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Edição de Marinilda Carvalho
Com 15 cartas, a crise de energia domina esta edição. E, como não poderia deixar de ser, o leitor do Observatório não saiu correndo para o mercado comprar lâmpada compacta, não. Ou melhor, pode até ter saído, mas está cabreiro, muito desconfiado.
E não só os leitores leigos. Dois especialistas no assunto, engenheiros, um deles com PhD, nos enviam carta definitiva sobre a incúria das autoridades da área energética. Após parágrafos descrevendo questões técnicas em linguagem simples que até jornalista compreende, eles encerram com a seguinte frase:
"A imprensa tem que cobrir o assunto com informações corretas, e infelizmente eu não vi isto acontecer." Precisa mais?
Um abraço, rápida leitura! :-)
Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens, recebidas por e-mail ou fax, assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
CRISE ENERGÉTICA
A voz dos especialistas
Como cidadão estou relativamente descontente com a cobertura da crise de energia, feita não só pelas grandes TVs mas até por programas de debate como o da Maria Lydia, na Gazeta SP. Ocorre que o maior problema do Brasil não é o da falta de energia, e sim de manejo. O consumo nos países em geral é de 40% a 60% do consumo de pico. No Brasil a geração média de Furnas é 49%, por exemplo.
Quando não há consumo, as usinas têm de respeitar o limite de vazão mínima do rio, e deixam a água passar sem gerar energia. No Rio Paraná, que é internacional, exceto em casos muito específicos, a usina tem de trabalhar entre 95% e 105% da vazão a montante. No caso dos rios nacionais em geral, entre 90 e 110%. Podem sair fora deste limites eventuais rios de meandros, e na prática a Bacia do Tietê, onde uma barragem deságua na outra. Assim gera-se energia com cerca de 88% a 112% da vazão acima da represa, hoje menor que em épocas normais. Ocorre que se o consumo do país for 50% do pico, ou seja 56% do relativo à vazão máxima tolerável, há uma diferença por 24 horas pois falamos em média de 32% da vazão nominal acima da barragem. Países sérios não abrem os vertedouros, bombeiam água entre dois lagos pequenos separados por grandes cotas com a sobra de energia, para mais tarde descer a água, movimentar turbinas e recuperar 85% da energia acumulada. Um lago de 1 km quadrado no alto da Serra do Mar e outro embaixo guardam 2 milhões de kw-hora para cada metro de variação de espelho de água, e por isso estas usinas são mais baratas que qualquer termelétrica e hidrelétrica, face a seu pequeno volume de obras e tecnologia.
São estas as usinas reversíveis, das quais Cornwall, nos EUA, é a maior do mundo. Em termos de média, neste perfil de 50% tem-se uma disponibilidade de energia de 48% a mais. Em termos de pico, face à duração não superar a oito horas, tem-se 1,5 vezes mais energia jogada fora que aquela gerada no período de pico, e inundam-se áreas férteis com hidrelétricas à toa, e se pretende poluir o ar com CO2, aumentando o efeito-estufa, e mananciais com os compostos de nitrogênio gerados pelas altas temperaturas de queima das turbinas a gás à toa. No caso de Santa Branca, onde a Eletropaulo perdeu a parada para a população esclarecida, cairiam 7,5 toneladas por dia na represa, que é um manancial de água potável, para se gerar 900.000 kW, potência esta que está sobrando nas usinas de cana paulista, via vapor gerado, que hoje é descartado.
Na minha visão geral as prioridades são reversíveis, a co-geração, e estão forçando a barra para vender gato por lebre, dificultando até a ação de promotores de meio ambiente, acusados hoje, 15 de maio, de culpados duas vezes pela imprensa, para que interesses estranhos sejam atendidos. Além disso, não produzimos turbinas a gás no país, e uma expansão com base nestas formas de produção de energia resultaria em aumento de déficit comercial de até US$ 2 bilhões por ano, só com as turbinas, fora o gás. Fechando a história, o subsídio de tarifas pode fazer com que 55% da energia da queima de gás sejam entregues para um padeiro usar forno elétrico, quando deveria estar usando forno a gás, já que o rendimento seria maior e ele poluiria menos.
Só que aí muda a empresa que lucra muito. A imprensa tem que cobrir o assunto com informações corretas, e infelizmente eu não vi isto acontecer. Só itens de interesse pontual de grupos de poder, como a co-geração da cana, foram abordados. Tudo bem que esta co-geração seja a segunda melhor solução e única que pode ser colocada em uso de imediato, mas ela é limitada em potência máxima, e não resolve o problema a longo prazo.
Antônio Waack Bambace, engenheiro PhD, e Clausio Junior Melo, engenheiro
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