Indice Jornal de Debates A imprensa em questao Caderno da Cidadania O circo da noticia Entre aspas

Edição: Marinilda Carvalho

Telhado de vidro

Trabalho como repórter no jornal O Estado de S. Paulo e, como tenho participado, desde o inicio, da cobertura sobre a explosão do Osasco Plaza Shopping, sempre recebo informações das vítimas e do shopping a respeito do assunto. Há cerca de dez dias, recebi mais um dossiê de Ilka Marinho de Andrade Zanotto, mãe de Marcelo Zanotto, um dos sete acusados pela explosão.

Muito ponderada, D. Ilka relembra argumentos que já me apresentou outras vezes e acrescenta informações. Respeito e admiro a fibra e a discrição dela, que tem se empenhado para provar a inocência do shopping na tragédia e, particularmente, de seu filho. Mas, como acho obrigação do repórter buscar a crítica e o equilíbrio, recebo as informações de D. Ilka como "mais informações", não como "únicas", até porque ela é parte envolvida na história (e de que forma!).

Procuro manter a distância necessária para avaliar até que ponto suas colocações são razoáveis ou fruto da perturbação de uma mãe que vê um filho ameaçado e tenta defendê-lo.

Em seu dossiê, "para não incorrer no mesmo crime de desmoralização gratuita" da qual seu filho teria sido vítima, D. Ilka cita "na grande imprensa paulistana as honrosas exceções da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde (...), da Gazeta Mercantil, do Diário do Comercio e da Industria, da TV Cultura" etc.

Qual não foi minha surpresa ontem, dia 15 de julho, ao ler na coluna do jornalista Luís Nassif, publicada no caderno Dinheiro da Folha, que D. Ilka "ressalva a posição de apenas dois veículos, a TV Cultura e a Folha", diante do "pesado muro de unanimidade" que teria sido erguido pelo restante da imprensa.

Com toda certeza, o jornalista, assim como outros profissionais de nossa área, recebeu o mesmo dossiê. Mas fez uso dele como lhe convinha, omitindo a ressalva feita também a outros órgãos importantes da imprensa e aproveitando a ocasião para enaltecer seu próprio veiculo, manipulando a informação de maneira claramente mal-intencionada.

Se o jornalista se propõe a criticar o papel e a ética da imprensa no caso especifico dessa cobertura, deveria no mínimo respeitar o preceito básico do jornalismo de ouvir as duas (ou mais) versões. Mas, ao que parece, Nassif preferiu seguir o seu próprio modelo de jornalismo. Além de confiar em um único lado e legitimá-lo em seu artigo como verdade absoluta, omite informações para lucrar dividendos profissionais, enaltecendo a si próprio e dando ao leitor a impressão de que o veículo para o qual escreve é o único isento e confiável.

De cima de um muro de arrogância, Nassif critica a cobertura (sobre a qual, aliás, parece não ter lido uma única linha a julgar pelos absurdos que toma como verdades) da imprensa como se não fizesse parte dela. E, fazendo parte, que erros de informação escreveu ontem!

Não é verdade, por exemplo, que o descaso do shopping para com as vítimas seja apenas "presumível", tampouco que a B7 Administrações tenha se disposto a "amparar a todas as vítimas", pelo menos não desde o começo. Eu, como outros colegas do Estado, apurei diversos exemplos dessa negligência, que foram publicados neste jornal.

Apuramos ainda que o shopping responde na Justiça a um processo civil por não ter pago um único centavo aos hospitais que atenderam as vítimas no dia da explosão. Claro que a administradora tem o direito de contestar os valores apresentados pelos hospitais, mas sua postura imediata foi de clara omissão e desinteresse.

Só depois de passados cerca de três meses é que iniciaram o apoio às vítimas e a seus parentes, quase todos de origem humilde e delicada situação financeira. Ainda assim, o departamento de assistência social do shopping se perdeu em trapalhadas no começo, como os próprios administradores do shopping admitiram.

O Estado, ao menos, não pode ser incluído nesse "muro de unanimidade" a que Nassif se refere. Eu mesma escrevi artigos falando da ajuda do shopping quando este, de fato, se dispôs a ajudar. Também não fazemos parte do grupo de jornalistas que recolhe informações em arquivos e continua repetindo o primeiro número divulgado pela polícia, de 432 feridos (mais tarde corrigido pelo delegado). Li, nas linhas da coluna de Nassif, conclusões reproduzidas do documento que D. Ilka preparou. Nem se deu ao trabalho de tirar as suas próprias!

Sinto-me ofendida por ter acompanhado com tanto cuidado esse processo e ver apresentada como legítima e definitiva, na coluna de alguém da importância de Nassif, uma análise totalmente unilateral, que trata toda a imprensa como irresponsável e burra.

É claro que há exageros da imprensa. As próprias vítimas da tragédia muitas vezes carregam por demais nas cores do drama nas inúmeras manifestações que fazem diante do shopping todos os meses. Mas isso não quer dizer que suas queixas não procedam.

Quanto à justificativa para o dolo eventual, apresentada por D. Ilka e reproduzida literalmente por Nassif em sua coluna, é ingênua e medíocre, passível de ser contestada pelo mais novato estudante de direito. Dolo eventual significa saber das possíveis conseqüências de um ato e, ainda assim, consentir em correr o risco. Nada tem a ver com ter a "intenção de explodir o shopping, visando o lucro (seguido de suicídio)".

Se a tipificação do crime for de fato um exagero, ninguém melhor que o juiz responsável para discernir.

A imprensa, ou pelo menos o Estado, apenas tem divulgado muito criteriosamente os passos do processo, sem condenar ninguém antes do tempo, mas lembrando-se de ouvir ambos os lados. Acho, no mínimo, imprudente suspeitar levianamente do comportamento de um delegado sério como o senhor Flávio Nogueira, e das promotoras.

Quanto ao laudo da explosão, questionado por Nassif, foi apresentado, nada menos, que pelo Instituto de Criminalística de São Paulo. Excelente que outros técnicos, a pedido do shopping, o contestem com um contralaudo. Mas, por enquanto, nada é definitivo. Muito menos o laudo extra-oficial do respeitável Sr. Vanin. É papel de D. Ilka tentar provar a inocência do filho com os argumentos de que dispõe. Não é papel do jornalista tentar provar qualquer tese confiando tão ingenuamente (ou maldosamente?) em uma só versão dos fatos que, por mais correta que o tempo venha a comprovar, é, por enquanto, apenas uma versão, carregada de emoção.

Aqui no Estado, não nos valemos apenas de documentos fornecidos por uma das partes envolvidas num caso para escrever. Muito menos nos inspiramos na "manjadíssima receita de outros casos de impacto", nos comportando como "jornalistas atrás de manchetes".

Inspiramo-nos na busca da verdade, por mais dolorosa que ela possa ser para os denunciados ou para as vítimas. Não pretendemos o linchamento moral de ninguém. Apenas buscamos a verdade.

Não gosto de ver meus colegas de trabalho e eu própria tomados como jornalistas levianos, como certamente há aos montes em toda a imprensa. Por isso, escrevo a esse fórum da imprensa, repassando o tema para discussão.

Paula Pereira, Cidades, O Estado de S. Paulo

 

Resposta de Luís Nassif

O dossiê que recebi mencionava Folha e TV Cultura, assim como aquele enviado ao OBSERVATÓRIO. Portanto, pode-se aquilatar quem é leviano na história.

Paula me escreveu, informando de um dossiê onde o Estadão é elogiado. Reiterei que no que recebi só havia a Folha e a TV Cultura. Pedi que ela me enviasse via fax, mas até a hora em que saí do meu escritório, logo depois do almoço de sexta [dia 17/7], o fax não havia chegado. De qualquer modo, ela foi informada por mim: reproduzi na coluna estritamente os termos do dossiê recebido. Mesmo assim, ela escreve ao OBSERVATÓRIO desconsiderando completamente o que lhe disse.

Grande parte dos artigos que escrevo sobre a imprensa enfoca coberturas realizadas pela própria Folha. Tenho sido, internamente, um crítico permanente dos exageros cometidos pela mídia em geral e pela Folha em particular.

O jornal aceita as críticas, vindo de seu colunista e membro do Conselho Editorial, com uma noção de democracia difícil de se encontrar em outros jornais. Justamente por isso não poderia, no caso em questão, deixar de mencionar a Folha, quando ela é expressamente lembrada por dona Ilka, como uma exceção positiva na cobertura.

Quanto à Paula, uma consulta ao banco de dados do Estadão mostra uma série de reportagens dela, a título de colaboradora. Não há nos artigos sensacionalismo, nem tão pouco a busca de ângulos novos ou enfoques de impacto, não há nenhum destaque maior, nenhuma investigação que saísse da cobertura convencional do dia-a-dia. Em nenhum momento do episódio pode-se dizer que ela tenha ditado o rumo da cobertura. São artigos simples, de uma repórter que entrevista os personagens de maneira correta, porém sem ousar um ângulo novo ou uma conclusão diferenciada.

No e-mail que me enviou, Paula admite que as promotoras possam ter cometido algum exagero, mas "na melhor das intenções". Se isso não for significativo do seu estado de espírito na cobertura do tema, não sei o que seria.

Não gosto de analisar trabalhos individuais de colegas, mas vícios generalizados da mídia. Lembro apenas que, se tivesse acompanhando o caso desde o início, como a Paula, e caísse em minhas mãos um dossiê onde são mencionados dois laudos sobre a explosão, assinados por dois especialistas reputados, que alteram o rumo das investigações, tenho certeza de que transformaria o dossiê em um furo.

Na consulta ao banco de dados do Estadão, não encontrei nenhuma matéria da colega sobre o assunto. Mas tenho certeza de que essa omissão foi feita com a melhor das intenções.

Luís Nassif

 

Nova mensagem de Paula Pereira

Estou enviando cópia da primeira página do dossíê de Ilka Zanotto a respeito da explosão do Osasco Plaza Shopping, a fim de desfazer um equívoco. O dossíê que tenho em mãos deixa claro que outros veículos de imprensa, além da Folha e da Cultura, tiveram a cobertura jornalística de acordo com sua conveniência. Alguém de fato parece ter sido leviano nesta história. Se não foi o jornalista Luís Nassif, só nos resta imaginar que a má fé foi do shopping. Reitero o que disse desde o princípio: é preciso abandonar a ingenuidade ou o comodismo de ouvir apenas uma das partes antes de emitir uma opinião.

Paula Pereira

 

Fax de Ilka Zanotto ao ‘Estado’

"O outro lado da tragédia do Osasco Plaza Shopping

Por que somos vítimas e não culpados

A princípio estarrecida com a catástrofe e totalmente arrasada pela perda irreparável de vidas e pelos ferimentos causados a inúmeras vítimas, guardei silêncio. Aquele do luto, da dor do desespero, da pergunta: por que?

Em seguida, soterrada pela saraivada de informações contraditórias, na maior parte errônea (sobretudo da imprensa televisiva), que teceram uma colcha de retalhos tendenciosa, guardei ainda silêncio porque minha perplexidade era do tamanho da minha dor: também eu queria entender o que havia acontecido.

Ante repetidas declarações categóricas do condutor oficial do inquérito culpando a Administração do Shopping pela tragédia antes, durante e depois do laudo do Instituto de Criminalística sobre as causas do acidente (e que concluiu categoricamente pela impossibilidade de ação preventiva por parte da Administração, à qual pertence também meu filho Marcelo Zanotto) resolvi chegar à opinião pública já maciçamente desinformada a respeito das verdadeiras responsabilidades. Como Davi, tento chegar aos Golias, detentores do poder da mídia, que no dizer de Arthur Gianotti "tem a ver com uma opção mercadológica clara: o escândalo, a achincalhe e a denúncia vendem jornal", e dão Ibope às TVs, acrescento eu. Para não incorrer no mesmo crime de desmoralização gratuita, cito na grande imprensa paulistana as honrosas exceções da Folha de S. Paulo, que deu a público reiteradamente os vários ângulos da questão, de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, que esclareceram com um jornalismo verdadeiramente investigativo pontos cruciais das causas da explosão, da Gazeta Mercantil, do Diário de Comércio e Indústria e da TV Cultura, que se pautaram pelo noticiário não-sensacionalista, de Veja, que saiu com matéria elucidativa, mas com erros de pressa (há uma ressalva vital, quanto à "biografia" de Marcelo) e de Isto É, que deu guarida à voz silenciada de Marcelo Zanotto. Mas, em geral, fomos colhidos por um onda de denuncismo, equivalente à carga de dinossauros do Jurassic Park. É por isso que resolvi reunir um dossiê que será enviado aos jornalistas amigos e a todos aqueles que sei buscam informação correta, fazendo de sua profissão um exercício de ética, e também àquelas pessoas que, nos conhecendo desde sempre, acreditaram em nós, antes e apesar de tudo. Antes dos laudos periciais e apesar da desinformação deliberada (há que se perguntar: a quem interessa essa desinformação?)

Ilma Maria de Andrade Zanotto"

 

Reaprender o óbvio

Claro que devemos conter os abusos da imprensa quando ela entra no terreno das notícias falsas, sejam elas contra pessoas ou instituições. O nosso ótimo OBSERVATÓRIO vem cuidando disso de maneira exemplar. Mas gostaria de transcrever para a reflexão do nosso Lira Neto e dos leitores trecho, de autoria de Ramalho Ortigão, em As Farpas IX, escrito a propósito da nova lei de imprensa em Portugal, por volta de 1870: "Se nós, particulares, tivéssemos de garantir-nos contra os governos com a mesma segurança com que os governos se acham garantidos contra nós, a primeira obrigação que lhes imporíamos seria a de terem um jornal e de imprimirem nele em cada manhã absolutamente tudo quanto pensassem de nós, para bem e para mal, mas principalmente para mal, porque o importante, porque o essencial é, sobretudo, isso: avisarem-nos do que nos prejudica. Se dispuséssemos da faculdade de nos precavermos contra o Governo com a mesma eficácia com que o Governo se acha precavido contra nós, todo o nosso plano de defesa se basearia no emprego dos meios atinentes a tornar para ele forçada a liberdade absoluta de imprensa, não facultativa mas obrigatória e levada até os últimos excessos a que pudesse chegar a pena dos seus escritores, sem freio, sem barreira, sem limite de espécie alguma.... Ora, este meio admirável, infelizmente inexeqüível, pelo qual nos seria possível fiscalizar os sentimentos e as idéias do Governo, pondo-nos de sobreaviso para combater ou para resistir aos seus projetos e aos seus atos, este meio único de nos informarmos do que o Governo verdadeiramente pensa a nosso respeito é exatamente aquele de que em todos os países em que há jornais e em que há liberdade de imprensa, o mesmo Governo dispõe para se pôr ao fato de tudo quanto pela nossa parte nós pensamos dele. E é desta completa e inteira publicidade de todas as nossas opiniões que o Governo tem medo?!... E é esta publicidade que ele quer regulamentar, que ele quer restringir, que ele quer suspender?!... Daí vemos que desde que num país existe quem deseje injuriar as instituições e os indivíduos que as representam - coisa que nenhum poder do mundo pode obstar que se dê - a grande vantagem para a segurança dessas instituições e desses indivíduos está em que a injúria, latente no espírito de cada um, se formule e se publique em jornais onde o Governo e a polícia se informem integralmente não só dos atos mas dos pensamentos do público.... A injúria só tem realmente importância quando imprime desonra. Ora, a desonra não se dá senão para os indivíduos que se conformam com ela. Nem, evidentemente, poderia ser de outro modo. O nosso crédito e o nosso decoro é o fruto dos nossos próprios atos e não dos atos dos outros. Para qualificar o pundonor de cada um, há na sociedade uma convenção, que serve de critério geral. Se alguém me chama covarde, a sociedade, para julgar do alcance que tem essa injúria sobre a minha honra, olha para mim e espera. Se eu não respondo, estou com efeito desonrado. Se eu porém replico ao sujeito que me injuriou, cobrindo-o de chicotadas, eu reabilitei-me amplamente na opinião social, e o desonrado é o outro". O texto é longo. A idéia foi trazer um aspecto ainda não abordado, pois como disse também Ramalho, "muito antes de se ter descoberto a imprensa, existia já a instituição oficial da censura."

José Rosa Filho

 

Funerais à moda da Globo

Envio este e-mail para descrever minha surpresa (não encontrei palavra melhor) referente à cobertura da TV Globo no enterro do cantor.

No dia do enterro estava tomando meu cafezinho na lanchonete como faço diariamente e quando me virei para ver o que passava na TV fiquei chocado quando vi o helicóptero da Globo filmando o túmulo do cantor. Até aí tudo bem, mas o que me impressionou foi a maneira que eles utilizaram para nos mostrar o acontecimento.

A câmera subia lentamente, distanciando-se do túmulo, com o fundo musical "Pense em mim", maior sucesso da dupla caipira, igualzinho ao enterro do Ayrton Senna, em que a câmera se distanciava e ouvíamos o "tema da vitória", imortalizado pelo corredor. É mole? A Globo criou um "know-how" de coberturas fúnebres! É duro ser brasileiro!

José Roberto

xxx

É formidável ver o esforço de pessoas, como vocês do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, alertando-nos para a hipnose que a falta do pensar nos leva, se seguirmos com desdém pelas linhas dos textos escritos ou falados, pelas imagens, vinhetas e cores, sem penetrar nas sutilezas das entrelinhas. Acabo de assistir pela TV Educativa a uma verdadeira aula sobre comunicação, no programa de 26/5/98. Quero aproveitar também para expressar sintonia com o modo de pensar sobre o caso da cobertura da morte do cantor popular Leandro. É triste ver a banalização da emoção, o esgotamento dos sentidos, a histeria coletiva e a indução irrefletida a que nos querem remeter os "técnicos frios" da audiência, das tiragens ilimitadas, do mercado das notícias. Incluo até o desequilíbrio dos protocolos, como enterro com bandeiras, hino nacional, solenidades. Não me lembro da mesma preocupação quando verdadeiros ícones do bem coletivo faleceram: Herbert de Souza, Albert Sabin etc.

Parece que a solidariedade, a identificação com a dor alheia, o respeito à privacidade, tudo foi tragado pela soberana mídia e transformado nesta grande arena circense, tal qual a romana, que recria o macabro espetáculo dos leões famintos que devoram sem olhar o que ou a quem... A alma humana é grandiosa e muito mais rica em valores do que pressupõe o imediatismo refletido pela mídia. Oxalá, tempos (coberturas éticas) melhores venham!

Mário Joanoni

 

Vitrine x Fantástico

O que falta, ao meu ver, aos atuais meios de comunicação é criatividade, é compromisso com o verdadeiro jornalismo. No momento em que a linha editorial visa determinados nichos deixa-se o jornalismo de lado e o que resulta é uma imensa monotonia de assuntos e abordagens, já que não somente uma, mas várias instituições, identificam e cobrem o mesmo nicho. É a massificação da informação. Hoje em dia, o que se preza é o retorno, o "ibope" sobre temas sensacionalistas de menor, eu diria, ridícula importância. A maioria dos editores dos mais "conceituados" meios visa fazer da notícia um simples produto, segue a velha lei do mercado que diz "onde há demanda se ganha". Mas enganam-se, pois a demanda é mal-explorada, é massificada. Será que realmente importa a uma grande parte das pessoas como anda a saúde de um "cantor" country? Certamente devem achar essa demanda, ou melhor, nós leitores, uns completos idiotas. Mal sabem que os verdadeiros idiotas são eles, incompetentes que não buscam fazer algo que preste. Fazem um "jornalismo lixo", sem inovação e estático e o que resulta só pode ser uma mídia igualmente lixo. Um bom exemplo de lixo é o Fantástico, com uma ridícula apelação melodramática. O seu oposto é o Vitrine, da TV Cultura. Será que se o Vitrine passasse na Globo e o Fantástico na TV Cultura os níveis da audiência permaneceriam os mesmos para os dois programas? Será que o lixo ainda reinaria?

P.S. Não trabalho na TV Cultura

Felipe Senna

 

Toques preguiçosos

E eu achando que a informatização facilitaria a vida do jornalista. Hoje em dia, com a indispensável ajuda dos editores de texto e similares, não é preciso calcular toques e centímetros; à última hora, pode-se aumentar ou diminuir o texto até adequá-lo às medidas disponíveis. No entanto, remando contra a maré, nossos jornalões vêm dando vexame na titulação de suas matérias. Quando o título excede ou não preenche o espaço definido, bate uma preguiça mental e encontra-se logo uma saída "genial". Genial como "Banheiro sem ar vira cativeiro de comerciante". Ou o pobre comerciante morreu sufocado ou então passou alguns dias insatisfeito pela ausência do seu ar-condicionado...

Deixando as regrinhas de lado (como evitar o "diz que" ou priorizar os verbos de ação), vejamos outro exemplo. "Mulher engravida de homem já morto". Pura encheção de lingüiça. Será que o homem morreu cedo demais ou o responsável pelo título precisou de

uns toques a mais? Outro dia, um jornalão carioca informava em título da editoria Rio (eles tentam salvar Política e Economia - tentam) o assassinato de duas pessoas por um carro ("Carro mata duas..."). Sorte não ter saído notícia de morte a faca. Imaginem o jornal estampando: "Faca mata duas pessoas em briga familiar".

PS: Os exemplos são de O Globo e JB.

Cláudio Gunk




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