LEITURAS DE VEJA
Notícias direto da fábrica
Parece que a Veja não percebeu a ironia da sua propaganda. Quantas vezes não li noticias na revista que realmente vieram direto da fábrica? Sim, e muito bem fabricadas, recheadas com sofismas indutivos. A posição da Veja na época da guerra do Iraque foi ridícula. A revista apoiou amplamente a cruzada de George Bush, passando a seus leitores a informação de que realmente havia inúmeras armas químicas no Iraque. Cadê? Sumiu? Evaporou? A Veja definitivamente não tem credibilidade.
Diego Sierra, 17 anos, São Paulo
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Anacrônicos fanáticos
Com o devido respeito apresento minha discordância quanto ao teor das críticas do jornalista Deonísio da Silva ao artigo da revista Veja que cuida do enorme acampamento dos sem-terra denominado por José Rainha de "nova Canudos". A reportagem, ao contrário do que o senhor parece acreditar, está muito bem escrita e fundamentada em fatos incontestáveis. Basta ir ao acampamento e verificar.
Aliás, José Rainha, o senhor certamente sabe, é uma pessoa controvertida e questionada dentro do próprio MST. Quanto ao tal acampamento, não há dúvida, a sua construção está inserida numa visão delirante de setores da esquerda brasileira que persistem em acreditar que algum dia, não se sabe como, ocorrerá algum tipo de revolta generalizada na população que desembocará num processo revolucionário cujo desfecho será a implantação no país de um socialismo radical sobre cujos contornos a própria esquerda não consegue entrar em acordo, eis que os adeptos da revolução estão distribuídos desde o pensamento clerical de esquerda (Betto, Boff etc.) até socialistas e comunistas dos mais variados matizes, julgando-se todos, evidentemente, portadores únicos da verdade perfeita e acabada, do que resulta serem os demais esquerdistas discordantes traidores a serem cuidados no devido tempo. Trata-se de um saco de gatos em que todos lutam contra todos ao mesmo tempo.
Nem vale a pena falar do destino dos que desgraçadamente forem de direita: certamente, apontados como inimigos do povo, somente lhes restará sumir do país rapidinho ou sofrer as conseqüências da fulminante e implacável "justiça revolucionária".
Saliento a ironia histórica de uma situação que a revista Veja apontou e a qual o senhor não dedicou sequer uma linha no seu artigo: Canudos, que José Rainha, o novo Antonio Conselheiro, quer ressuscitar, foi "(...) um movimento, que à luz da melhor sociologia, mesmo marxista, foi apenas utópico, monarquista e, há mais de um século, já era anacrônico com a sua pregação de volta à vida pastoril". (Veja, pág. 74).
Parece piada, mas ao que tudo indica existe quem acredite que uma revolta de anacrônicos fanáticos monarquistas virou o modelo ideal a ser copiado pela esquerda brasileira para produzir a ansiada "...explosão social revolucionária ...".
José Luiz Borges
MST e ditadura
Ao ler o artigo de Deonísio da Silva sinto, talvez equivocadamente, que antes de criticar a linha editorial da Veja o articulista é um simpatizante da causa do MST. Respeito a sua opinião, acrescida dos costumeiros "professor, escritor, antropólogo, sociólogo e outros"; entretanto, como vil cidadã, sem nenhum "ólogo", preocupo-me com a aceitação das posições do Sr. Rainha, que advoga o princípio do "ou vai ou racha" e é aplaudido pela intelectualidade tupiniquim. Ora, a dita intelectualidade é ao menos desconhecedora do princípio da similaridade, pois ao referendar a violência no campo contraditoriamente repudia a ditadura militar. Não, a ditadura se propôs a criar um Brasil potência ao custo das liberdades "democráticas" e empregou a violência contra seus opositores, e o MST prega o quê?
Quanto à Veja, solidifica a posição de veículo de defesa dos interesses corporativos do poder econômico, que anos atrás, sob um manto de defesa da democracia "socialista", atacava a ditadura, não pelos seus males, mas pelas suas poucas virtudes, uma vez que em determinado momento o governo militar tornara-se um óbice aos interesses dos grupos econômicos que apóiam os editores da Veja e previam na globalização a grande via de expansão econômica, sempre ao custo de uma maior e inexorável concentração de riqueza. A linha editorial da Veja usa e abusa do artifício da lógica, inferência da estatística insuficiente do tipo, "fulano é amarelo, seu filho é amarelo, logo seus amigos são amarelos", mas que é extremamente eficaz num país em que se idolatra o escândalo e o desvio, talvez como justificação da ausência de valores éticos coletivos.
Manuela Montenegro
A história dirá
Li a matéria de Deonísio e gostei demais! Concordo com tudo que foi dito... e já havia reparado na posição conservadora e fora de contexto da revista Veja. É um veículo de informação, como a Rede Globo de Televisão, que infelizmente não conta mais com minha credibilidade, e muito menos com a minha atenção. Deonísio está totalmente certo: a história dirá.
Eurídice Passos
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Equívocos na capa e no miolo – Deonísio da Silva
Deonísio da Silva responde
Agradeço aos leitores a atenção dada ao comentário. Escritor que sou, não quis ficar indiferente aos temas e problemas que estão no contexto das lutas do MST e escrevi o romance Os Guerreiros do Campo (Siciliano/Mandarim). Se meu artigo e meu romance são bons, não sei. Os leitores, porém, podem ter uma certeza: sou sincero e escrevo o que me dá na telha, da melhor maneira que sei. E por isso citei outros romancistas que trataram do tema, como é o caso de Alcyr Cheuíche.
Ao criticar a revista, não o fiz para apoiar o MST, com o qual não tenho ligação alguma, a não ser a de perplexidade. Como é que num país do tamanho do Brasil nós podemos perseguir um movimento que pede terra de onde quer tirar alimentos?
Respeito muito quem tem coerência com suas idéias e, sendo necessário, paga por elas na prisão, como foi o caso de José Rainha e sua esposa. Lembremo-nos de que outros pagaram mais caro, pois morreram em combate. Que nossas letras-balas não sirvam para alvejar os sobreviventes. É preciso entendê-los. Para isso escrevemos.
Veja fez o contrário. Escreveu para escarmentá-los. Não acho que a revista Veja exija texto tão desjeitoso. Há fazendeiros que apóiam o MST, como havia proprietários de escravos que queriam a Abolição e monarquistas que lutaram pela República, a começar pelo marechal que a proclamou. O Brasil é mais complexo do que supõem certos editores, redatores e leitores. Humilde "frade" do Observatório da Imprensa, quero que o leitor não leia a imprensa sempre do mesmo jeito, que arme seu olhar para um melhor entendimento, podendo, naturalmente, discordar da crítica e endossar o texto criticado. Ainda assim, teremos todos cumprido a saudável prática democrática da controvérsia, atentos à recomendação de Alberto Dines, de não perdermos o norte, que é repor a mídia para exame, todas as semanas.
Frei Betto e Frei Leonardo não são do MST, do PT ou de qualquer outra agremiação. Os dois pertencem a Ordem Religiosas que têm mais de oito séculos. E nenhum programa de partido político chegou à beleza dos testemunhos dos Atos dos Apóstolos, a saudável utopia dos primeiros cristãos, que queriam viver em comunidades, ter tudo em comum. Ou do perdão periódico das dívidas entre os judeus.
Não defendo a violência no campo. Lamento que no Brasil a questão social seja sempre tratada como questão policial e por isso sempre lamentarei a violência. Batalho por um Estado de Direito em que os conflitos sejam resolvidos à luz das leis. Se necessário, mudemos as leis. Mas sair por aí dando tiro em quem quer terra para trabalhar é tão reprovável quanto abandonar à míngua aqueles que têm um pedaço de chão de onde tiram o sustento de suas famílias ou dão emprego para que outros o façam. Catarinense de nascimento, peço licença para dizer que o latifúndio não é o único modelo possível. Em meu estado natal há famílias que vivem, por exemplo, das abelhas que fazem mel, de uma pequena quinta onde produzem vinhos que não são bebidos em palácios, mas são igualmente saborosos.
E, por fim, nosso dever como intelectuais é pôr ordem nas idéias, formular adequadamente as questões, pensar sobre elas ao escrever. Sou adepto do que disse André Langaney, do Museu do Homem, em Paris: "O homem não descende do macaco, como geralmente se diz. Ele é um macaco (...). Entre o DNA humano e o DNA do coelho, o nível de reconhecimento é de 80%. No caso do chimpanzé, é 99,9%". Ainda assim, coelhos e chimpanzés não escrevem, não comentam, não enviam cartas. Essa pequena diferença, sediada no cérebro, muda tudo, para o bem ou para o mal. Portanto, continuemos humanos, concordando ou discordando uns dos outros. (D. da S.)