23/12/2003 8/8

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O FIM DA POLÊMICA
Homossexualidade, mídia e Freud

O caro sociólogo Sérgio Domingues, na sua explanação sobre a sua visão do assunto, comete alguns enganos, como o de considerar a fraude do homem Piltdown como falibilidade da ciência, ao mencionar a arqueologia, a mais especulativa das atividades humanas. O que, obviamente, não pode ser considerado ciência com "C" independentemente deste fato. Assim como tenta colocar na minha boca as suas distorções de leitura.

Comete uma profissão de fé em Marx, jornalista descendente de uma linhagem de rabinos, e que tentou criar uma nova crença (e conseguiu) da visão de um mundo novo, que garante o nosso missivista, nunca foi colocado em prática até hoje, apesar de inúmeros exemplos reais. Refere que o salário não libertou, mas acho que nenhum sistema comunista liberta alguém como sonha o articulista pela visão na "boa nova". Trocar o salário que cada um gasta onde quiser por uma subsistência fornecida pelo Estado naquilo que ele achar que deva não liberta ninguém. Mas não me delongarei nesta crença fora do tema.

O que gostaria de demonstrar, àqueles que se consideram progressistas contra o meu conservadorismo, é a falácia de Freud na sexualidade humana. Isto é importante para a visão jornalística que gosta de cita-lo como base de afirmações consistentes. Sigmund Freud (1856-1939) estabeleceu a teoria da sexualidade infantil que tem se mantido imutável desde então. Mas é intrigante que não tenha sido contestada pelas escolas de psicologia e de psiquiatria transcorrido todo este tempo. As correntes de psicanalistas seriam esperado que não criticassem neste aspecto, por se tratar de dogmas de fé. Freud é considerado um semideus que inibe os críticos pela sua força mágica. É próprio da "admiração" a que o sociólogo se apega. As escolas psicanalíticas não se atrevem a criticá-lo, ou quando o fazem é no sentido de desculpá-lo. É tratado como o "gênio inovador e transmissor de conhecimentos e da verdade". [http://www.autoanalise.psc.br/psicanalise.htm]

Assim como erroneamente se atribui a Sigmund Freud a criação do inconsciente [al.Unbewusste; esp.inconsciente; fr.inconscient, ing. unconscious; O Inconsciente www.geocities.com/marcofk2/roudi.htm], que já existia na literatura amplamente, não se critica esta visão que se dá a ele. A teoria de Freud estabelecia uma divisão do desenvolvimento sexual da criança. Ele cria a culpa na sua teoria ao criminalizar a infância na sexualidade infantil. Estas afirmações tiveram profundas repercussões na sociedade puritana da época pela concepção vigente de infância "inocente". [Teoria da Sexualidade Segundo S. Freud, Sílvia Rocha, www.bapera.com.br/REVISTA/Psicoterapia/teoria_sexualidade.htm]

Estas fases seriam o seguinte, conforme a autora acima e encontrado em qualquer livro de psicologia [idem e Three Essays on the Theory of Sexuality, published in 1905]: fase oral (0 a 2 anos) – a zona de erotização é a boca e o prazer ainda está ligado à ingestão de alimentos e à excitação da mucosa dos lábios e da cavidade bucal. Objetivo sexual consiste na incorporação do objeto; fase anal (entre 2 a 4 anos aproximadamente) – a zona de erotização é o ânus e o modo de relação do objeto é de "ativo" e "passivo", intimamente ligado ao controle dos esfíncteres (anal e uretral). Este controle é uma nova fonte de prazer; fase fálica – a zona de erotização é o órgão sexual. Apresenta um objeto sexual e alguma convergência dos impulsos sexuais sobre esse objeto. Assinala o ponto culminante e o declínio do complexo de Édipo pela ameaça de castração. No caso do menino, a fase fálica se caracteriza por um interesse narcísico que ele tem pelo próprio pênis em contraposição à descoberta da ausência de pênis na menina. É essa diferença que vai marcar a oposição fálico-castrado que substitui, nessa fase, o par atividade-passividade da fase anal. Na menina esta constatação determina o surgimento da "inveja do pênis" e o conseqüente ressentimento para com a mãe "porque esta não lhe deu um pênis, o que será compensado com o desejo de ter um filho"; em seguida vem um período de latência, que se prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma diminuição das atividades sexuais, como um intervalo; fase genital – E, finalmente, na adolescência é atingida a última fase quando o objeto de erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas num objeto externo ao indivíduo – o outro. Neste momento meninos e meninas estão conscientes de suas identidades sexuais distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidades eróticas e interpessoais.

Até hoje não havia sido investigado pelos autores de onde vinha esta idéia de sexualidade que Freud descreve, como se ele tivesse um método infalível ou poderes paranormais para descobrir as leis da natureza. Acreditava-se de que tivesse tirado de pesquisas profundas do subconsciente. Esta concepção vem sendo transmitida inconteste até nossos dias como uma verdade científica em que se baseia todo o ensino da psicologia.

A idéia original de Freud foi tirada de seu amigo na época, Dr. Wilhelm Fliess (1858-1928), que tirou as idéias biológicas de Ernst Haeckel (1834-1919). Fiel a Haeckel, Freud acreditava que a ontogênese repetia a filogênese. Desta forma, procurou estabelecer um paralelo entre o desenvolvimento infantil e o do primitivo selvagem. Dizia Haeckel que a evolução embrionária recapitularia a evolução do desenvolvimento da vida, assim, pela reprodução oral de alguns peixes, após a reprodução pela cloaca das aves e finalmente nos animais superiores a reprodução pela separação do sistema digestivo e dos genitais totalmente. Mesmo quando esta teoria de Haeckel caiu por terra permaneceu a alegação de Freud, pois seus seguidores, agindo como sectários e "admiradores", nunca questionaram a idéia original. (...)

Afinal, ela funcionava perfeitamente na máquina de interpretação que se distanciava do que era dito para ser interpretado livremente pela ótica do intérprete. E, apesar de muito aceita e sedutora, não passa pelo crivo da experiência. Quem nos lembra disto é Richard Webster no seu livro Por que Freud Errou?. Por que, de uma fase oral, Freud passou a uma fase anal? Como lembra Webster, havia várias fases intermediárias, a digital e a podálica. Mas antes do uso da mão existe a fase visual, em que a criança não só enxerga o seio bom, como o rosto da mãe, do pai, os brinquedos e os adultos que o adulam. E pode ver a mãe nua, como achava Freud que havia visto. São experiências marcantes em que a criança expressa enorme prazer e começa a recompensar os pais por estas demonstrações e aprende a dominar a cena pelo uso desta gratificação. São pelos olhos que o mundo seduz. Mas Freud desconsidera a significância destas experiências sensuais marcantes para a criança, muito maiores do que a primitiva sensibilidade oral ou a incoerente sensibilidade anal. E poderia explicar (de forma inconsistente) também o desejo do voyeurismo. Uma "fixação" na fase visual.

Freud, como salienta Webster, sempre foi uma pessoa que generalizava as suas idéias sem base suficiente, o que levou Dr. Josef Breuer (1842-1925), que com ele publicara em 1895 Studien über Hysterie (Estudos sobre a histeria) a separar-se dele. [Breuer foi o colega de Freud que tratara Anna O. (Bertha Pappenheim), sendo atribuída a Freud uma cura que não houve)]. Freud já errara desastrosamente na ética no episódio da cocaína. Sua obra das histerias fora um erro até hoje não-reconhecido e a teoria dos sonhos uma inconsistência aceita na época. Atribui à fase oral um caráter sexual inconsistente, advindo de falsas analogias e da idéia de um pediatra húngaro, Lindner ["The old paediatrician Lindner (1879) once remarked that a child discovers the genital zones (the penis or the clitoris) as a source of pleasure while indulging in sensual sucking (thumbsucking). Cf. Three Essays on the Theory of Sexuality (1905d)"; some psychical consequences of the anatomical distinction between the sexes, Sigmund Freud (1925) (Standard Edition of Freud's Works, 1961) http://info.med.yale.edu/therarad/summers/freud.htm; Jahrbuch für Kinderheilkunde, 1879], atribui ao chuchar (Ludeln ou Lutchen) caráter erótico. Ora, foi Lindner, anos antes, que fez esta conclusão, e Freud encampou! Mas qual a razão para considerar o movimento de sugar sexual? "Parece-me que a concatenação de fenômenos que pudemos discernir através da investigação psicanalítica nos autoriza a ver no chuchar uma manifestação sexual e a estudar justamente nele os traços essenciais da atividade sexual infantil." [3 ensaios sobre a teoria da sexualidade, A sexualidade infantil: http://www.vmciambelli.hpg.ig.com.br/tresensaios.htm]

(...)

Qual a prova que Freud dá do aspecto sexual do sugar? "Quem já viu uma criança saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces coradas e um sorriso beatífico, há de dizer a si mesmo que essa imagem persiste também como norma da expressão da satisfação sexual em épocas posteriores da vida". [idem] Interessante que um raciocínio tão primário tenha sido aceito e não contestado por quase 100 anos! E ainda, as conseqüências desta "fixação: "Persistindo essa significação, tais crianças, uma vez adultas, serão ávidas apreciadoras do beijo, tenderão a beijos perversos ou, se forem homens, terão um poderoso motivo para beber e fumar." Conhecendo-se a casuística quase nula que tinha em 1905, sabe-se que foi pura especulação irresponsável, o que fazia com extremada freqüência na vida.

Como na alegação de que "podemos observar as três características essenciais de uma manifestação sexual infantil. Esta nasce apoiando-se numa das funções somáticas vitais, ainda não conhece nenhum objeto sexual, sendo auto-erótica, e seu alvo sexual acha-se sob o domínio de uma zona erógena." [idem] A não ser que ele considere a criança reduzida a algo semelhante ao pepino do mar, desconsidera totalmente a respiração, a micção, a visão, a audição, a deambulação, o lúdico e a manipulação. O que vemos na base da sexualidade de Freud é sua opinião e interpretação (até mesmo não original) de que a sucção seria uma atividade sexual. A sua idéia de pulsão é intrigante, advinda de erros que aprendera com Charcot, de uma energia que resultaria nas forças pulsionais somáticas. Tirado de visões errôneas de seus casos de histeria que parecem mais casos neurológicos, não-diagnosticados por ele na época.

Freud parte para a caracterização de uma fase anal que ocorre muito mais tardia que a habilidade de visualizar, ouvir e a experiência sensorial de pegar, tocar, tatear, de caminhar e dominar o equilíbrio e o ambiente. Pois só a partir do controle neurológico do caminhar se poderá fazer o controle esfincteriano. Por sinal, um esforço de uma banalidade tremenda. Por que Freud se fixou a ela é intrigante. Quem cria cachorros sabe que estes adquirem este controle com certa facilidade, não defecando ou urinando em casa ou mesmo no pátio, se para isto puderem sair: sua aquisição não depende de grandes mobilizações emocionais. Criar um tremendo sentimento de culpa neste aspecto demonstra mais o que isto representava para ele do que para as crianças. E relacionar o acúmulo de dinheiro a retenção de fezes é deveras intrigante, assim como mostrar fixações sádicas ou masoquistas por este controle esfincteriano, tão fácil de realizar desde que seja dado tempo à criança. Freud deveria achar o dinheiro sujo. Mas por quê? Sentir-se-ia um fraudador do paciente que não curava e de onde retirava o seu sustento? (Afinal, ganhava dinheiro das pessoas especulando graciosamente sobre suas vidas). Mais uma fez vemos que se baseia mais em opinião pessoal do que num trabalho mais sério.

"Os distúrbios intestinais tão freqüentes na infância providenciam para que não faltem a essa zona excitações intensas. Os catarros intestinais na mais tenra idade deixam a criança ‘nervosa’, como se costuma dizer; no adoecimento neurótico posterior, eles têm uma influência determinante na manifestação somática da neurose e colocam à disposição dela toda a soma das perturbações intestinais." Mais uma vez, como lembra Webster, Freud erra ao não reconhecer os sintomas de doenças físicas. Assim como não reconhece que a conotação "nervosa" é dada pelos adultos, em vez de uma resposta natural da criança.

(...)

A analogia seguinte então beira as raias do absurdo: "Do sentido de ‘presente’ esse conteúdo (fezes) passa mais tarde ao de ‘bebê’, que, segundo uma das teorias sexuais infantis, é adquirido pela comida e nasce pelo intestino". É uma idéia escatológica que só poderia estar na mente de um adulto. E que prova ele vê nisto além de sua vontade? Se existe algum juízo de valor pejorativo este não é da criança, mas dos adultos que a cercam com este tipo de epistemologia freudiana.

"Além disso, o sentido pleno da zona anal espelha-se no fato de se encontrarem muito poucos neuróticos que não tenham seus rituais escatológicos especiais, suas cerimônias e coisas similares, por eles cuidadosamente mantidos em segredo." Vemos aqui a fixação pela generalização e a contumaz falta de base para fazer afirmações apresentada por Freud. O que nos confirma o Dr. Luiz-Olyntho Telles da Silva: "Só mostra o valor que ele dava à estatística: nenhum!" Seria isto uma doença ou na verdade a aquisição de "manias" de uma pessoa que já era doente ao passar por estas fases? Fliess processou Freud por plágio em 1902. E Freud queimou as cartas de Fliess e insistiu para que as que enviara a ele fossem igualmente queimadas. Somos gratos hoje em dia de que isto não tenha sido feito. O que o embaraçava? O mestre da psicanálise esconde-nos os segredos que o envergonham.

Uma das provas da origem da teoria de Haeckel na sua criação destas fases é a expressão usada para caracterizar "o predomínio do sadismo e o papel de cloaca desempenhado pela zona anal conferem-lhe um cunho singularmente arcaico". Atribuía ele a estrutura do inconsciente como se estruturada biologicamente, a exemplo da filogenética. E a parada numa das fases seria uma parada em sua evolução. A questão não é saber se existe uma fixação em alguma fase, mas por que isto ocorre. E como resolver evitando e tratando. Até esta época isto não se mostrou útil. Exemplo das características de fases pela criação de Freud: fase oral – engolir sapos, devorar com os olhos, sorver as palavras; fase anal – acumulação de dinheiro (retenção), avareza (prisão de ventre), insultos (sujam assim como as fezes).

Freud faz sua auto-análise antes de desenvolver a sua teoria. Mas nunca a fez com seus discípulos e nem os futuros psicanalistas fizeram sozinho estas análises. Sempre fizeram com outros. O que nos leva a suspeitar que a maioria dos erros foi proveniente das suas visões pessoais deste método usado. Se fosse possível e suficiente, não seria necessário ir ao analista. Ainda mais que o fez sem saber o que procurar. Se o inconsciente era impermeável ao consciente, vemos que ele mais uma vez se equivoca no tema. E a análise de Freud nunca o livrou da fixação fálica de usar o charuto na boca até a morte por câncer e nem a sua dependência pela aprovação materna, a dependência que criara na filha Anna para cultuá-lo, incentivado pelas duas análises que ele mesmo fez nela. Assim como persistiram seus traços ansiosos e neuróticos em relação aos horários de viagens de trem.

Quando avaliamos um conhecimento temos que ver se ele tem verdades ou se apenas nos agradou a sua mensagem. Tanto que a psicanálise não explica nenhuma doença psiquiátrica nem é reconhecida pela medicina. Se fosse uma ciência não adiantava o nosso sociólogo "achar" a "explicação dele sobre a homossexualidade, por exemplo, um erro, pois a considera um desvio." A ciência não é descoberta para agradar. E assim como o sociólogo descarta a visão que considera não "conveniente", pode o jornalista especular sobre a falta de conhecimento atual sobre a sexualidade também, pois não é pecado ou tabu, como quer o nosso amigo.

Paulo Bento Bandarra, médico

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Para encerrar o assunto – Caderno do Leitor

Nota do OI: O Observatório agradece o empenho dos debatedores. Informamos que após esta carta fica encerrada a polêmica, que fugiu há muito do foco do OI – a crítica da mídia.

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