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Edição: Marinilda Carvalho
O "maníaco do Parque"
Foi com horror que assisti ao espetáculo "prisão do maníaco do parque", ops, desculpe o erro, "prisão do suspeito de ser o maníaco do parque". Fui contagiada pela nossa querida imprensa. Não é possível que a cada caso assombroso a imprensa pressione a polícia, que adora as luzes, para entregar um culpado aos cidadãos. Torço com todas as minhas forças para que o tal Francisco de Assis seja realmente a pessoa que cometeu os crimes hediondos, porque a Escola-base, o caso Bodega e o assassinato da estudante carioca no início do ano - um coitado foi preso, amargou três meses na cadeia e foi solto por ser inocente - são suficientes. A vida do sujeito foi destruída, assim como as dos outros casos de maior expressão da mídia. Lamentável.
Patrícia Cerqueira
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O jornal Lance estampou em primeira página, no dia 9 de agosto último, a manchete "O maníaco do parque", ao fundo mostrando o atleta Marcelinho comemorando mais um gol na histórica goleada do Corinthians sobre o Atlético-MG, por 5 x 1, em pleno Mineirão, justamente quando, salvo engano, na véspera, o motoboy, preso havia alguns dias, supostamente por ter cometido nove assassinatos em São Paulo, já fora "batizado" por vários órgãos de imprensa como "o maníaco do Parque". Num primeiro momento, ou nos primeiros interrogatórios, ele insistia em negar a autoria daqueles crimes, mas logo viria a confissão e a busca pelos corpos das vítimas, trazendo indescritível dor às respectivas famílias e também aos pais do réu confesso.
Enviei comentário aos editores, srs. Walter de Mattos Júnior e Leão Serva, ponderando que homenagear Marcelinho com aquela chamada no mínimo, a meu ver, era inoportuno e infeliz. Lamentei também o fato por considerar aquele jornal bem elaborado, renovador, com cobertura de vários esportes e uma equipe de editores e de excelente qualidade. Ponderei ainda que o combate à violência, agudizada pelos problemas sócio-econômicos de nosso país, tem na imprensa importante. Alguns veículos usam e abusam da miséria humana, mostrando cenas dantescas com enfoque puramente sensacionalista, mas travestidos de paladinos da justiça por mostrar a realidade como ela é, doa em quem doer.
Gentilmente o sr. Leão Serva me respondeu, admitindo que pensaram muito na chamada de capa em questão, optando por mantê-la, em função do espírito do brasileiro, que faz piada de tudo, ainda que seja humor negro. Continuo, porém, acreditando que determinados temas, dependendo do momento e da colocação, podem ter conotação negativa. Determinadas atividades do ser humano - aqui me refiro ao aspecto estritamente profissional - são nobres, e aqueles que nelas militam não podem esquecer da ética. Vejo na mídia em geral essa nobreza, acompanhada da responsabilidade de informar e colaborar na formação da opinião da sociedade.
É difícil, imagino, caminhar nessa lâmina perigosa entre o que é correto, o que é certo, o que é necessário e imprescindível para não se afastar desses princípios.
Reitero meu respeito pelos editores do jornal Lance: estamos apenas trocando idéias, e me permito, eventualmente, fazer colocações que podem até estar equivocadas, mas vejo nesse breve debate uma excelente oportunidade de oxigenação de idéias.
Paulo Afonso de Barros, São José dos Campos, SP
O tamanho do clitóris
Talvez a reportagem da Folha tivesse tido uma chamada exagerada, mas o tipo de assunto pode ser de interesse para quem trabalha na área de sexologia, como também foram de interesse, recentemente, a série de reportagens sobre o Viagra e as cirurgias para aumento peniano, igualmente divulgadas pela Folha.
Claro que essas notícias de variedades não são comensuráveis com notícias de importantes eventos internacionais, pois cada qual tem sua área de pertinência. Não vejo problema com a reportagem. Talvez problema fosse a onda feita pela mídia com o caso Viagra, ou, há alguns anos, sobre a castração do marido abusador empreendida por Lorena Bobbit. Realmente não dá para entender por que deram tanta atenção ao caso, quando todos os dias, agora mesmo, milhares de meninas pelo mundo - em muitos países africanos, em alguns países árabes, entre os cristãos coptas ou entre algumas Comunidades árabes no Brasil e até nos Estados Unidos - estão sendo mutiladas nos seus genitais com caco de vidro, a sangue frio e com sadismo, sem nem entenderem o que está acontecendo, o porquê de tanto ódio contra elas. Ou talvez porque isso já seja o normal"?
Conclusão: a imprensa só serve para encher lingüiça, mesmo. Então para que criticar a Folha, que pelo menos de vez em quando publica reportagens sobre mutilações genitais - ao menos alertando um pouco as consciências (se é que se pode chamar de consciências) hipócritas.
Elisa Sayeg
Jornal Nacional e a emoção do circo
Certa vez, numa cidade do interior de Minas Gerais, onde residiam umas mil e quinhentas almas, não encontrei queijo nem cachaça. No entanto, após o jantar, a cidade estava toda ligada no Jornal Nacional. Daí os 10 minutos de Xuxa. O poder da mídia, que tem na Globo o seu maior expoente, é um caso praticamente sem solução. Vivemos, no Brasil, a experiência hipnótica da cobra e sua presa.
Todos apontam os exageros, criticam, falam dos absurdos de tal domínio, mas chega a hora do Jornal Nacional e lá estão todos reverenciando a dita cuja. Mas o assunto é de enorme seriedade, pois naqueles cerca de 30 minutos a emissora manipula a consciência da maioria absoluta dos telespectadores. Todos esperam chegar aquela hora para sorverem os ensinamentos do dia. Depois, vão dormir tranqüilos.
Ninguém duvida de que se a Globo desejar, por exemplo, que Lula ganhe a eleição isso se torne realidade. É coisa para no máximo 30 dias. Fernando Henrique e todo o seu grupo sabem disso. E aí vem a pergunta: isso é bom que aconteça? Claro que não. Mas fazer o quê? Quando alguém reclama é chamado no mínimo de chato, do contra etc. Por isso, digo como meu irmão: Oshalá, Sasha, que sob o mesmo princípio da produção dos antídotos, surja em você uma nova geração, alegre e sadia, imune ao vírus televisivo e salve o Brasil.
José Rosa Filho
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A corrida desmesurada pela notícia vulgar, como no caso de Sasha, mostra que a formação do profissional jornalista está defasada, apesar da montanha de informação a que tem acesso. Estamos parecendo um bando de abutres atrás da carniça. Quem chegar primeiro come o melhor pedaço.
Mas carniça faz bem?
É fútil dizer que o veículo publica porque o "povão" quer ler. Retórica parecida à dos "paparazzi" no caso Diana. No fundo, não explica nada. Será que o povão não gostaria de ler, ver e ouvir outras coisas, em vez de se curvar ao noticiário vulgar? Nós, jornalistas, em nosso próprio código de ética, formado e moldado durante nossa carreira, devemos ser mais críticos com o que fazemos. Devemos ter em mente que somos responsáveis pelo que divulgamos. A banalização existe porque nós a fazemos. Correr atrás da notícia que realmente interessa, como fizeram e fazem tantos jornalistas deste país, é coisa para quem tem competência. Em vez de correr contra o tempo, deveríamos correr a favor da boa informação.
Concordo com o "dar depois e dar melhor". Sou formado há quatro anos. Estou crescendo na profissão, e gostaria de estar em contato com vocês sempre que possível. É bastante apropriado este espaço que o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA abre aos jornalistas e, mais do que nunca, ao público (telespectador, ouvinte e leitor). Que ouçamos as críticas e elevemos o nível de nosso trabalho. Competência não é fácil alcançar, mas é a melhor meta.
Alexandre Barbosa Alves, jornal Santuário de Aparecida, SP
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Estou assistindo ao programa via TV Cultura de São Paulo. É lamentável que o escritor Paulo Coelho tenha entendido que a cobertura do nascimento da referida criança seja melhor que o caso Clinton/estagiária. O caso americano é digno de nota porque implica saber se os americanos aceitam que seu presidente tente burlar a Justiça por estar fazendo um bom governo.
Já no caso do bebê global, não há nenhum valor nacional em discussão. Tal comparação só poderia vir do "escritor" Paulo Coelho...
Queria cumprimentar pela participação de Augusto Nunes, que, com Alberto Dines, forma uma dupla peso bem pesado da imprensa nacional, apesar de todos os senões de nossa imprensa. Parabéns!
Ana Lúcia Amaral, Procuradoria Geral da República
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Meu nome é Daniela Tincani, sou publicitária, moro em Campinas. Fiquei indignada com a reportagem apresentada pelo Jornal Nacional no dia 5 último, sobre o policial que se defendeu de dois ladrões de banco na Praça Nossa Senhora da Paz. Não critico o ato de defesa, talvez fizesse o mesmo em igual situação. Eu me sinto ofendida como ser humano pelas imagens a que assisti, aliás reprisadas pelo menos quatro vezes, e ainda pelo depoimento de uma cidadã, parabenizando o ato do guarda e pior, incentivando o ato, no programa de maior audiência da TV brasileira. A Globo passou a ser uma manipuladora (grande novidade). E tratou o caso como se estivesse passando um filme de aventura!!
Infelizmente, estamos em um processo de idiotização do brasileiro. Com exceção da TV Cultura - que gostaria de aproveitar para parabenizar pela nova programação.
Daniela Tincani
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Lamentável sob todos os aspectos a veiculação no Jornal Nacional das cenas da execução sumária de dois suspeitos de assalto a uma agência bancária carioca por um policial militar. Esta visão cruel e realista do cotidiano das nossas cidades, desenvolvida pelos noticiários das redes de televisão brasileiras, revela-nos a pobreza dos parâmetros éticos institucionalizados nessas empresas, com a valorização de um pseudojornalismo de audiência, cada vez mais presente e atuante em nossas telinhas.
O público telespectador, à mercê desses telemercadores do trágico, nada mais tem a fazer senão refletir sobre os índices do ibope a reprovação tácita a esses desvios do comportamento jornalístico e a sua contrariedade por essas ações invasivas aos seus lares e perniciosas aos seus filhos.
Edelberto Oliveira, Rio de Janeiro
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A Rede Globo, no sábado 16/8, divulgou no JN coisas muito interessantes a respeito de sua atuação nas eleições deste ano. Respondeu a uma crítica do PT, que afirmou que a Globo, como boa parte da imprensa no Brasil, estava do lado do presidente FHC. A emissora disse que não "acoberta nem protege ninguém", e que divulga suas matérias segundo "interesses jornalísticos". Que interesses jornalísticos serão esses? Serão os mesmos que a levaram a "editar" o JN às vésperas da eleição de 1989, contribuindo decisivamente para a eleição de Fernando Collor de Mello? Ou serão os mesmos que levaram Brizola a exigir direito de resposta, lido no Jornal Nacional? Ou que a levaram a manipular de forma grotesca a edição das matérias sobre as Diretas Já?
De uma coisa eu estou certo: a Globo nunca acobertou nem protegeu o PT e as esquerdas. É, nesse comentário a Globo foi feliz e disse a verdade (pelo menos implicitamente): que não protege nem acoberta "ninguém" (PT, partidos de esquerda, organizações que pregam a liberdade de imprensa). Portanto, "alguém" (PFL, partidos conservadores, governo, organizações multinacionais) ela acoberta e protege. É a esse "alguém" que a Globo dirige seus "interesses jornalísticos".
Gleydson Pinheiro Albano, estudante do 5º ano de História, Natal
Domingos sem Aldir
Um domingo. Dois domingos. Estranho. Aldir Blanc não está mais lavando a alma da gente no Estadão. Foi cortado. A razão do seu corte para o leitor comum, como eu, vai permanecer tão obscura quanto a razão da convulsão do Ronaldinho no dia da final da Copa. Os jornais alardeiam aos quatro cantos a contratação de um figurão para escrever colunas. Mas não se preocupam sequer em avisar de um corte.
E o corte do Aldir não é um corte; é o corte.
Falo, sim, motivado também por razões pessoais, não as mesquinhas, mas as que me deram condição de avaliar essa perda, já que encontrei no Aldir um capaz de encarar as situações mais adversas e assumir o papel verdadeiro de um homem de imprensa. Defender aqueles que não têm voz. Aqui mesmo no Caderno do Leitor, em mais de uma oportunidade, pude expor o caso que envolve minha mãe, Maria Goldenberg, num processo judicial espúrio movido contra ela por autoridades autoritárias da cidade de Caxambu-MG. Ela esteve, desde o início deste odioso processo por danos morais, massacrada pelo que chamou-se "esmagamento de cidadãos por aparatos de poder".
Aldir inteirou-se do caso. Recebeu, de mim, todo o material do caso. E em mais de um domingo, lá estava Aldir a dissecar a barbaridade impetrada pelas "otoridades mineiras", a alertar para o perigoso precedente que tal processo representava, a falar por aqueles que recebem toneladas de massacre diariamente e que nada podem fazer porque não encontram canais dispostos a ouvir nada.
Não me parece muito correta que a decisão do corte de um jornalista não seja anunciada para o leitor que, como eu, vibrava a cada domingo com a lucidez, com o senso de justiça e com a coragem de pôr a cara à frente como Aldir fazia.
Mas nada como um dia após o outro. Não tem mais Aldir aos domingos. Mas tem às segundas-feiras, em O Dia.
Eduardo Goldenberg
O.I. escorrega na casca de banana
Meu nome é André Luís, tenho 23 anos, resido em João Pessoa e estudo no 5º período do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba.
Antes de começar gostaria de parabenizá-los pelo trabalho, é muito bom ver a imprensa vigiar a si própria.
Bem, o texto "Mass media e Internet escorregam na casca de banana", de Umberto Eco, foi traduzido de tal maneira (acho que pela pressa em mostrá-lo rapidamente ao público brasileiro) que em alguns momentos parece uma versão do original, e não uma tradução fiel.
Eu sei, eu sei que no início o autor pede desculpas por qualquer falha, mas uma coisa é uma falha pequena de algum artigo, preposição, outra são falhas que praticamente alteram o sentido de alguns trechos. O que dá a entender que o tradutor entende do idioma apenas pela metade...
É bom tomar cuidado, afinal de contas o Observatório está em tal posição que deve agir de maneira a evitar sugestões sobre manipulação de informações, e uma tradução mal feita gera um monte de insinuações desse tipo.
André Luís
O.I. não escorrega na casca de banana
Em primeiro lugar, meus parabéns pela iniciativa de implementar o OBSERVATÓRIO, uma verdadeira luz no meio das trevas da desinformação a que o povo brasileiro vem sendo submetido desde 1964. Espero que tenham sucesso nessa iniciativa. Gostaria que o programa abrisse espaço para debater sobre o seguinte assunto: dada a quase total unanimidade dos meios de divulgação em favor das políticas neoliberais e, em conseqüência, a favor da reeleição do atual presidente, com forte rejeição aos candidatos de oposição, cabe a pergunta: estamos vivenciando uma nova fase de censura política? Está a mídia, via técnicas inclusive subliminares, influenciando a população a um consenso pró-FHC similar ao que ocorreu na Alemanha nas primeiras décadas desse século?
A propósito, tomo a liberdade de divulgar o programa (pela TV e pela Internet) para outras pessoas.
Washington Braga
Nota do O.I.: A equipe agradece!
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Assisti pela primeira vez ao OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, e sinceramente fiquei mais tranqüilo. Já estava perdendo as esperanças de ver ou ler artigos de pessoas sensatas e de acordo com essa dura realidade de nosso final de século.
Tenho 25 anos e estou completamente desapontado com a mediocridade da minha própria geração (referência ao artigo escrito por Gilberto Dimenstein ("Quem é medíocre?", Folha de S. Paulo, 4/6/97 [ver remissão abaixo]. Acredito que essa mesma geração envolvida pela mentalidade infantil de nosso país não deseja se esforçar o mínimo para aprender a pensar, preferindo assim o caminho mais fácil, que e sugerido pela mídia em geral.
Outro aspecto importante é a pseudoliberdade de pensamento, em que qualquer um que pense diferentemente da maioria ou dos padrões estabelecidos é excluído de qualquer grupo social, formando guetos intelectuais que não conseguem fazer nada pelo país.
Quando digo mentalidade infantil me refiro a uma menina de 5 anos que gostaria de ser como a mãe, entra em seu quarto e começa a se vestir, pintar e ornamentar como ela etc.. Ridículo uma criança travestida de adulto, não? Pois essa criança é a minha geração: prefere imitar tudo que vem do Primeiro Mundo a ter sua própria identidade, e por conseqüência um futuro também original.....
Realmente, "quem é medíocre?"
Um programa como este somente renova as esperanças de quem acredita que isto pode ser melhorado.
Marcus Cesar Ferreira
Divulgação científica
Acabei de ler o comentário "Mídia, ciência e sociedade, ou jornalistas e cientistas: uma relação de parceria", por Graça Caldas.
Achei curioso que a autora, falando de ciência e sociedade e de divulgação científica, não tenha mencionado a SBPC. Só para lembrá-la: nossa reunião de Natal teve 14.000 participantes, a expociência faturou mais de 800.000 dólares, e mantemos várias publicações, com público-alvo variando do estudante básico ao pós-graduado. Recentemente publicamos um livro sobre os cientistas brasileiros, o primeiro de uma série.
Curioso e ridículo ao mesmo tempo.
Sérgio Henrique Ferreira, presidente da SBPC
Graça Caldas responde
Li com perplexidade o comentário do presidente da SBPC, o médico Sérgio Henrique Ferreira, sobre meu artigo "Mídia, ciência e sociedade, ou jornalistas e cientistas, uma relação de parceria". Obviamente, o presidente da SBPC não leu atentamente o texto. Na verdade, não cito o trabalho da SBPC, sem dúvida fundamental e que antecede, em muito, o próprio mandato do atual presidente da entidade, como não o faço em relação à Fapesp, ao CNPq, à Finep e tantas outras instituições de pesquisa ou universitárias. Não era este o meu objetivo.
Da mesma forma, não menciono qualquer referência ao trabalho de jornalistas que vêm se dedicando, há anos, à discussão sobre a necessidade de melhorar a formação e a cobertura de C&T no país, seja através de iniciativas como as do próprio Ofjor Ciência, deste OBSERVATÓRIO, ou da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC). Isto sem falar na produção acadêmica de inúmeras dissertações e teses de doutorado sobre jornalismo científico desenvolvidas em universidades brasileiras.
Meu artigo reflete, na verdade, uma vivência de quase 30 anos como repórter de educação e ciência, desde os anos 69, quando iniciei minha vida profissional no extinto jornal Diário de Notícias, passando pela Folha de S. Paulo, pelo Jornal do Brasil e nos últimos onze anos na Assessoria de Imprensa da Unicamp - antes de retomar a vida acadêmica -, onde produzi inúmeras matérias com cientistas de diferentes áreas e pude conhecer de perto o processo de produção da ciência desde o trabalho em laboratório ou em campo. Trata-se, portanto, de discutir a relação entre cientista e jornalista no processo da produção da notícia, uma vez que entendo ser necessária esta parceria para que a matéria científica seja elaborada e veiculada da forma mais competente possível, evitando ou reduzindo os intermináveis desgastes entre cientistas e jornalistas.
Finalmente, lamentaria o tom pouco elegante do comentário do presidente da SBPC -"Curioso e ridículo ao mesmo tempo" - que sem o menor conhecimento do trabalho da articulista parte de pressuposições do desconhecimento da autora da reunião da SBPC - "Só para lembrá-la..." - para elaborar seu argumento.
Só para completar. Tive a oportunidade de participar da banca da tese de doutorado da jornalista e ex-assessora do INPE e ex-presidente da ABJC, Fabíola de Oliveira, na ECA/USP, intitulada Ciência e tecnologia na comunicação social de instituições governamentais, defendida no dia 25 de junho último. Em longa entrevista à autora, da página 126 a 133, transcrita em forma de pingue-pongue, o médico Sérgio Henrique Ferreira, depois de fazer um relato sobre as diferentes formas de como a SBPC tem divulgado ciência, demonstra em diferentes trechos seu desconhecimento sobre o processo de formação dos jornalistas científicos especializados e o preconceito sobre o trabalho dos profissionais da área, quando critica a cobertura sobre ciência na mídia em geral.
Curioso, eu diria, mas não "ridículo", retomando um dos termos utilizados pelo presidente da SBPC em seu comentário, é quando ele próprio reconhece na entrevista incluída na tese de Fabíola que "o cientista é detalhista e o jornalista tem outra visão. Na verdade, seria preciso ter jornalistas de alto nível de especialização para poderem conversar com o cientista"; "um dos problemas é a dificuldade do jornalista de conversar e entender nossa linguagem" (...). Ele teme que o jornalista não irá traduzir o que ele deseja e ele (o cientista) não tem noção sobre o que interessa transmitir. O cientista não é educado nesta visão de relacionamento com a sociedade. Ele está acostumado à difusão científica 100% exata. O meio de comunicação de massa não utiliza esta mesma visão, sendo que um desvio na proposta pode gerar uma agressão psicológica muito grande. Raramente o cientista se lembra que o jornal vai embrulhar peixe dentro de dois dias".
Fica claro, pelas palavras do presidente da SBPC, que é necessário não só educar os jornalistas sobre os conceitos e a metodologia da produção da ciência, como também educar os cientistas para entenderem o processo de produção da notícia, o papel e a linguagem da mídia para um trabalho de parceria, argumentos que uso em profusão em meu texto.
Graça Caldas
Universidades
É interessante notar a falta de conhecimento com relação à problemática da Universidade no Brasil pelos redatores de Veja (em sua maioria) e a parcialidade de suas opiniões pró-governo. Em artigo publicado no começo de julho, "À espera de reforma", começam salientando que a universidade deveria ter uma reforma, como o SUS. Ora, com a reforma do SUS nunca a saúde esteve tão ruim, eu mesmo pude comprovar num hospital de Natal, o Ipê, que antes da reforma só atendia a funcionários do estado e agora atente a todos, e a verba continuou a mesma. Resultado, mau atendimento e filas que começam na noite anterior.
O artigo diz também que a pesquisa deixa muito a desejar, mas como melhorar a pesquisa se o governo cortou no ano passado 50% das bolsas de pós-graduação junto com o pacotão, e a imprensa, inclusive a Veja, nada mencionou?
Se o governo incentivasse apenas as universidades "de excelência", como os redatores de Veja querem, o que ocorreria com as regiões Norte e Nordeste? Os redatores de Veja também falam que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte tem muito professor para pouco aluno. De fato, mas a maioria é professor-substituto (400 reais por mês), já que o governo não abre concurso para professores efetivos, sucateando assim o ensino.
Talvez, para a alegria do MEC e dos editores de Veja, algum dia a Universidade Pública seja uma UNP (particular), com muitos alunos por sala, sem pesquisa e paga, evitando assim que mentes brilhantes cheguem à universidade por serem pobres e de classe média baixa.
Quando leio Veja e assisto aos telejornais me pergunto: por que eles têm tanta raiva das universidades? Conseguem se apropriar das pesquisas e divulgá-las para a comunidade e ainda por cima com bom ibope. A mídia se apropria também das estatísticas das pesquisas da universidade pública, tentando dar um caráter de verdade universal ao assunto que se está passando ao público. Estatísticas essas que são usadas às vezes para fazer mentiras se tornarem verdades, como no exemplo de que a UFRN tem mais professores por aluno.
Outro ponto: já pensou se em 1994 você tivesse votado em FHC (gosto não se discute) e quem tivesse assumido a presidência fosse o terceiro colocado, Enéas? Como você se sentiria? Estranho, não? Mas digamos que um órgão internacional com superpoderes interviesse no país e pusesse Enéas no poder. Você ficaria contente? Claro que não, no mínimo seria um gesto. É, nisso todos concordam. Mas, e se isso acontece em uma universidade pública? Pelo menos para a mídia nacional, o significado não seria o mesmo.
A mídia, principalmente a Veja e a Globo, teimam em defender a indicação do MEC, que escolheu o terceiro da lista de mais votados para reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, contrariando a vontade da comunidade acadêmica. Felizmente, a comunidade acadêmica protestou e invadiu a reitoria. Mas a mídia diz que a atitude autoritária do ministro da Educação está certa.
É, tem muito meio de comunicação com saudade do AI-5.
Gleydson Pinheiro Albano
Ética questionada
São, no mínimo, curiosas as duas revelações da última edição do jornal do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Extra Pauta n.º 37 junho-julho de 1998) [não temos remissão porque o jornal não está na web]. Na primeira, o jornal noticia a nomeação do jornalista Luiz Cláudio Oliveira (editor de cultura do jornal Folha do Paraná) para compor o Fórum da Comissão Municipal de Incentivo à Cultura. Segundo a notícia, o jornalista "analisará os projetos enviados ao município para a aplicação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura". É curiosa porque não toca em nenhum momento na necessidade ética de o jornalista se afastar de seu cargo no jornal em que trabalha. Também pudera: foi o próprio sindicato que o recomendou. Esperemos seu afastamento...
Na segunda, o jornal noticia mais uma "quase-greve" dos jornalistas do jornal curitibano Indústria e Comércio. A greve era para ter começado no dia 23 de abril, mas na última hora os patrões resolveram pagar o salário atrasado do mês de março. Famoso por não pagar os salários de seus jornalistas em dia (e até mesmo não pagar), o jornal introduziu recentemente cores na sua edição.
Alessandro Tarso, estudante de jornalismo da UFPR
Nota do O.I.: O personagem citado não se manifestou, embora e-mail lhe tenha sido enviado aos cuidados da Folha de Londrina, do mesmo grupo.
TV comunitária?
Em 1995, a lei da TV a cabo no Brasil criou os canais de acesso público gratuito. Acompanhei o processo de implantação do canal comunitário de São Paulo. O resultado: a programação que está no ar é vergonhosa: Athayde Patrese, deputados, utilização comercial descarada.
Escrevi a alguns jornais, mas parece que o assunto não desperta interesse, talvez por se tratar de uma mídia alternativa, sem grandes nomes ou cifras envolvidas. Gostaria de sugerir o tema para a pauta do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, pois trata-se de um acontecimento significativo na perspectiva da democratização da comunicação.
Como os municípios estão organizando sua participação nesses canais? Quais os critérios? A lei tem sido respeitada?
A população, aliás, desconhece a existência da lei e mesmo dos canais; a imprensa nunca se esforçou ou se interessou em divulgá-los, e as TVs menos ainda. Está mais do que na hora de os cidadãos terem acesso à mídia televisiva. Afinal, as ondas do ar ainda não foram privatizadas.
Márcia Meireles
Censura ao Terravista
Escrevo para noticiar um fato que praticamente passou em branco pela imprensa brasileira (a única exceção parece ter sido o jornal O Dia, que publicou nota na edição do dia 7 de agosto <http://www.uol.com.br/odia/info/in070898.htm>. Trata-se da suspensão, por quase duas semanas, do site do Terravista, um serviço português de informação e alocação gratuita de páginas lusófonas (cerca de 26 mil, incluídas aí alguns milhares de páginas brasileiras). O Terravista faz parte de um projeto ambicioso de congregação da comunidade lusófona, que contou, desde o início, com o apoio institucional do Ministério da Cultura português.
Pois foi exatamente uma decisão do ministro da Cultura que impediu que mais de um milhão de pessoas por dia (segundo dados do próprio Terravista) tivessem acesso aos conteúdos das páginas ali depositadas (muitas das quais jornais e revistas on-line de associações.
Tudo teria começado pela detecção de uma página que divulgava conteúdo pornográfico com personagens de histórias em quadrinhos. Haveria, também, a presença de uma ou mais páginas com conteúdo neonazista e ofensivo a minorias. Um problema aparentemente inevitável em se tratando de uma rede plural e incontrolável como a Internet. Pois para suprimir essas ameaças ao site e reforçando o controle, o ministério simplesmente ordenou a supressão do serviço. Em meio à grave desinformação geral, vários protestos começaram a ser organizados. O mais significativo, promovido pelo presidente da Associação Portuguesa dos Professores de História, conta com uma homepage localizada no endereço <http://come.to/protesto>.
Lá, também é possível encontrar uma cronologia dos fatos: <http://members.tripod.com/~Protesto_MC/cronologia.html>. No domingo, dia 9, o serviço voltou ao ar, agora gerido por uma associação privada e com a promessa de manter o ideal de liberdade original. Mesmo assim, os protestos continuam. Esse fato, aparentemente de interesse restrito, envolve questões cruciais para o mundo da comunicação e nos mostra como são tênues as fronteiras entre controle e censura.
João José A. Curvello

Veja, "Fui eu"
"O tamanho do clitóris" e
"Clitóris é maior do que se pensava"
Xuxa-Sasha e a Globo
Reforma das universidades
Divulgação científica
"Quem é medíocre?"
Sobre Ronaldinho
Continuação do Caderno do Leitor
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