CASO JESSICA LYNCH
O Globo mostrou a fraude
O argumento apresentado é correto em geral, mas creio que não se aplica neste caso particular. Infelizmente não tive tempo de pesquisar, portanto não posso precisar a data, mas lembro com clareza de ter-me surpreendido ainda em maio com meia página na seção internacional do Globo dando detalhes sobre a fraude do resgate da suposta heroína. Aliás, me frustrei também porque não houve suíte, o que seria esperável dada a gravidade da denúncia. Mas pelo menos O Globo deu essa notícia com destaque, bem antes dos atuais desdobramentos e da condenação internacional desse escândalo que envolve os interesses militares americanos e sua imprensa embedded.
Sylvia Moretzsohn
Filha da imprensa americana
A propósito do oportuno artigo do jornalista Julio Cruz Neto sobre o caso Jessica Lynch, que aborda os desvios da imprensa americana e da brasileira, gostaria de aproveitar para transcrever o que pensa dessas duas mídias, a americana e a nossa, um dos jornalistas mais livres e brilhantes que habitam o planeta Terra. Refiro-me a Fausto Wolff. Em seu artigo "Por que sorri a Mona Lisa?", publicado no Pasquim21, número 71, estampado na página 23, enfocando principalmente a autocensura na mídia, diz ele:
"Existe uma autocensura na grande imprensa (cujos proprietários podem ser contados nos dedos das duas mãos), cuja lei não escrita é a seguinte:
"Com raras exceções que podem prejudicar o andamento financeiro da empresa, todas as notícias podem ser publicadas. O seguimento da notícia só é importante ser for importante para a empresa. As más notícias que não agradam à empresa devem ser dadas em tom otimista".
Mais adiante diz Wolff:
"Quando jovem cheguei a ter três colunas diárias em três grandes jornais cariocas. Ao voltar da Europa verifiquei de cara que dificilmente poderia trabalhar na grande imprensa sem ser censurado, e a censura, desde sempre, é a coisa que mais odeio no mundo. Ser censurado equivale a aceitar que não temos discernimento para julgar entre o falso e o verdadeiro, a arte e a obscenidade".
Diante disso, diz ele, ao comentar que "90% do que vejo na televisão me dá nojo", "que "o dever do jornalista independente é lutar contra essas coisas". Para Wolff , "nossa imprensa é filha da imprensa americana, que sempre foi uma imprensa censurada ou autocensurada e a situação tende a piorar, pois o numero de proprietários de grandes conglomerados jornalísticos é cada vez menor. Só interessam as notícias que servem ao capital: o jornalismo e a arte têm que dar dinheiro, daí o lixo que temos de aturar, pois o artistas foram substituídos por bufões e as crianças já nascem globalizadas aqui ou na Holanda, com pequena diferença de que na Holanda elas comem e eventualmente poderão ser livrar do lixo".
Fausto Wolff diz ainda em seu artigo que: "Quem duvidar da imprensa censurada americana sugiro o livro 20 Years of Censored News (que estou traduzindo), de Carl Jensen (Seven Stories Press, New York)...".
José Rosa Filho
Leia também
Como é difícil se informar lendo jornal – Julio Cruz Neto
CUBA NA MÍDIA
Ditador ou presidente?
Em "A arte de ter razão", Arthur Schopenhauer elenca, dentre os estratagemas, precisamente o de tratar a mesma coisa com qualificadores diferentes, conforme a pessoa a quem se dirige. Fidel, chamado de "ditador", opor-se-ia a Pinochet, chamado de "presidente", e qualquer delinqüente em Cuba pode ser havido como perseguido político nos EUA. E isto digo sem ser simpático ao regime cubano (e sendo, intransigentemente, contrário à pena de morte, seja quem for que a aplique e seja quem for que a sofra), mas justamente dentro da linha já enunciada por sir Thomas Morus, de assegurar até ao demônio o direito de ter as posições que lhe sejam garantidas por lei respeitadas, sob pena de os homens de bem não estarem seguros de as poderem invocar.
Ricardo Camargo
Leia também
Sussuquinha, dissidências e isenção – Gustavo Barreto