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REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS
Para que falar de um grupo?

Serei direto: é desperdiçar energia levantar estatísticas tão direcionadas. Todo brasileiro está vivendo pior. Os valores morais estão já destronados. Ou o brasileiro é tonto ou não presta e não tem vergonha na cara. Todo mundo se corrompe a sua maneira, e se existe uma parcela que não se corrompe é porque está alienada. Viver não está fácil e não há muitas opções e dignidade para quem é e foi educado direito.

Uma propaganda muito interessante (sobre o Ano do Voluntariado) me chamou a atenção. Crianças fazendo boas ações, como devolver dinheiro que acabou de cair no chão ao verdadeiro dono; ajudar a levantar o coleguinha que caíra da bicicleta etc...

Aos mais bem-educados, a propaganda pode ser nostálgica. A mim, foi como voltar aos tempos de infância. Hoje, se agirmos assim, somos tomados por ingênuos, tolos... No final da propaganda, a frase é mais ou menos essa: "Todo ser humano nasceu para fazer o bem; não esqueça disso quando você crescer!"

Então, se hoje são gastos recursos para divulgar, mostrar, conscientizar, ensinar o que em princípio todos deveríamos ser/fazer, é porque, repito, a situação não está lá muito boa.

Por isso, particularizar a violência a um grupo profissional, ou a uma região, ou particularizar o conceito de violência, é gastar energia numa pequena visão da realidade. Como dizem, todo "ponto de vista" é a vista de um ponto.

Quando crianças, somos "inocentes". Daí somos violentados a cada dia e com essas experiências nos transformamos no que somos e chegamos onde estamos. Fazemos concessões demais, temos "amigos" por interesses, fazemos favores "a base de troca", furamos fila, jogamos lixo na rua, não recorremos das multas de trânsito nem ao juizado de pequenas causas...não acreditamos sinceramente em quase ninguém, não vivemos mais "até que a morte nos separe".

Basta saber quem quer pular fora desta engrenagem.

Luciano de Almeida Peruci , 27 anos, São Paulo

 

MÍDIA IRRELEVANTE
O ano começou mal

A cada dia surgem novos debates, temas relevantes e irrelevantes que dominam a mídia e fazem a nossa cabeça, da Avenida Paulista, em São Paulo, à Rua Preta, em Caruaru. Esta semana, por exemplo, a grande discussão gira em torno da foto de Luma de Oliveira, feita pelo fotógrafo Wilton Júnior. Um episódio parecido com o que projetou Leila Ramos, sem calcinhas, ao lado de Itamar Franco. Luma que me desculpe, mas como já dizia o saudoso presidente do Corinthians, Vicente Matheus, quem vai pra chuva é pra se queimar, frase lembrada, aliás, por outra deusa das passarelas cariocas, Luíza Brunet, que roubou a cena no dia seguinte, ocupando as primeiras páginas dos jornais de todo o país.

Quem vai para a frente da bateria de uma escola de samba com vestimentas tão ousadas e calcinha minúscula, da cor da pele, pode processar um fotógrafo que apenas clicou a bela imagem?

Em Osasco, um investigador (policial civil) ganhava seu pão honestamente revistando suspeitos num bar. Veio a Polícia Militar, imaginou que era um assalto e metralhou o coitado. Em Campinas, um mulher é assassinada por seus seqüestradores em frente de casa. Foi o bastante para causar comoção social jamais vista na cidade, nem mesmo quando Carlos Gomes conquistou o Teatro Scalla, de Milão. Ficou bem claro que o episódio resultou de uma briga entre ciganos, algum tipo de vingança pessoal, mas transformaram o seqüestro num espetáculo. A oposição aproveita para tentar ridicularizar e avacalhar a polícia e o governo do estado.

Nem pensemos na Argentina, discussão que só atinge economistas e pessoas entendidas na paridade do dólar com o peso. Péssimo em matemática, só sei que a passagem de ônibus aqui em São Paulo é R$ 1,40 e em Recife, R$ 0,90. Enquanto os argentinos choram por falta de grana e os hoteleiros catarinenses choram por falta de turistas, os recifenses lotam as praias, do Pina a Candeias, e não estão nem aí para todos esses problemas. Na Bahia é diferente. Tem turista demais, impedindo a baixa dos preços. Mesmo assim, repete-se o que ocorre no Recife e nas demais praias nordestinas: todos passam ao largo da crise argentina. Mesmo porque há outras Lumas, muitas outras, pulando o carnaval.

José Serra passa uma rasteira em Tasso Jereissati. Ira Levin vem dos Estados Unidos para dirigir o nosso Teatro Municipal, como se aqui não houvesse maestros. Em compensação, nosso Roberto Minczuk é assistente da Sinfônica de Nova York e Mônica Salmaso é elogiada pelo New York Times. Os 20 anos da morte de Elis Regina, dia 19 de janeiro, são reverenciados a contento, felizmente. Como se não bastassem tantos temas relevantes, gastam-se tinta e papel com Chicão, o filho de Cássia Eller e Maria Eugênia, cuja guarda é disputada pelo avô, Altair Eller, preocupado com o ambiente doméstico todo dominado. Até Chico Buarque assina manifesto em favor da companheira de Cássia Eller. O Chico que me desculpe, mas quando o conheci na década de 60 ele se dedicava a causas mais nobres.

Enfim eu, que depositava alguma fé em 2002, vejo que o ano começa mal, muito mal. Tenho que agüentar as meias-frases de Roseana Sarney, as bateladas diárias dos justiceiros da TV, os aumentos de preços e os achaques da idade. Por estes, infelizmente, não posso condenar ninguém.

Flávio Tiné

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