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DIPLOMA EM XEQUE
A juíza e o Joãozinho
Após o feliz episódio da juíza "comunicóloga" da 16ª Vara Cível da Justiça Federal de São Paulo, cheguei à conclusão de que vivemos num país no qual todos sabem escrever, ler e externar suas opiniões com sabedoria jornalística e grande poder crítico. Agora tenho certeza absoluta de que as universidades são núcleos formadores de nossa sabedoria, e ao sairmos dela estaremos preparados para o vasto campo de mercado que se mostra à nossa categoria. Esta maravilhosa juíza, inteligente, que nunca deve ter errado uma sílaba sequer, formada em seu humilde e ético curso de Direito, transformou-se em ícone e modelo para nós, profissionais de Comunicação. Arquétipo condenável de ignorância, sofismo e mau gosto, não devendo ser levada a sério, por nenhum ser pensante de nosso planeta. Nós, jornalistas, formados ou não, vivemos os impasses de uma carreira incerta, inexistente, relegada aos reveses de um sistema tecnicista. Temos que fortalecer e criar um sindicato digno, que nos represente como realmente merecemos. Pois somos, numa visão utópica, os propagadores da verdade social, que visa a melhora do cidadão. Deixamos de ser reguladores sociais para virarmos bucha de canhão de políticos mal-intencionados.
Somos cada vez mais engolidos pelo tal "custo-benefício", nos transformando em robôs isolados em ilha de ilusões. Não podemos deixar que uma infeliz representante de um sistema judiciário falho nos rebaixe a uma categoria de simples empregados à mercê de empregadores.
Faculdade não é comércio, apesar de achar que o ensino, de uma maneira geral, deveria ser público. Por que não convidar essa magistrada a visitar a humilde casa do "Joãozinho", que trabalha todos os dias, assalariado, para pagar a faculdade e alimentar seu sonho? Mas a nossa maravilhosa juíza acha isso futilidade. Afinal, o Poder Judiciário é tão justo com os "Joãozinhos", não?
Fernanda Reis, estudante de Jornalismo do Centro Universitário Monte Serrat, Santos, SP
Pensar jornalismo, exercer jornalismo
Deixar de exigir o diploma do curso superior de jornalismo para exercer essa profissão abre um precedente perigoso. Seus efeitos poderão ser sentidos em outras áreas. E, como dessa vez, no simples bater de martelo de algum magistrado precipitado. Redigir textos para jornal, para ficar apenas com esse veículo de comunicação, não é nenhuma atividade tão complexa a ponto de demandar quatro anos de faculdade. Em contrapartida, é a parte prática – e das mais visíveis – de um conjunto de conhecimentos, sejam eles técnicos ou teóricos.
Pergunte-se a um dentista se é preciso cursar um sem-número de disciplinas durante os mesmos quatro anos para extrair um dente ou fazer uma obturação. Os mais sinceros irão responder não, provavelmente. Trata-se de um serviço mecânico. Basta seguir, passo a passo, os procedimentos e praticar muito.
Com o jornalismo, é semelhante. Qualquer pessoa bem informada e com bom texto pode produzir matérias. Além desses dois óbvios pré-requisitos, falta a prática, pois os grandes nomes do jornalismo não se cansam de repetir que é no dia-a-dia que se aprende a trabalhar.
A comparação parece simplista, mas se sustenta. Se, por acaso, houver algum problema na extração de um dente, um odontologista saberá contorná-lo, utilizando-se de conhecimentos inerentes a seu ofício que vão além da técnica mínima necessária para o que fazia.
Como estudante ao longo de no mínimo quatro anos, o jornalista adquiriu saberes e alguma experiência para enfrentar imprevistos e dilemas. Estudou, embora não profundamente, sociologia, antropologia, filosofia, teoria da comunicação. Em disciplinas voltadas para a prática profissional, escreveu textos apropriados para jornal e revista, treinou diagramação, gravou programas de rádio, fez ‘stand ups’ para a TV e ensaios fotográficos. Sobretudo, discutiu ética, tanto na teoria quanto em episódios como o que resultou na saída de Ricardo Boechat de O Globo.
Ora, a formação de um jornalista não se mede pela capacidade de fazer reportagens.
Deixar de exigir o diploma ainda poderá promover o afastamento entre faculdade e mercado, o que só trará conseqüências negativas. Para ambos. Talvez, porém, com prejuízo maior para o mercado (e a sociedade), com uma eventual queda de qualidade dos ‘focas’. Pelo menos a faculdade deixará de lidar com a cobrança de se tornar uma "linha de montagem" de profissionais, em vez de uma instituição capaz de incentivar a postura crítica e o ceticismo, ironicamente indispensáveis a quem pretende ingressar na profissão fiscalizadora do poder.
No mercado, exerce-se jornalismo. Na faculdade, pensa-se jornalismo. Como, aliás, também se faz – e muito bem – no Observatório da Imprensa e no N de Notícia. A contribuição da faculdade e desses programas é inestimável. Afinal, sem reflexão o jornalismo perderia todo o seu sentido.
Na opinião dos jornalistas experientes entrevistados no Observatório, alguns alunos recém-formados não estão aptos a serem jornalistas. Mas isso também acontece com os graduados em outros cursos superiores. Está longe de ser um indício de que a faculdade de jornalismo não serve para nada. A Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, reprova todo ano mais da metade dos bacharéis em Direito.
Além disso, em tese, os que terminaram cursos de jornalismo devem estar mais aptos a serem jornalistas do que aqueles que completaram o ensino superior em outras áreas ou concluíram somente o nível médio (2º grau).
Triste é ouvir que o curso de jornalismo é inútil de quem deveria valorizá-lo: os professores. Os alunos se sentem jogando no lixo o tempo e a dedicação. Se o próprio professor pensa assim, qual a razão de ser da disciplina por ele ministrada? Que dirá de todo o curso (com matérias defasadas, que ensinam a calcular a página em paicas e a trabalhar com videotexto)?
A decisão em primeira instância, que originou toda essa discussão, suscita também outros debates. Ainda veremos essa medida ser cancelada e reiterada, sucessivamente, por liminares, mandados de segurança e outros documentos no vai e vem da Justiça, que parece ter perdido um de seus pilares mais elementares, o critério. Vimos os mandos e desmandos no Vestibular 2002, na concessão de autonomia para taxistas etc., e tudo indica que teremos outros exemplos.
Desde já, obrigado e parabéns pela página eletrônica e pelo programa na TV.
Eduardo Compan, aluno do 6º período de jornalismo da ECO/UFRJ
É só corporativismo
Continuo achando que é corporativismo. Não entendo por que não se pode ser jornalista sem Ter curso superior. Afinal, nem todos os produtores rurais são agrônomos ou veterinários ou zootécnicos ou mesmo técnicos. Existe uma coisa que se chama vocação. Do mesmo modo que um comerciante não precisa de curso de nada para ser um bom empresário.
Eliana Molina
Desde criancinha
Fiquei super-indignada quando me deparei com a questão "Diploma de jornalista em xeque". Tenho apenas 14 anos, mas há algum tempo que venho me interessando pelo jornalismo, e acho que para exercer essa profissão, sem dúvida alguma, é necessário que a pessoa tenha passado no vestibular, tenha estudado e se empenhado muito e conseguido um diploma. Tendo passado por essas etapas, é muito provável que a pessoa se torne um profissional de qualidade.
Não tenho palavras para descrever a opinião dessa juíza e das outras pessoas que são contra o diploma obrigatório... é um absurdo ter um pensamento com este! Espero que o quadro se normalize, e que daqui a alguns anos eu possa entrar numa faculdade tranqüila, sabendo que todos se conscientizaram do mérito em se dedicar ao estudo de Jornalismo.
Danielle Torres, Rio de Janeiro
Desde jovem
Sou estudante de Jornalismo cursando o primeiro semestre em uma faculdade privada no Rio Grande do Sul, e vejo com espanto o fato de alguns "profissionais" do ramo apoiarem esse atentado à prática e à técnica jornalísticas. Tenho como objetivo, desde muito jovem, cursar essa faculdade e poder divulgar as injustiças e os acontecimentos da sociedade. Sempre fui leitora assídua e tenho uma boa bagagem cultural, mas como poderia ser jornalista apenas com esses requisitos? Tenho apenas 20 anos. Quais argumentos eu poderia utilizar no pleito a uma vaga em um órgão de imprensa? Não tenho experiência.
Os jornalistas que iniciaram diretamente nas redações, há anos, têm que considerar que hoje a situação social do país é diferente. As empresas procuram profissionais cada vez mais bem qualificados. Embora isso não seja de todo certo, é a realidade.
O que deve haver, na minha opinião, é, sim, uma reformulação do currículo do curso. Aplicar matérias mais condizentes com a nossa realidade. Mas permitir que qualquer pessoa com bom texto e bagagem cultural possa exercer a profissão é um despautério. Que validade terão os profissionais que dedicaram anos de dinheiro, tempo e estudos ao desejo de ser jornalista? E nós, estudantes, o que seremos?
Jacqueline O. da Rosa
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