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RICARDO BOECHAT
Espanto de sinceridade
O artigo de 17/7 de Ricardo Boechat no JB é um espanto de sinceridade. Se antes o considerava um dos melhores colunistas do Brasil, hoje já não tenho dúvida: é o maior, com certeza, em dignidade. Reconhecer o próprio "pecado" publicamente é, sem dúvida, humildade, além de prova de dignidade.
Confesso não ter lido a "denúncia" em Veja, pois cansei de "ver"; ver tanta incoerência, hipocrisia, sectarismo, mercantilismo, denuncismo, boçalismo travestidos de notícia, de furo. Sei de muitos que ainda "vêem", mas só olham, pois não já crêem no que lêem. Olham ao estilo ante-sala de dentista: olhando figuras, o que, aliás, abunda em Veja. Sou jornalista, e sua descrição sobre a dureza da vida de repórter é perfeita.
Mas sua confissão sobre a vaidade me tocou mais, pois todo jornalista é vaidoso, não apenas os de grandes veículos de circulação nacional. Que atire a primeira pedra quem discordar! Ser detentor de informações para o sagrado ofício de noticiar é uma vaidade que nos arde todo dia. Controlar o limite dessa vaidade é tarefa diária não menos importante que a de garantir a qualidade da notícia. Reconhecer quando essa linha é violada é mais que um dever profissional: é meio de sobrevivência, pois a credibilidade é o oxigênio que nos mantém vivos.
A maioria de nós, porém, continua na atitude de falsa modéstia tentando esconder a própria vaidade. E Boechat tinha motivo para se sentir envaidecido: afinal, ser "disputado" por Globo e JB não é para qualquer um. E que mal há nisso? Nenhum. O erro foi não admitir isso e posar de santo para si mesmo. O erro de Boechat não foi a vaidade, mas a falsa modéstia que cega a consciência e a abre para riscos graves como o que ele admite ter cometido. Ao admitir o "pecado" se redime. Que atire a primeira pedra!
Nelson Ricardo, Araçatuba, SP
Misturadores para todos
Talvez Boechat tenha cometido um erro. Mas quando esse erro favorecia ao jornal O Globo era bem aceito e prestigiado. É óbvio que os grampos têm que acabar. Afinal, como é fácil colocar grampos em escuta telefônica, não? Será uma coisa tão facilmente acessível? Chegará um tempo em que todos nós teremos que adquirir misturadores de voz para podermos ter uma conversa verdadeiramente reservada ao usarmos o telefone. Lembro-me de George Orwell em "1984".
Maita
Macaco de auditório
Desde a época em que passei pelas extintas sucursais do Globo em São Paulo e Recife, passei a respeitar, admirar e até invejar o trabalho e a postura de Boechat. Portanto, sou suspeito para julgá-lo. Mas a franqueza com que ele admite seus erros e vaidades no episódio do grampo me fez acreditar que eu sempre estive certo em me considerar seu macaco de auditório. Além do mais, ser demitido por causa de uma sacanagem desta coisa repugnante que é a Veja é motivo para respeitá-lo ainda mais.
Inácio França, secretário de Imprensa de Olinda, PE
Secos e molhados
"Não vejo razão para delegar a terceiros, muito menos a teóricos da deontologia e a autoproclamados impolutos guardiões da ética..." "Pois informo a esses teóricos de mãos limpas: é dura a vida de um repórter." (Boechat)
Se bem entendo, o retrato tem a cara de um observador que se julga sócio majoritário dos códigos éticos jornalísticos secos e molhados.
José Adalberto, jornalista
Vale tudo
Meu nome é Anderson Vieira, sou estudante de Jornalismo em Santa Catarina. Jornalismo investigativo é trazer à tona o que está oculto. O jornalista é um agente de mudança social. É dever do jornalista informar ao cidadão o que está acontecendo. Mesmo que para isso sejam usados meios ilícitos. Se existe censura é porque a Justiça compactua com a corrupção.
Anderson Rodrigo Vieira
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CRISE NA POLÍCIA
Como senhores de escravos
O âncora do telejornalismo Boris Casoy questiona se após a greve dos policiais baianos não haverá punições, de modo a manter a autoridade dos governantes. Curioso como ainda somos senhores de escravos: errou, castigou. Isso quando quem errou é mais fraco. Quando a ilegalidade e o erro vêm dos mais fortes há uma interpretação muito cuidadosa, para não irritar o poderoso.
Os policiais, como a maioria dos assalariados, estão há cerca de sete anos sem atualização salarial. O governo alega que não pode dar aumento porque tem que cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Atualmente, o gasto com o funcionalismo estadual é 44%, enquanto o limite máximo legal é 60%. Mas para propaganda a verba pode estourar sem maiores explicações. O governo baiano atrai a Ford para Camaçari, dispensando impostos por cerca de 20 anos. Constrói toda a infra-estrutura da fábrica, do porto e das estradas de escoamento dos produtos fabricados, mas a prefeitura de Salvador, do mesmo partido do governador (PFL), cobra 15 reais para o vendedor de picolé, refrigerante ou cerveja poder transitar com seu isopor durante o Carnaval!
O governo federal é condenado pela Justiça a reajustar os salários do funcionalismo público, conforme a lei. Não atende, e leva com a barriga sem que alguém lembre de cobrar o cumprimento da lei. O Supremo revoga os direitos dos consumidores de energia elétrica... É revoltante a preocupação dos administradores em manter reajustadas as tarifas das empresas privatizadas (energia, telefone), atrelando até ao câmbio. Enquanto havia estatais, os valores das tarifas eram bem menores, sem problemas. O salário mínimo depende de uma hercúlea tratativa para poder atualizá-lo anualmente e as tabelas do IR perversamente esquecida. É dose pra leão banguela!
As inúmeras violências institucionais são aceitas, durante anos, pela mídia comprometida com esse estado de coisas que se revela nos piores índices de distribuição de renda, educação e bem-estar social, apurados por organismos nacionais e internacionais. Entretanto, quando é para cobrar a punição dos que, não agüentando mais sete anos de achatamento salarial, partem para o desespero de uma greve que ninguém sabe aonde vai desembocar, a cobrança é feita com toda a veemência.
O que é que nos faz agir assim?
José Renato M. de Almeida, Salvador

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