|
DIPLOMA EM XEQUE
Depoimento de um (quase) jornalista
Em 1971 comecei no rádio fazendo redação e locução de notícias. Tomei tal gosto pelas funções que não quis fazer outra coisa. Em 1973 mudei de emissora e continuei a fazer o mesmo. Em 1975, idem; 1976 e 1977, também.
Veio a tal abertura concedida pelo então ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto: quem estivesse exercendo a profissão, seria reconhecido como jornalista e teria seu MTB imediatamente. Correu meio-mundo. Quem tinha direito e quem pouco teria. Todos, de um modo ou de outro, conseguiram registrar-se. Afinal, estavam chegando os cursos para jornalistas e, após esse período, não mais seriam aceitos os não-diplomados.
Admito que fui pouco insistente. Procurei antigos chefes (uma vez que não era registrado, porque somente jornalistas podiam fazer redação e locução) para que pudessem atestar minhas funções. Nada! Ninguém quis enfrentar os rigores da lei trabalhista e arcar com multas e demandas. Deixei a idéia de lado. Tinha que trabalhar.
Em 1979 fui a Camboriú, SC, dar início à emissora AM. Fiquei até meados de 1981, quando retornei e voltei ao rádio no Estado de São Paulo, em 1982. Em 1985 (quantas datas, não?) fui convidado para ser o diretor responsável de um jornal, além de um dos proprietários. Aceitei. Comecei novo rumo, mas sempre ligado à notícia, e permaneço até hoje.
Fazendo pequena retrospectiva, mais de 30 anos indo e vindo à velha rotina das redações, em rádio e jornal. Gosto disso. Penso que sei fazer. Entrevistei gente famosa, importante, como Ulysses Guimarães, Delfim Neto, Almir Pazzianotto, Antônio Ermírio de Moraes, Maluf... Covas (terrível!). Fiz uma centena de entrevistas, escrevi seguramente 3 mil artigos, vários calhaus, fiz dezenas de fotos, abracei a primeira página sozinho... Fiz de tudo. Até auxiliei a justiça. Se não me engano é o único caso de que tenho conhecimento: alguém recebendo uma pena de 14 anos, por homicídio, cuja principal testemunha tenha sido um jornalista.
Rapidamente, passo a contar: três rapazes mataram um colega, depois de atraí-lo a uma emboscada, a pedradas, chutes e socos. Uma crueldade. Mas...
Quando soube que a polícia havia encontrado os suspeitos, corri à delegacia de gravador e câmera na mão, esperando falar e fotografar os suspeitos. "Negativo", disse-me o delegado de plantão."Tem uma portaria da Secretaria de Segurança Pública que proíbe entrevistas e fotos de suspeitos a menos que eles permitam", desanimou-me o policial.
Sem me dar por vencido, tentei argumentar, dizendo que pelo menos se perguntasse aos detidos se eles consentiriam foto e entrevista. Com má vontade o delegado foi saber. Para minha surpresa, dois deles queriam falar e permitiam foto. Uma declaração desse consentimento foi assinada por eles e passamos às fotos primeiro e depois a entrevista.
Detalhadamente os dois iam aos poucos descrevendo o modo bárbaro usado para atrair e matar o colega. O motivo, rixa de consumidores de drogas.
O tempo passou, os três foram libertados por falta de provas. Mas o promotor de justiça, passando os olhos nos autos, encontrou a declaração dos três, permitindo-me fotografá-los e entrevistá-los. Fui chamado ao gabinete do MP.
O promotor perguntou-me se eu estava lembrado daquela ocorrência. Disse-lhe que sim. Perguntou-me pela fita gravada onde os três descreviam o crime com detalhes. Disse-lhe que fora apagada e utilizada em outros trabalhos, afinal fazia muito tempo. Por fim, perguntou-me se o caso fosse reaberto baseado em novas provas eu seria testemunha. Aceitei. Nada a esconder.
Revelei no tribunal do júri a "confissão" que os três me haviam feito, com riqueza de detalhes. As palavras deles até hoje sou capaz de lembrar, inclusive de sua entonação.
Foram sentenciados a 14 anos de prisão. Por unanimidade dos jurados.
Este é um dos bons casos de que tenho lembrança e que servem como serviço prestado à sociedade.
Mas o que me intriga, mesmo, é a falta de registro profissional até hoje negado pela justiça.
Não valeram tantos anos de redação e locução de rádio em épocas oportunas; não valeram todos esses anos de jornal... Ainda preciso passar por uma faculdade para ser um jornalista. Mas fico pensando o que poderia aprender lá que ainda não sei. Quem sabe, ter mais paciência. Ver imberbes que pouco conhecem da profissão cometendo gafes, próprias de neófitos na escola; professores que nunca estiveram numa redação, seja de rádio, TV ou jornal, tentando dizer-me como começa, qual o meio e o fim de um artigo; o que é "olho", lide, barriga, nariz de cera... Macarrão. Fico pensando nessas bobagens. Nessas e naquela que a justiça faz comigo e com tantos outros que também têm tempo sobrando para justificar o registro, mas nem tanto para aproveitá-lo. Fico pensando.
Antonio José Netto
Universidade faz diferença
A questão da não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo para se exercer a profissão deveria passar por uma análise contemporânea. Não devemos exaltar as virtudes ou os defeitos de profissionais com "canudos" ou autodidatas. É inconcebível aceitar com passividade a evolução das mídias e de seus profissionais.
Trabalho há quatro anos na Rede Globo de São Paulo como radialista e me encontrei na necessidade de cursar uma faculdade de jornalismo para poder exercer a profissão de repórter e não me sinto mal nem indignado por causa disso, acho que estarei muito melhor preparado para essa tarefa de imensa responsabilidade estando em um curso de nível superior (apesar de tão denegrido...) do que aprendendo o ofício somente na prática.
Apóio a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão pois, na Universidade, participei de vários debates, palestras e seminários, além de ampliar a minha bibliografia específica, e tive aulas muito interessantes que modificaram a minha vida, o meu cotidiano. Entendo que a pessoa que escolhe o curso de Jornalismo quer ser jornalista, não é? Assim como quem escolhe medicina quer ser médico, não deveria ser? Quando precisar da opinião ou de um parecer específico de um especialista, eu o procuro! Não irei falar do que eu não entendo ou "conheço superficialmente" como comenta Cláudio Buongermino.
Sergio Capozzielli, radialista da Rede Globo, São Paulo
Carta aberta à juíza
Sou estudante de Jornalismo, há quatro anos estou na universidade. Durante esse tempo passei por muitas dificuldades. Encontrei poucos livros na biblioteca, dividi 10 computadores com mais de 30 colegas, saí de minha cidade natal para estudar fora (o que onerou custos), encontrei professores mais preocupados em fazer política do que em dar aulas. De longe assisti às lutas do Diretório Central dos Estudantes (DCE) para modernizar equipamentos, exigir contratação de professores, ampliação de acervo bibliográfico, entre outras reivindicações.
Lutamos para fazer a primeira edição do nosso jornal-laboratório, a nossa ilha de edição é daquelas que qualquer um pode ter em casa para editar a fita de aniversário da filha. Para fazer produção de matérias é um burocracia conseguir ligações interurbanas, sem contar com transporte universitário que leve a equipe até os entrevistados (na faculdade, pauta não pode cair, entrevistado não pode remarcar entrevista, ou seja, jornalismo tem que abandonar sua característica factual e imediatista); nos deparamos com professores que escrevem errado e que se dizem formados em Jornalismo, mas que se fossem à rua fazer matéria chegariam somente no outro dia, quando na verdade o mercado exige imediatismo.
Dra. Carla Rister, parabenizo-a unicamente pelo fato de, ao ter tomado a decisão de anular a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, ter paradoxalmente reconhecido que o ensino nas faculdades vai mal. Mas saiba a senhora que só por isso. Pois foi na faculdade que conheci Marques de Melo, Muniz Sodré, Nilson Lage, que fui apresentada a Alberto Dines. Que aprendi as diferenças entre o jornalismo americano e o brasileiro. Foi na faculdade que aprendi teoria e visualizei a prática, é por causa dela que hoje sei discernir politicagem e política no trato com a informação, que discuto ética na profissão.
Abismada estou com a distância entre a Justiça brasileira e a promoção do desenvolvimento educacional no meu país. Até hoje nunca ouvi dizer que educação e sabedoria em excesso tenham feito mal a alguém. Mas é esse o nosso sistema. Posso desenhar mal e ser cartunista... Posso escrever mal e irresponsavelmente e ser jornalista...
Será que não prejudico a vida de alguém? E as eleições de 90, a democrática eleição de 90? Collor se elegeu a duras penas (dos jornalistas). Relegar a influência midiática na construção de uma sociedade é uma atitude incoerente, é desconhecer a importância da responsabilidade no trato com a informação. Se a meritíssima quer mudar, mude. Baixe um decreto obrigando toda faculdade pública a ter livros em quantidade, qualidade e variedade. Extinga o processo seletivo. Participe da campanha para a criação de mais vagas nos centros universitários, de aumento no salário mísero dos professores, de mudança no quadro educacional brasileiro.
Mas não o comprima, não rebaixe a zero, não queime diplomas como se fosse tão fácil quanto comprar bananas na feira. Porque educação de qualidade é o que os países do Primeiro Mundo oferecem a seus cidadãos. Se lá não se exige diploma é porque, e aí já é uma questão cultural, social, econômica, lá todos podem ter acesso à educação. Desde o início sabem disso.
Carollini Assis, 7º semestre do Curso de Comunicação Social/ Jornalismo na Uesb, Vitória da Conquista, BA
|