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Edição de Marinilda Carvalho
Declarações de apreço
Caro Dines, mesmo que a Pulha de S. Paulo te ache barato demais para ser pago, a gente te acha um barato impagável – de livre e gratuito acesso no Observatório. Para não ofender os acadêmicos (não é ironia!), pela falta de oportunidade de alcançar um diploma e pela incompetência em fugir do exercício de alto risco (virar publicitário em desvio de função exercendo um jornalismo sectário e servil), humildemente me defino como jornalista bastardo: existo mas não sou, nem tenho a pretensão de ser, reconhecido pela classe.
Meu assunto é este: a mistura indigesta, sem direito ao saudável vômito, enfiada goelabaixo em forma de monólogo entre pseudos-jornalistas e seus alter-egos publicitários (com todo o respeito aos profissionais decentes da área). A gente até engole sapos, na falta de carne mais nobre. Mas esses midiotas acabam com o estômago e provocam gases tóxicos vendidos como ervas aromáticas amazônicas.
Abaixo os midiotas transnacionais!
Eles vendem analfabetos intelectuais como políticos de esquerda.
Se o "colega" (não se ofenda) quiser, a gente pode debater sobre a tese de amestrado pela prática de manter a saúde mental no meio do banquete dos "gigantes do orçamento". Há braços!
Eduardo Martinez, estudante de Comércio Exterior na Urcamp, São Borja, RS, e bastardo em jornalismo pela Univida
Zero Hora , neutro???
Nota do O.I .: A carta abaixo, que comenta o artigo De bochincho em bochincho, de Isak Bejzman, publicado no O.I. nº 65, saiu na edição passada, mas está sendo republicada para que se conheça o contexto da resposta de Bejzman (em seguida), perdida, como muitas outras, num desastre de computador.
Meu nome é Gustavo Broch, tenho 21 anos e sou formando em Jornalismo. Caí literalmente no site de vocês ao navegar na Internet durante o trabalho, e me deparei com um texto absurdo de Isak Bejzman (que eu não sei quem é) intitulado Bochincho nos pampas. Poderia apontar várias coisas que não fazem sentido nas declarações do Sr. Bejzman, mas vou ser curto e grosso, como bom gaúcho: Imprensa neutra???? De que Marte ele está falando??? Da Zero Hora? Ou melhor, de todo o grupo RBS?? Indico ao Sr. Bejzman o site do jornal virtual Não (www.nao-til.com.br), redigido por pessoas de calibre e com informações na manga. Ver texto A voz do povo, de Jorge Furtado (Rede Globo), e outros de autoria de Carlos Gerbase etc. Para se falar em "Imprensa Neutra" devemos analisar os dois lados: imprensa durante o governo Britto e imprensa durante os "100 dias" do governo Olívio, com todas as bombas e mentiras deixadas pelo político que trocou o RS pela Espanha, depois de quase não deixar nada para os gaúchos. A propósito: Britto se escreve com dois tês.
Gostei muito do OBSERVATÓRIO e pretendo voltar outras vezes.
Gustavo Broch, Porto Alegre
Isak Bejzman responde: Prezado colega Gustavo Broch, shalom, e meus respeitos. Agradeço de forma terna o teu bochincho. Ele me gratifica por demás. Não sei por que, mas parece que entre jornalistas anda acontecendo algo que é muito comum de acontecer entre médicos.
Quando um médico prescreve, um simples funcionário de farmácia consegue decifrar e ler a receita. Dificilmente outro médico conseguirá repetir a proeza.
Moacyr Scliar, que é médico, faz blague sobre o assunto dizendo que os médicos sem perceber assim funcionam porque, se o medicamento atuar iatrogeniocamente, a responsabilidade vai ser do farmacêutico que entendeu mal a prescrição. Pois parece que eu cometi o mesmo erro.
Prezado jornalista G.B. o teu bochincho me faz pensar que escrevi um texto querendo dizer uma coisa e inconscientemente acabei escrevendo outra. Sinto muito se nós dois discordamos sobre o jornal Zero Hora. Eu distingo entre a linha editorial do jornal e seu corpo de profissionais, que é constituído por jornalistas, nossos colegas. Existem entre estes colegas aqueles que estão de acordo com a linha editorial do jornal, outros não. Ambos merecem meu respeito e consideração. Há 20 vinte anos nós brasileiros não tínhamos sequer o direito de pensar; quanto mais de discordar.
Para mim o jornal Zero Hora é tão importante para Porto Alegre e o Rio Grande do Sul quanto o Jornal do Commercio e o Correio do Povo. Aliás, costumo ler diariamente os três. É de se lamentar que não haja mais uma meia dúzia de jornais iguais, e a imprensa gaúcha teria um peso maior do que já tem no contexto jornalístico nacional.
Portanto, prezado jornalista, respeitosamente te solicito mais tolerância para com este teu colega sobre o bochincho malfeito quando abordei a teoria nefasta do jornalismo neutro, patologia de grande parte da imprensa nacional e até da Zero Hora também, por que não? I. B.
xxx
A voz do dono
Jorge Furtado, do jornal Não
Não tem precedentes a campanha movida pela RBS para que o governo do estado entregue o máximo de dinheiro público possível para a Ford. Há uma guerra na Europa, duas CPIs no Senado, banqueiros saqueando cofres públicos, e a Zero Hora, nos primeiros 15 dias de abril, deu dez manchetes de capa sobre o assunto, todas com o mesmo objetivo: enfraquecer o governo do estado do Rio Grande do Sul na queda de braço com a Ford pela instalação da fábrica no estado.
Recapitulando, para quem é de fora. Nos quatro anos de governo de Antonio Britto (94-98), a RBS comprou parte da companhia telefônica e de energia elétrica (que Britto havia prometido, em campanha, não privatizar), atropelou o Conselho de Cultura para arrecadar verbas para suas promoções (como o show de Roberto Carlos e Pavarotti), ficou com a maior fatia da gigantesca verba publicitária do governo, R$ 69 milhões só no último ano (a maior verba de publicidade de um governo de estado brasileiro). Este mesmo governo Britto, tentando produzir um fato político que ajudasse sua reeleição, entregou mundos e fundos públicos para que a Ford e a GM viessem se instalar aqui, concretizando o que a RBS chamou até gastar de "o sonho da montadora". Os contratos só se tornaram públicos na Justiça, por ação da bancada estadual do PT. O motivo para tanto sigilo ficou claro: o estado se comprometia a entregar tudo e mais um pouco à GM sem exigir garantia alguma. Como diz FHC, não vamos entrar em tecnicalidades mas, para se ter uma idéia de como o poderoso estado do Rio Grande do Sul foi bonzinho com a coitadinha da General Motors, só o (nosso) dinheiro adiantado um ano antes do início das obras rendeu de juros para a GM R$ 200 mil por dia. No mesmo período as indústrias agropecuária e coureiro-calçadista gaúchas desempregavam milhares de pessoas por falta de financiamento. Mas, apesar do carnaval publicitário pré-eleitoral, a moleza acabou na derrota de Britto na eleição. Olívio assumiu e quer renegociar os contratos, em condições mais vantajosas para o estado. Mas a RBS não quer deixar.
Por incrível que pareça, a RBS e a oposição estão se revelando mais capitalistas do que a Ford. Todos os dias, nos vários programas das várias rádios e TVs da rede, Buzzato, Proença e companhia esbravejam que os contratos são inegociáveis, que se não dermos tudo que prometemos à Ford eles irão embora correndo para Santa Catarina ou para a Bahia e nós voltaremos para a pré-história. Só que a própria Ford admitiu que aceita renegociar os contratos. Claro que só ficou sabendo disso ("Ford admite renegociar contratos") quem leu o Correio do Povo. A Ford admite receber menos do que estava no contrato, mas a RBS e a oposição não querem deixar o governo do estado economizar o nosso dinheiro.
O novo lance da fabricação do consenso foi a pesquisa que virou manchete em 16 de abril, em ZH: 69,3% apóiam cumprimento de contratos com GM e Ford. A pesquisa, malfeita pela Universidade Federal e bem paga pela RBS, foi realizada em 8 e 9 de abril. Que tal, para começar, dar uma olhada nas capas de Zero Hora naqueles dias? Dia 8: "GM ameaça adiar produção e Ford dá prazo ao governo". Dia 9: "Ford diz que tem outras opções para instalar fábrica".
Agora vamos ver as perguntas da pesquisa. A primeira: o que você acha da vinda de grandes empresas para o Rio Grande do Sul? Não é uma beleza esta pergunta? Me fez lembrar da velha máxima "é melhor ser rico e saudável do que pobre e doente". Não sei como, mas 6,8% dos entrevistados disseram que são contra a vinda de grandes empresas para o estado. A segunda: qual a sua opinião sobre a concessão de incentivos por parte do governo para que estas empresas se instalem aqui? Por incrível que pareça, 29,2% dos entrevistados disseram que discordam. Nenhum incentivo? Nem um cafezinho, um tapinha nas costas, uma palavrinha de estímulo? Ou, quem sabe, a pergunta deveria ser: você concorda que o governo pague a construção das fábricas, abra mão do imposto por 15 anos, empreste o nosso dinheiro a juros ridículos sem nenhuma garantia para as duas maiores empresas do mundo? A terceira: você acha que o atual governo deve manter os contratos de concessão de recursos com a GM e a Ford, assinados pelo governo anterior? Este foi o resultado que virou manchete: 69,3% responderam que sim. (O resultado já seria diferente se a pergunta fosse "você acha que o atual governo deve manter os contratos de concessão de recursos para a GM e a Ford, assinados pelo governo anterior?" Não que a formulação usada esteja gramaticalmente errada, mas a pergunta põe sua ênfase em manter contrato com e não em concessão de recursos para). Uma pergunta adicional poderia ter sido colocada aqui: você sabe o que dizem os contratos assinados pelo governo anterior com a GM e a Ford? Já a última pergunta é de uma subjetividade que lembra os testes da revista Capricho: você acha que a GM e a Ford têm condições de mudar para melhor a vida dos gaúchos? Eu acho que sim. E também para pior.
A formulação e a ordem das perguntas é decisiva para qualquer pesquisa. Mais decisiva, no entanto, é a metodologia utilizada. Existem muitas maneiras de se induzir o resultado e o impacto de uma pesquisa. A pesquisa UFRGS/RBS usou pelo menos três.
1. Para começar, você sabia que esta pesquisa tem uma margem de erro declarada (que eles chamam de "erro amostral") de 4,2%? Não consigo entender como uma pesquisa com margem de erro de 4,2% publica resultados com números depois da vírgula. O número publicado, 69,3%, dá uma idéia de precisão de décimos. Mas a margem de erro é de 4,2. É como se o seu arquiteto medisse a sua sala e dissesse que ela tem 6 metros e 20 centímetros e que a margem de erro da medida é de 2 metros e 10 centímetros. Mas isso é o de menos, quase todas as pesquisas incorrem neste erro.
2. Por que uma pesquisa que se refere ao governo do estado, à possibilidade de as empresas se instalarem no Rio Grande do Sul, aos incentivos que devem ser pagos com dinheiro de todo o estado, foi feita só na Região Metropolitana? Os moradores de Livramento, Caxias, Passo Fundo, que vão pagar a conta, também não deveriam ser ouvidos? Será que a escolha da área pesquisada não se relaciona ao fato de ser a região metropolitana a mais favorecida pelas empresas?
3. Qual o critério de escolha das cidades? Por que foram ouvidas 78 pessoas em Gravataí e 75 em Guaíba? E nenhuma em Canoas, Viamão, Sapucaia, São Leopoldo, Esteio? Será que a escolha não se relaciona ao fato de serem Gravataí e Guaíba as mais favorecidas pela vinda das empresas?
A pesquisa, feita sob o impacto das manchetes de Zero Hora e com critérios duvidosos, para dizer o mínimo, vira fato incontestável na voz dos articulistas. "A pesquisa prova" e "a maioria esmagadora dos gaúchos" foram frases repetidas em todos os veículos da rede, desde o despertar com Rogério Mendelski (ainda ressentido pela perda do patrocínio do governo do estado ao seu programa) até o Conversas com o Buzzato, canal 36, às 11 da noite.
"A voz das ruas" foi o título escolhido pela editora de Política de ZH, Rosane de Oliveira, para o criterioso artigo onde afirma que "na falta de um plebiscito, o governador está recebendo um indicador que vai arder em suas mãos como carvão em brasa". A analogia é forçada. Um plebiscito, afoitamente sugerido por Olívio no calor de um comício, deve respeitar princípios básicos de representatividade, como numa eleição. Menos criteriosa é a nota "A Voz do Povo", de José Barrionuevo: "A pesquisa mostra a opinião de esmagadora maioria da população favorável à permanência da Ford, honrando os contratos assinados pelo estado". Com todos os defeitos que possa ter, a melhor maneira de se ouvir a voz das ruas ou do povo continua sendo a realização de eleições por sufrágio universal, com direito de voto a todos os cidadãos, como a que elegeu Olívio e derrotou Britto. Pesquisas, em 98,3% dos casos, refletem apenas a voz do dono.
OAB vs Correio
Caro colega Alberto Dines, encaminho-lhe cópia de manifestação que recebi da OAB Federal, com firme protesto contra publicação de suplemento de lazer, na Semana Santa, no qual os editores do Correio Braziliense (nominados na correspondência anexa), e ocupando duas páginas inteiras, assacaram, gratuitamente, contra toda a classe dos advogados injúrias, calúnias e difamações, tudo gratuitamente (ou não seria? seria algum "coleguinha" querendo vingar-se de eventual insucesso em ação judicial, por culpa atribuída a algum advogado?). Uma das "piadas" de mau gosto dizia o seguinte: "Quando um gato encontra um advogado na praia, ele enterra o advogado na areia."
Como cidadão, senti-me atingido pela grosseira publicação, embora não sendo bacharel de Direito e sim jornalista profissional, tendo, prontamente, encaminhado o suplemento ao Dr. Reginaldo Oscar de Castro, presidente da OAB Federal, que me agradeceu a providência, fazendo-me chegar à mão a referida cópia.
Creio tratar-se de tema que pode ser objeto do Observatório, pela questão ética que suscita, colocando-me, eventualmente, à disposição para comentá-lo objetivamente. Abraços,
Mauro De Felice
Carta da OAB ao Correio Braziliense, em 14 de abril de 1999
Ao Dr. Paulo Cabral de Araújo
DD. Diretor Presidente do Correio Braziliense
Senhor presidente,
Sempre acostumado a encontrar no Correio Braziliense notícias e reportagens que levaram esse prestigioso Órgão da Imprensa a receber, com justiça, o prêmio World’s Best Design, concedido pela Society News Design, e a merecer o respeito e admiração da população do Distrito Federal, devo manifestar o mais veemente repúdio e a maior indignação com o Suplemento "Passatempo", de 04.04.99, que atinge, às fls. 09, de modo aviltante e gratuito, todo a classe dos advogados, que tenho a honra de representar, na condição de presidente Nacional da Entidade.
Com efeito, custa crer que os responsáveis pela Edição e redação do Suplemento, cujos nomes são mencionados às fls. 05 – Paulo Pestana, Conceição Freitas, Renato Ferraz, João Júnior e Klecius Henrique –, não tenham revelado a mínima sensibilidade para impedir o registro de situações que só contribuem para denegrir a imagem do advogado, longe de espelhar aquilo que a esmagadora maioria da classe pensa e faz.
Ao levar ao eminente jornalista, caro Colega e estimado amigo o protesto da Ordem Dos Advogados do Brasil pelo pseudo "humor" de que se pretendeu revestir o conteúdo da coluna "Advogados", no Encarte "Passatempo", colho e ensejo para, cumprimentando-o, reiterar a V. Exa. as expressões da mais elevada estima e distinta consideração. Atenciosamente,
Reginaldo Oscar de Castro, presidente
Continuação do Caderno do Leitor
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