Edição de Marinilda Carvalho
O artigo "Lula faz gols, mídia engole frangos", de Alberto Dines, sobre a crise na imprensa brasileira e as demissões em massa nas redações, tocou o leitor do Observatório.
Alguns leitores, eles mesmo jornalistas, sentem na própria carne os desacertos de gestão que vêm provocando a enxurrada de demissões.
Outros, empregados de empresas públicas ou não, as primeiras vítimas da globalização, por pouco não exclamam "bem feito!": acham que os jornalistas estão provando o veneno que tanto receitaram nas últimas décadas, quando apoiaram acriticamente as práticas neoliberalistas de downsizing e reengenharia de pessoal.
Como disse Dines no artigo, "agora é preciso convocar homens de imprensa capazes de pensar empresarialmente – já que os homens de empresa dificilmente conseguem converter-se em jornalistas".
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DEMISSÕES NA MÍDIA
Nos jornais, jornalistas
O artigo de Dines foi na ferida! A realidade mostrada vem corroendo há tempos as redações e as salas dos diretores de nossos veículos, principalmente aqueles que fazem a chamada "grande imprensa". Os casos que começaram a surgir anos atrás neste momento já não podem ser mais menosprezados. Aqui mesmo, em Natal, essa realidade é mais do que palpável. Tenho acompanhado pessoalmente essa questão crucial nas mesas de negociação entre profissionais da imprensa e empresários, em decorrência de meu trabalho voluntário no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte (Sindjorn). A colocação sobre o afastamento de talentos no jornalismo – burilados à custa de profissionalismo, ética e muita dedicação ao trabalho – dói fundo no íntimo de todos aqueles que lutaram e lutam por um jornalismo sério, imparcial e cidadão, como aprendi vendo o seu exemplo no Jornal do Brasil e nos saudosos Cadernos de Jornalismo, na década de 70!
Acredito e apoio a opinião de que a saída é "convocar homens de imprensa capazes de pensar empresarialmente – já que os homens de empresa dificilmente conseguem converter-se em jornalistas." Eis aí um grande desafio para a categoria, hoje desmobilizada e atônica com todos esses acontecimentos e outros que chegam no dia-a-dia. Creio que os verdadeiros jornalistas profissionais estão hoje refletindo seriamente sobre se vale ainda a pena acomodar-se em seus egocentrismos ou partir de fato para uma longa e histórica batalha na retomada do comando de empresas jornalísticas e de suas redações. Ou será o caos...
Nicolau Frederico de Souza
Diploma de Navarra
Genial o nosso editor [Alberto Dines, em "Lula faz gols, mídia engole frangos"]. Não fossem os abundantes cabelos brancos que ainda lhe disfarçam a calva inevitável, diria que nesse texto ele parece um jovem Robinho em tarde de diabruras contra o Corinthians no Morumbi.
Aluno reprovado naquele curso que o pessoal de Navarra andou espalhando pelas nossas redações lá se vão bons dez anos (fui despedido da Editora Abril antes de receber o diploma), sei bem o que estou aplaudindo. Bravo, mestre.
Almyr Gajardoni
Chatíssima viuvez
É com alívio e satisfação que leio esta matéria sobre a atitude da imprensa brasileira face ao governo Lula. Satisfação porque algo não se perdeu na bravura e no discernimento de alguns jornalistas. Alívio porque, toda manhã, tenho a impressão de que eu estou louco, tamanho o clima de desordem e de tragédia que os jornais passam sobre o nosso país. E, sinceramente, não é isto o que qualquer mortal mais atento pode deduzir quando vê e analisa o que se passa ao nosso redor. Talvez as razões sejam ligadas à crise financeira por que passa o setor de comunicação, mas creio também que os nossos jornais reproduzem um certo pânico ideológico que resulta em obstinada tentativa de desconstrução do patrimônio político adquirido pelo atual governo nas eleições passadas.
Foi visível o desconforto com que a imprensa noticiou a última pesquisa dando um aumento significativo na popularidade do presidente. Tudo se passa como se houvesse uma enorme frustração por não terem se concretizados os sinistros vaticínios insistentemente martelados em 2002 para uma eventual vitória de Lula. O país não entrou no caos, a economia não desmoronou e o governo, ao contrário, demonstra uma notável competência em desmontar as bombas de retardo deixadas pelo governo passado. Mas a nossa brava imprensa não se comove e se descobre como porta-voz de um surpreendente neobolchevismo moreno, transformando recentemente o deputado Babá na figura mais importante da República e a senadora Heloísa Helena numa versão alagoana da Pasionária espanhola. Na falta de escândalos verdadeiros, a cachorrinha Michele foi usada para insinuações calhordas à figura do presidente.
Uma chatíssima viuvez da era FHC é diariamente materializada em esforço renitente de absolvição da herança tucana e de uma busca obsessiva de semelhanças do atual governo com o governo passado. E o Fome Zero é estraçalhado impiedosamente, como se ele fosse um Criança Esperança de segunda mão, facílimo de implementar e mais fácil ainda de produzir resultados a curtíssimo prazo. Neste particular, foi excelente o Observatório da Imprensa na TV da semana passada [10/6/03], que entrevistou Frei Betto.
Receio, sinceramente, que a nossa imprensa caia na tentação de repetir aqui a atitude que assumiu na Venezuela. Receio também que, se isso for verdade, o nosso país vire uma Venezuela ou Argentina, nos seus piores dias. E aí, eu não sei quem ganhará com isso.
Benedito F. de Oliveira
Tudo, menos jornalismo
Parabéns a Dines pela excelente avaliação sobre a situação atual da mídia brasileira. Fazia tempo que não via uma análise tão lúcida sobre a crise geral que assola a imprensa. Sou jornalista, e já trabalhei nas principais redações de Brasília. Afastei-me por motivos de saúde. Atualmente, fico muito triste e revoltada lendo os jornais diariamente. O noticiário se tornou "estatizado" e medíocre, ou simplesmente reflete o olhar dos donos – endividados e quebrados, com débitos imensos em praticamente todos os segmentos. Ficamos com a impressão de que o repórter se tornou um bicho em extinção. Já notaram que os artigos de Brasília simplesmente reproduzem falas de autoridades?
A desculpa atual mais usada pelos colegas daqui é que o governo Lula dificulta as relações com a imprensa. Já trabalhei sob as mais diversas condições em diferentes governos, com obstáculos bem maiores. Dines sabe disso melhor do que eu, pois enfrentou os anos mais duros da ditadura militar. O argumento não justifica a mimese que os jornalistas estão fazendo. Está se fazendo tudo, menos jornalismo. Isso me assusta muito.
Sonia Nogueira Mossri
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