Envie para um amigo  Procure no arquivo

Edição de Marinilda Carvalho

Sem qualquer demérito para as demais mensagens, todas de grande valor, dá gosto abrir a caixa postal do Observatório e encontrar cartas como as de Patricia Kin ("Entre alertas e alarmismos"), Maria Lucia Pereira de Sampaio ("Mídia valoriza achismo") e Carlos Augusto Coutinho ("Mais propaganda, menos qualidade"). São três cidadãos brasileiros que observam os fatos e a representação que a mídia faz deles e usam seu background cultural para, combinando esses poderosos ingredientes, refletir e formular opinião relevante sobre a realidade.

São pessoas preocupadas com a cidadania e os processos sociais, pessoas que cobram da imprensa um papel complementar nessa reflexão e nessa formulação de conceitos. São observadores não só da mídia, mas da nação e dos buracos negros criados em torno dela. Não são gênios, não apresentam títulos acadêmicos: é apenas gente que tem passado, e o sintetiza para entender o presente e tentar prever o futuro, inexorável. Mr Fukuyama pode até ter decretado o fim da história, mas, como diz uma amiga, ela não começou ontem.

Seria tão bom que as pessoas parassem de inventar a roda...

No mais, quem tiver curiosidade de assistir ao famoso vídeo do Channel 4 da BBC Brazil – Beyond Citizen Kane, aproveite: um leitor oferece em sua páginas os arquivos para download (ver mensagem abaixo). Mas prepare-se: são 484 Mb, divididos em quatro partes. Só mesmo com banda larga!

***

Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

***

CRIANÇAS NA MÍDIA
Entre alertas e alarmismos

A questão de manter ou não o sigilo das vítimas de estupro acaba por ser um grande dilema. Pois a decisão de manter em sigilo ou levar o fato ao público deve ser tomada pela vítima, que sofrerá as conseqüências da revelação do fato.

Acredito que, cobrindo de maneira mais sutil os casos de morte e seqüestro de crianças, de certa forma a mídia dá um alerta aos pais, sem causar grandes alardes. No momento em que a mídia torna um seqüestro ou uma morte num escândalo, o papel da mídia como comunicadora e informante cai, tornando-a um circo em busca de audiência. É muito importante lembrar que os noticiários deveriam ser usados para alertar a comunidade e deixá-la ciente dos fatos que a cercam, e não de causar pânico geral e desordem na cabeça dos pais.

Em busca das grandes audiências, a mídia acaba tomando um rumo muito diferente do que deveria ter, torna-se veículo manipulador, distorcendo informações e passando-as aos receptores de uma forma alarmista.

Patricia Kin

Leia também

O dilema da imprensa – Monitor da Imprensa

 

OPINIÃO E PALPITE
Mídia valoriza achismo

Sugiro que seja feita uma análise a respeito da manchete da primeira página da edição de domingo do jornal Zero Hora, de Porto Alegre: maioria acha que lojas abertas aos domingos geram mais empregos. Não quero contestar a pesquisa, o que me chamou a atenção foi o fato de que a opinião de um grupo de pessoas, escolhidas aleatoriamente, seja apresentada desta forma, com o destaque que têm as notícias mais importantes.

Que importância tem o que as pessoas acham, para se transformar na principal manchete do jornal que se diz ser o mais importante deste estado? Temos estudiosos neste país e no nosso estado que podem colher dados, cientificamente embasados, a respeito deste tema. Determinada ação gerar ou não gerar novos empregos é algo pode ser medido. Afinal, para que serve o conhecimento acumulado?

Parece que a noção que a manchete passa é que, se a maioria acha isso, então isso está certo. Me amedronta ver, cada vez mais, nos nossos meios de comunicação o depoimento de pessoas sem nenhum conhecimento a respeito do tema que está sendo apresentado ser tratado como opinião, quando na verdade não passa de palpite.

Não sou contra a participação popular, milito a favor dela, mas há temas em que o "achismo" não tem nenhuma importância. O primeiro passo para a participação é a informação.

Maria Lucia Pereira de Sampaio

 

TV POR ASSINATURA
Mais anúncio, menos qualidade

TV é mesmo concessão pública? Concessão de canais de TV não-aberta ainda é prerrogativa dos poderes públicos? Se é, gostaria de entender qual a função deste (des)controle. Belo Horizonte tinha dois canais de TV disponibilizados por cabo, cuja concessão, acredito, tenha sido obtida sob a justificativa de TV local. Com programas dirigidos à cidade, os canais 23 e 30 (não vou citar nomes-propaganda, não cabe aqui), por um bom tempo, cumpriram de modo muito satisfatório esta função, discutindo problemas locais, com mesas-redondas, divulgando eventos culturais nossos etc., preenchendo, enfim, um vácuo de informação e de direitos de cidadania que as redes de TV aberta se recusam a disponibilizar. Até que não resistiram à concorrência e foram vendidas a grupos distintos.

Resultado: um dos canais virou teleshopping 24 horas e o outro, comprado por grupo religioso, virou filial de púlpito evangélico. E o governo? E a cidade de BH? E nós, assinantes, que pagamos uma mensalidade proporcionalmente mais cara do que em países de Primeiro Mundo para assistirmos, impotentes, à piora da qualidade do que é transmitido?

Antes que me refresquem a memória, informando que, pela "legislação" de concessão de distribuição de sinais por cabo ou satélite, as empresas operadoras são apenas "disponibilizadoras" dos sinais, e portanto não são responsáveis pelos conteúdos, informo que há cinco anos, quando iniciei minha assinatura, o principal foco da operadora, no afã de arrebanhar assinantes, era a "quase ausência de anúncios" e a "qualidade da programação", apregoada como "diferenciada" da TV aberta.

Situação hoje que, em minha cidade, seguramente não é diferente daquela do resto do Brasil: além de perdemos vários canais de qualidade fomos invadidos por canais exclusivos de televendas. Até canais tradicionais de bom nível cultural, como o Discovery, transmitem hoje horas continuas deste tipo de programação.

Em resumo, não se diferencia mais o volume de tempo de anúncios em canais a cabo/satélite dos de TV aberta. Por outro lado, ao contrário das operadoras na Europa e nos EUA, não nos permitem escolher os canais à la carte: somos obrigados a aceitar goela abaixo, fartamente anunciado, todo o "entulho" adicionado à programação, procedimento oposto ao da retirada dos canais de melhor qualidade.

Que tal compramos um nariz de palhaço para assistir à TV?

Carlos Augusto Coutinho


  Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe