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O ESTADÃO E OS APOSENTADOS
Primor de manipulação ideológica

"Servidores inativos custam mais do que toda a área social. Aposentados do setor público recebem R$ 48,6 bilhões, e saúde, educação e segurança, R$ 40 bilhões.

Rio de Janeiro – Os 170 milhões de brasileiros que pagam impostos transferiram, no ano passado, R$ 48,6 bilhões para sustentar aposentadorias de um grupo de apenas 3 milhões de funcionários públicos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da União, 27 estados e 5.500 municípios."

Já começa errada a abordagem da matéria. Se 170 milhões de brasileiros realmente pagassem impostos o país seria um paraíso.

"Para entender a dimensão deste números – que, em boa parte, explicam a perversa e injusta concentração de renda no país –, compare-se com os gastos efetuados em educação, saúde e segurança que em 2000 somaram R$ 40 bilhões por ano."

Esses números nem de longe explicam a perversa e injusta concentração de renda do país. A única coisa que indicam, outrossim, é que se gasta muito pouco com educação, saúde e segurança.

"Cálculo inédito feito pelo especialista em Previdência Renato Follador conclui que no ano passado cada um desses 3 milhões de aposentados, na média, custou para a Nação R$ 14.590,95 por ano (resultado da diferença entre o valor arrecadado de contribuições previdenciárias e o valor pago em aposentadorias), enquanto cada um dos 19,5 milhões de aposentados do setor privado, ligados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), custou R$ 656,41 por ano."

Interessante como o jornal quando tenta manipular o viés ideológico de uma matéria e criar um factóide sempre aparece com a palavra nação usada erradamente no lugar de país.

Vamos aos fatos: 3 milhões de funcionários aposentados que divididos por 5.500 municípios dariam uma média de 545 pessoas por município; R$ 14.590,95 por ano significariam R$ 1.215,91 por mês, o que convenhamos é uma piada de mau gosto em se tratando de uma pessoa que contribuiu 30 ou 35 anos. Na velhice, quando os remédios custam um absurdo, quando os planos de saúde privados custam uma fortuna, uma pessoa dispor de R$ 1.215 por mês é uma piada

"O contraste é mais absurdo e injusto quando comparado com os R$ 180 por ano que as famílias muito pobres recebem do programa Bolsa-Escola. Enquanto os 3 milhões de aposentados do setor público se apropriaram de R$ 48,6 bilhões, os pais de 8,2 milhões de crianças pobres receberam apenas R$ 1,5 bilhão em 2001."

Os aposentados do setor público não se apropriam de nada. Aqui novamente a manipulação ideológica da notícia leva a crer que quem contribuiu durante 30 anos para a Previdência está a se apropriar de alguma coisa ilicitamente. Concordo em que a verba para os pais das crianças pobres é escassa e risível. Mas isso talvez seja reflexo da quantidade de juros que são pagos aos banqueiros nacionais e internacionais. Não vai ser despindo o roto que vocês vão conseguir vestir o pelado.

"Esses números – que são crescentes ano a ano e, além de denunciarem injustiça social, ameaçam deixar os próximos governantes sem dinheiro para governar – constam do estudo A questão previdenciária – Uma proposta para o Brasil, de autoria de Follador, ex-secretário de Previdência do Paraná. Ele usou dados do Ministério da Previdência do ano passado para calcular, pela primeira vez nesse ramo de estatística, quanto custa para o país cada aposentado do setor público."

Seria certo e mais verídico que esse pesquisador, se está de fato em busca das verdades sobre a injustiça social, coisa que não fica claro na matéria do jornal, que procurasse saber apenas quanto desse total de 3 milhões de aposentados recebe aposentadorias milionárias. E talvez aí se deparasse com dados chocantes sobre as aposentadorias de militares graduados, políticos, assessores parlamentares e judiciários e juízes.

Veria que provavelmente essa classe da elite, que representa menos de 5% do total dos aposentados públicos, é que se beneficia da maior parte desses R$ 48 bilhões, e que 95% receberiam o resto, que daria certamente uma média bem inferior aos R$ 1.215 mensais, diga-se de passagem, insuficientes para um cidadão ter o padrão de vida decente neste país. Ou o autor da pesquisa, intencionalmente, ou o jornalista, por má fé ou ignorância, tenta generalizar a classe dos nababos funcionários públicos quantificando o gasto com a aposentadoria dos contribuintes em vez de qualificá-lo.

"Diretor no Brasil da Organização Ibero-Americana de Seguridade Social (OISS), com sede em Madri, Follador foi responsável pela criação do fundo de pensão da Hidrelétrica de Itaipu e da Paraná Previdência, fundo de pensão constituído em 1998. Os governadores de São Paulo, Pernambuco e Amapá estudam o modelo do Paraná."

Como ‘se pode ver, um funcionário dos grandes interesses securitários do capitalismo globalizante transnacional.

"‘É como se houvesse no Brasil cidadãos de primeira classe e outros de classe inferior’, afirma Follador. No setor público os homens se aposentam, em média, com 53 anos e as mulheres com 48; levam o último salário recebido na vida ativa e o benefício tem o mesmo reajuste salarial de quem está trabalhando. No setor privado, o benefício é limitado ao teto de R$ 1.561,56, o tempo de aposentadoria é postergado pelo fator previdenciário e o homem deixa de trabalhar aos 60 anos e a mulher aos 55. Os aposentados do Judiciário, por exemplo, ganham em média R$ 6 mil por mês, aí incluídos desembargadores, mas também contínuos e motoristas."

"‘O serviço público brasileiro é o único no mundo que, após interpretações preliminares do Supremo Tribunal Federal (STF), está pagando mais ao aposentado do que ao servidor ativo’, denuncia o estudo. De fato, a frustrada reforma da Previdência aprovada pelo Congresso nos últimos três anos quase nada mudou o sistema de aposentadoria do setor público. Afinal, deputados que legislam e juízes que interpretam leis são também funcionários públicos e um dia irão requerer aposentadoria. Mas o estudo chama atenção para a impossibilidade de futuros governantes investirem em outras áreas sociais e se transformarem em meros pagadores de salários, se não iniciarem uma mudança radical na previdência pública. ‘Na situação limite, o Estado deixará de ser um meio e passará a ser um fim em si mesmo, arrecadando tributos apenas para custear a si próprio’, adverte Follador."

Como não deixa dúvidas, o capitalismo transnacional. além de nos sugar 100 bi por ano de juros da dívida, de fazer nosso mercado interno de fantoche às suas oscilações de humor, de índices de risco e outras balelas econômico-ideológicas de dominação, agora usa de pseudopesquisas para chegar à conclusão de que o Brasil está falido por causa de seus funcionários públicos aposentados. Isso é uma piada.

Como se vê, Estado, para esses neoliberais, abaixo da linha do Equador tem que ser essa grande mãe doadora de recursos a uma elite financista transnacional, ainda que normalmente com suas decisões centradas nos Estados Unidos.

"Usando os números do Ministério da Previdência de 2000, Follador calculou em R$ 48,6 bilhões a totalidade de subsídios pagos à previdência pública e em R$ 14.590,95 o custo de cada servidor, levando em conta todos os aposentados da União, estados e de quase 5.500 prefeituras. Como hoje raríssimos grupos de servidores têm fundo próprio de previdência, os governos empregadores não recolhem contribuições, como fazem os servidores. Mas o estudo assinala que, mesmo que os governos contribuíssem, ainda assim cada servidor aposentado custaria R$ 4.744, um privilégio extraordinário se comparado ao custo do aposentado privado, R$ 656,41."

Privilégio são os apaniguados, como assessores parlamentares, sem concurso público, ganhando muitos milhares por mês. Privilégio são os ditos funcionários não-concursados na ativa. Privilégio são os salários das viúvas e filhas de generais. Privilégios são os inúmeros programas de recrutamento amplo e terceirizado que infestam o setor público brasileiro de mão-de-obra inferior por um salário inferior, sob o pretexto de que o Estado tem muitos funcionários.

Meia dúzia de recrutadores de mão-de-obra ganham num sistema que é pior para o contribuinte, pior para o Estado e bom para o capitalismo transnacional, com suas empresas privadas. Privadas no lucro e públicas no prejuízo, como já estamos cansados de ver nos últimos oito anos.

"No ano passado, a União arrecadou R$ 3,7 bilhões em contribuições de servidores públicos e o contribuinte subsidiou R$ 24,4 bilhões, enquanto os 26 estados e o Distrito Federal recolheram R$ 3,7 bilhões de contribuições e tiraram de seus cofres R$ 21 bilhões para os aposentados. A situação nos municípios é menos grave porque pagam salários mais baixos: o recolhimento de contribuições somou apenas R$ 500 milhões e a parcela custeada pelas prefeituras somou R$ 3,2 bilhões."

Ou seja ... Tá na hora da operação pente-fino. Fazer triagem dos milionários das aposentadorias nababescas e cortar os privilégios. Realizar concursos públicos em todos os níveis para se acabar de vez com o câncer da terceirização, da desqualificação e do uso político da mão de obra no Estado. Certamente o Estado pode ser um grande empregador e certamente as suas contas previdenciárias deveriam estar sob controle, não fossem os subseqüentes assaltos dos governos anteriores ao butim da Previdência Pública por motivos diversos e sempre ou quase sempre condenáveis.

Querer com uma matéria desse tipo generalizar os funcionários públicos como uma classe monolítica de privilegiados é negar o direito adquirido de pessoas que contribuíram durante toda a vida para ter direito a uma velhice decente; R$ 1.251 por mês não é a certeza de que isso vai acontecer no Brasil transnacional que os globalistas querem nos impingir. Miséria para todos é o que eles pregam. O fim das classes médias. Nós os ricos e vocês o resto...

Essa é uma matéria facciosa e superficial. O inimigo do Brasil e o grande fator de injustiça social nesse país está numa sala carpetada e com ar-condicionado em Wall Street ou na Avenida Paulista. Conta as vidas humanas como quem conta os lucros com mais um aumento da cotação do dólar. Pobres funcionários públicos da ativa e aposentados....

Não sou funcionário público. Como boa parte dos brasileiros estou desempregado graças à política neoliberal, reacionária e entreguista do Sr. FHC. Quem me dera pudesse ser funcionário público, com R$ 1.251 por mês. Mas, como o governo não faz concursos, só terceiriza mão-de-obra, vou seguindo meu caminho de classe média rumo à marginalização. Quem sabe não é isso que os tucanos não entendem. O povo está com raiva. FHC conseguiu miserabilizar uma classe média escolarizada, hoje refém de tarifas públicas dolarizadas, cheques especiais e cartões de créditos com seus juros pra lá de "camaradas". Quem me dera pudesse ser funcionário público...

Walter Jr., Belo Horizonte

 

PORNOGRAFIA E VIOLÊNCIA
Sinal dos tempos pós-modernos

Os artigos "O tempo congelado (e quente)" e "A fuga do pornógrafo", de Eugênio Bucci (Folha), reproduzem duas das principais características dos tempos atuais, ou melhor, do pós-modernismo: a hipervalorização do presente e a influência do meios tecnológicos de comunicação no cotidiano social. Em relação à primeira, concordo com o autor quando discorre que, no caso de 11 de setembro, o passado foi aprisionado num presente sem fim. Enquanto não ocorrer essa libertação, não haverá história. Tudo será mera e indefinidamente reproduzido, mudando apenas a indumentária.

Em relação à segunda, a assimilação da indústria da guerra com a indústria da pornografia vem comprovar o quanto os meios tecnológicos de comunicação estão moldando a vida da sociedade, deixando-a sem qualquer rumo, como admitiu o autor. As mensagens e as imagens vão chegando e preenchendo o vazio que se instalou no homem pós-moderno. Quando ele se dá conta, percebe que todas as suas emoções e desejos são estimulados pela tecnologia das imagens. E ele não tem para onde fugir. No seu livro Sobre ética e imprensa, no capítulo 4, texto nº 5, o autor, ao falar sobre a superexploração do sexo pelos meios de comunicação, disse que a "a sociedade vê aquilo que diz repudiar". Mais adiante, diz que a audiência do sexo e da violência é sustentada por todas as camadas sociais.

Seguindo mais algumas linhas, apresenta uma proposta ética ao alcance dos jornalistas e dos principais responsáveis pelos meios de comunicação: "Buscar um parâmetro mínimo de bom gosto, sendo o critério de bom gosto aquilo que cada um aceitaria com tranqüilidade dentro de sua própria casa". Termina o texto dizendo que "pode-se perfeitamente questionar um dono de emissora que oferece à sociedade aquilo que sabidamente não toleraria que fosse oferecido a seus filhos".

Na minha opinião, isso acaba caindo na hipocrisia moralista abordada pelo autor. Imaginem a cena: um pai não admite que seu filho assista pornografia pela TV ou pela internet. Mas o garoto, muito esperto, acaba flagrando o pai, mais de uma vez, fazendo justamente aquilo que não lhe é permitido. Qual será a atitude desse filho? Será que não vai agir da mesma forma que o pai, ou seja, entre quatro paredes? Será que, quando for pai, não reproduzirá o mesmo comportamento diante do seu filho e assim sucessivamente?

No artigo "A fuga do pornógrafo", o autor, com extrema coragem e sensibilidade, abriu para o público sua alma, seus desejos íntimos e sua angústia diante de questões existenciais que o sufocam, que o deixam sem saída. É o sinal dos tempos pós-modernos.

Jussara Moraes

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