
Edição de Marinilda Carvalho
Sentimos muita falta aqui no Observatório de comentários sobre a imprensa regional. Nesta edição recebemos dois.
Um deles é estarrecedor. A leitora Ana Lia Rodrigues, indignada, mal comenta, apenas reproduz trecho de matéria publicada no Dia do Índio no Correio de Uberlândia, Minas. Não acreditei quando li. Diz o infeliz "repórter":
"Nossos índios jamais tiveram uma civilização. Não há um só monumento, uma só demonstração de inteligência".
De fato, comentar o quê?
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IMPRENSA REGIONAL
Grassa a inguinorança
No dia 19 de abril, chamado Dia do Índio, tive o desprazer de me deparar com um dos artigos mais absurdos que pude ler nos últimos anos sobre a cultura indígena. Trata-se de uma matéria publicada no jornal Correio, da cidade de Uberlândia (MG), onde estive de passagem. O jornalista Luiz Fernando Quirino escreve tamanhas barbaridades sobre a cultura indígena que melhor que comentá-las é reproduzir o trecho do artigo para que o leitor avalie por si mesmo:
"As entidades que começaram a surgir com o objetivo de defender os bugres nada faziam para que eles – a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos – buscassem o caminho da civilização, dando-lhes uma cultura, escolas, aprendizado de profissões e um contato com a modernidade. Nossos índios jamais tiveram uma civilização. Não há um só monumento, uma só demonstração de inteligência. Sempre viveram em ocas feitas de folhas, incapazes de uma obra de arte, produzindo quando muito rudimentares instrumentos de guerra e alguma coisa de barro que poderiam lhes servir para pouquíssimos usos."
Ana Lia Rodrigues
Mais sangue, meu povo!
A onda popular (ou popularesca?) de fazer jornal não se restringe ao Sudeste. O Sul também tem seu representante. E forte. É o Diário Gaúcho, que comemorou na edição do dia 17 deste mês seu primeiro aniversário. Um ano de sucesso. E é esta a palavra mesmo: sucesso. Sorrisinho amarelo o meu...
Diário Gaúcho é jornal do tipo "se espremer, sai sangue". É incrível, mesmo folheando-o todo não se acha um parágrafo decente. Não há denúncias, e sim uma produção delas.
A reunião de pauta do Diário Gaúcho deve ser, no mínimo, engraçada. Imaginem as frases que devem surgir! "A primeira página tem que melhorar! A última estava tão... tão... simplezinha... O público quer mais ação! Liguem pra polícia e encontrem assassinato! Sangue, meu povo!"; "Ai, ai... materinha sem graça, né? Está tão... óbvia. Muito corretinha..."; "Vocês não conhecem nenhuma modelo dessas novas aí? Tem que ser bonitona! Diz que é página inteira!"; ou então "Não são boas as notícias deste mundinho da Economia. Muito complicado pro povo entender. Ele não precisa disso."
A defesa do Diário Gaúcho é previsível: "Faz sucesso. Está vendendo bem. O povo é que quer notícias assim!" Responder a isso é mais fácil ainda. Afinal, basta pensar em banheiras na TV, filmes de conteúdo violento ou pornográfico em plena tarde ou testes e mais testes de DNA. É cegueira (ou burrice) demais acreditar que a mídia impõe sua programação ao público. Existe uma parcela de culpa de quem consome jornais, revistas, TV.
Raciocinar inteiramente pelos critérios capitalistas é horrível. O compromisso com o desenvolvimento da sociedade deve prevalecer. E desenvolvimento não se mede só com dinheiro. Quem pensa assim não é jornalista, é mercenário. Concordo que cachorro que morde homem não é notícia. Homem que morde cachorro é que é. Mas não precisa arrancar pedaço...
José Renato Ribeiro, General Câmara, RS
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