COBERTURA PAROQUIAL
Jornalismo leva-e-traz
A cobertura paroquial não é só nas viagens presidenciais ao exterior. Também ocorre muito nas visitas ao interior do Brasil. Pouco se fica sabendo de lugares visitados recentemente como Rondonópolis, em Mato Grosso, mas sabe-se tudo a respeito de negociações políticas do governo e palavrinhas engraçadas dos discursos. A cobertura ficou virtualizada porque incrivelmente desaparece o espaço onde se dão os acontecimentos. Como se viu na recente guerra contra o Iraque, um repórter cobre absurdamente o conflito a mil quilômetros de distância. Daí para ignorar um seminário na Inglaterra é o passo seguinte.
Outra dificuldade em temas internacionais é a falta de conhecimento dos repórteres e editores. Como disse Jean-Luc Godard, o jornalismo virou uma atividade de repassar, leva-e-traz, de informações. A mídia é um deserto intelectual e de conhecimento nos dias de hoje. As editorias de economia e política estão entulhadas de gente com todo um aparato técnico para fazer as matérias as mais sofisticadas, mas incapazes de juntar os fragmentos para construir, como você bem disse, uma representação da realidade. Não há uma representação, existe sim uma colagem paranóica (devido à velocidade) de acontecimentos nas páginas dos jornais.
Enio Vieira
Leia também
Imprensa vai ao exterior para escrever sobre o Brasil – Alberto Dines
MÍDIA & GOVERNO
Duplicidade de pesos
Qualquer gesto por parte de qualquer pessoa pode ser contextualizado de tal forma que se produza um efeito de reprovação ou aprovação geral. No caso do boné, por mais insignificante que possa ser o gesto – afinal, os integrantes do MST também são súditos do Estado brasileiro, uma vez que nenhum deles, pelo menos ao que se saiba, perdeu a nacionalidade, são eleitores, também, e é comum que uma autoridade eleita procure se dirigir aos eleitores no meio em que estejam eles inseridos –, a mídia procurou criar um significado de uma ameaça de subversão da ordem constituída, quebra da autoridade, como a dizer que, a se repetir tal cena, poderia ser construída uma situação similar à que conduziu ao movimento de 1964.
Não seria feito tanto escândalo se um presidente ligado ao empresariado envergasse a camiseta da Manesmann ou da Fiesp, ou mesmo da UDR. Observe-se que não estou, aqui, nem a defender o MST, nem a atacá-lo, bem como não estou a defender o presidente atual. Estou, simplesmente, a assinalar o problema da duplicidade de pesos e medidas, bem flagrado no texto de Alberto Dines.
Ricardo Antônio Lucas Camargo
Quem somos, como estamos
Dines, parabéns pela inspirada análise sobre quem somos, como estamos e o que fazemos. Em poucos parágrafos, e a partir de um breve gesto do presidente com o tal boné, você pintou o quadro inteiro, a meu ver, com grande exatidão.
Gabriel Manzano Filho
Leia também
O boné não é um boné – é um sistema – Alberto Dines
Persistente má vontade
Enterraram o Correio da Manhã. Nunca mais teremos um jornal como o Correio da Manhã. Agora vai agonizando o Jornal do Brasil. Sou carioca radicado em São José dos Campos (SP), e já não encontro o JB em nenhuma banca. Porque para ficar atualizado leio um jornal da capital, Folha de S.Paulo, e um do Rio de Janeiro, pois o mesmo assunto é enfocado de forma peculiar, o que dá para termos visão mais acurada. Aliás, o Rio de Janeiro, foi, é e sempre será a capital cultural do Brasil.
O Globo não dá para ler. Agora, lamentavelmente tenho que agüentar uma persistente má vontade da Folha quando se refere ao governo Lula. A grande mídia não se conforma e quer continuar como antes, influenciando ceticamente. Não é democrática como faz parecer. A Folha, que compro aos domingos e continuo lendo durante a semana, sempre, qualquer que seja o assunto que se relacione ao governo Lula, faz uma abordagem de descrédito às iniciativas do governo. Não se trata de dizer que o governo é perfeito, não, claro que não, porém sistematicamente exercer o derrotismo, o vilipêndio é amargo.
Outro assunto é a abordagem sobre Cuba, país que atravessa um mar de dificuldades gerada pelo execrável bloqueio exercido pelo "dono" do mundo, ao qual Cuba não se ajoelha. As reportagens da Folha de São Paulo não são justas e leais. São versões, com a conivência e a cumplicidade da grande mídia, que não respeita a sincera informação. É deplorável.
O que ocorre com o JB é uma seqüência de administrações sem visão. Não basta colocar a culpa na economia. A elite cultivou a ignorância do povo, conseguiu, pois o brasileiro na média geral não gosta de ler, isto é, lê muito pouco. Lamentável, a ignorância das nossas elites fez com que o Brasil após 500 anos se tornasse um labirinto. O Brasil esta todo por ser refeito, melhor, por ser feito. Mãos à obra com ética e escrúpulo.
Roberto Cordeiro da Costa
Censura velada
Tenho sentido uma censura velada muito intensa na imprensa de forma geral no governo Lula. Parece que não se pode questionar nada desta administração que chega-se a ser acusado de herege, de estar até incorrendo numa grave falta de espírito público. Escrevi um artigo com uma crítica psicanalítica ao programa Fome Zero, em que propunha uma reflexão. Tentei diversas revistas no meio psicanalítico e fora, e a resposta que ouvi, na maioria das vezes, foi: "Não queremos mexer com essas coisas...", "Devemos dar um tempo ao governo Lula, não devemos criticá-lo" etc. etc.
Achei muito perigosa esta posição que muitos jornalistas estão adotando, pois entendo que a função da imprensa é pensar, refletir, e não aderir cegamente a qualquer posição. A revista Primeira Leitura tem sido uma feliz exceção, pois publicou um artigo em que dizia justamente isto: a servidão voluntária do jornalismo na era petista. Denuncia que hoje a pergunta se tornou ofensa, confrontar os fatos, uma impertinência, e revelar contradições equivale a uma falta de espírito público.
Estou escrevendo ao Observatório pois acho que isso afeta de forma crucial a função ética do jornalismo – que me parece ser a linha mestra das discussões deste programa.
Lia Fernandes, psicanalista e professora universitária
Direitos mal-entendidos
O princípio constitucional de que todos são iguais perante a lei parece não ser bem entendido por alguns jornalistas, articulistas e leitores que se expressam contra as prerrogativas de servidores públicos e militares. A própria lei vai diferenciando as pessoas de acordo com seus deveres e atribuindo direitos correspondentes. Assim, para os trabalhadores da iniciativa privada há os direitos das leis trabalhistas (CLT), cabendo-lhes apenas o dever de cumprir com uma tarefa. Já os funcionários públicos e militares são regidos por estatutos que lhes atribuem deveres e obrigações distintos dos demais trabalhadores e, conseqüentemente, lhes confere vantagens e deveres diferentes. Embora deva haver uma semelhança que assegure que uns serão solidários aos outros, cabe à sociedade o ônus para ter e manter os seus servidores, pagando-lhes aquilo que merecem, pois deles depende o funcionamento da estrutura do Estado e o funcionamento da administração pública.
Paulo Marcos Lustoza, capitão-de-mar-e-guerra