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JORNALISMO CIENTÍFICO
Rebimbocas a granel

Sobre o texto "Rebimboca da Parafuseta", gostaria de citar alguns exemplos que acontecem freqüentemente aqui no Brasil. Cubro a área de automação industrial, elétrica e eletrônica. Nos últimos cinco anos também escrevi sobre açúcar e álcool e química, e coletei casos interessantes. A saber:

** O primeiro bagaço de cana para gerar energia elétrica foi queimado em 1946, e não a partir de 2001, como informaram as grandes mídias brasileiras. ("As usinas de álcool e açúcar começam a aproveitar o bagaço de cana para gerar energia elétrica.") É verdade que essa atividade se intensificou a partir do apagão, mas não começou em 2001.

** A perda da P36, que afundou em 2001, segue sem explicação alguma. Só de sensores, a plataforma tinha mais de 1.000 e sofisticadas ferramentas de software faziam o trabalho de detecção de alarmes, explosão, temperatura etc. Essas ferramentas, muitas vezes, contam com redundância de controle. É difícil imaginar todas as ferramentas de controle parando ao mesmo tempo. Não ocorreu simplesmente como informou a grande mídia: explodiu e afundou.

** Só existe um fabricante do mundo do antídoto para o antraz. Essa multinacional alemã teve suas ações supervalorizadas durante os casos de aparecimento da bactéria nos EUA. O problema não foi tão catastrófico como noticiado pela imprensa. Houve gente ganhando.

** Em fevereiro de 2000, o governo brasileiro lançou o Programa Prioritário de Termelétrica (PPT), com o objetivo claro de suprir a falta de energia elétrica utilizando gás natural. Estavam previstas 49 térmicas, poucas saíram do papel. Um ano depois, saiu uma nota dizendo que só se ficou sabendo do problema do apagão três meses antes da nota oficial. Como pode?

Sérgio Vieira, revista Mecatrônica Atual

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A rebimboca da parafuseta – Muniz Sodré

 

Hora de desconstruir "verdades"

Os textos "Corporativismo científico: girafas, mariposas e anacronismos didáticos I e II" foram escritos com maestria por Isabel Rebelo Roque. Como biólogo e professor de Biologia compartilho com a autora a frustração em não encontrar nas referências nacionais paralelos às discussões internacionais sobre esses temas, que são tão repetidos em nossos livros didáticos como verdades inquestionáveis.

Já está claro para os professores de Ciências um pouco mais esclarecidos que é impossível transmitir aos alunos sequer 1% do que é produzido nas universidades e institutos de pesquisa do mundo. Assim, a quantidade de informação é imensa e está disponível; o papel do professor nessa enxurrada de dados, acredito eu, é deixar claro o processo pelo qual as idéias científicas são produzidas e instrumentar o aluno para encontrar informação de qualidade e que responda às suas necessidades. Visto desse prisma, o ensino de Ciências deveria enfocar muito mais a história das principais idéias e esclarecer como a ciência funciona, em detrimento de apresentar os "fatos" científicos de maneira simplista. Esta não é, obviamente, a situação do ensino de Ciências no Brasil nem no resto do mundo.

Sendo assim, é louvável que sejam desmistificados os exemplos mais clássicos de nossos livros didáticos, um procedimento que cumpre perfeitamente os objetivos acima citados. Descontruindo "verdades" consagradas com novos fatos, de uma só tacada exercitamos a crítica dos nossos alunos (condição fundamental para a tão falada formação do cidadão) e deixamos explícita a verdadeira maneira pela qual a ciência funciona.

Dentro desse espírito, sinto-me à vontade para acrescentar mais uma informação nesse debate frutífero, enriquecendo um dos subitens do primeiro texto, "pondo lenha na fogueira": o exemplo das girafas, amplamente citado em nossos livros didáticos e atribuído a Lamarck, como bem exposto pela autora, foi na verdade pouco tratado pelo evolucionista francês, não ocupando mais que um parágrafo em sua extensa obra, e não era um exemplo da sua hipótese do uso e desuso. A idéia do crescimento do pescoço da girafa foi na verdade inventada por um de seus maiores opositores, o também francês Georges Cuvier, ironicamente convidado para escrever o obituário de Lamarck.

Portanto, trata-se de um exemplo desenhado para derrubar a idéia que ele próprio exemplifica. Essa pequena história revela um pouco mais a natureza humana da ciência, outro aspecto que temos que ressaltar em nossas aulas.

Felipe Bandoni de Oliveira, Escola Agora, Instituto de Biociências da USP

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