É claro que vou ser despedida, mesmo com os automóveis no seguro". Sim, fui despedida. Mas de uma maneira um pouco diferente. O diretor de redação, Sr. Paulo Bardall, chamou-me em uma sala para conversar. Uma pena ser jornalista de começo de carreira e não carregar gravador no bolso, mas a conversa foi mais ou menos assim: "É, Débora, vamos ter que te mandar embora. Mas você vai assinar a sua carta de demissão. Ou você assina a sua carta de demissão ou mandamos você embora por justa causa."

Não assinei nada e fui para casa dizendo que ia pensar. Liguei para o meu chefe, o editor dos cadernos (que não havia ido trabalhar naquele dia), que ligou para o advogado do Sindicato dos Jornalistas de Campinas, que me disse para não assinar a demissão. Que eles me demitissem por justa causa, que entraríamos com uma ação depois! Ok, depois de chorar muito (ah, esses focas sensíveis), no dia seguinte avisei que não assinaria a carta. Depois de uma bronca homérica, disseram-me "que eu estava ferrada, que não ia arrumar emprego em lugar nenhum" etc. Deixaram-me em uma sala, sozinha, "para pensar bem no que estava fazendo". De vez em quando, um funcionário do Depto. de Pessoal aparecia para ver se eu tinha mudado de idéia. Enquanto isso, uma amiga de minha mãe, que é delegada do Trabalho em uma cidade próxima, ligou no jornal para falar comigo. Não me deixaram atender, a não ser quando ela ameaçou a telefonista... sim, uma baixaria, mas ainda não acabou.

Mandaram-me embora por justa causa. A causa: "Desídia". E por seis meses de trabalho, recebi nove reais e uns quebrados, pois não tinha direito a 13º, férias etc. Justa causa... A única coisa boa que me aconteceu aquele dia foram as manifestações de solidariedade por parte da redação. Alguns repórteres e um editor vieram para o pátio e deram um pequeno apoio. O editor (meio anarquista por sinal), chegou até a cruzar os braços e disse que ia declarar greve. É claro que menos de uma hora depois desistiu da idéia, pois era sexta-feira e dia de "pescoção". Ainda não entrei com ação contra o jornal. Para dizer a verdade, fiquei um pouco com medo disso. Cheguei a escrever uma carta/e-mail para o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, mas não obtive resposta.

Caros colegas, não quero dinheiro da indenização, já estou trabalhando, e em um veículo de que gosto; mas a falta de respeito aos profissionais da área me faz pensar que eles deveriam ficar "de castigo". Tenho até o final de 99 para entrar com essa ação. Vale a pena trabalhar, sim. Não vale a pena é "deixar para lá" certas coisas em nome da profissão.

Débora Menezes

 

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