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MÍDIA & GUERRA
"Coca-Cola nunca mais"
Estampada na primeira página do jornal a foto mostra um neném iraquiano que chora no colo da mãe. Chora por ter o lado esquerdo de sua face queimado, praticamente em carne viva. O telejornal nos fala de mais de 200 civis feridos... Minha memória me remete à transmissão televisiva do discurso do presidente da maior democracia do mundo quando, antes de anunciar o início do genocídio, se preocupava em arrumar seu cabelo e maquiagem.
É impressionante o cinismo da cúpula americana ao colocar como razão do ataque a libertação do povo iraquiano. Após ter apoiado durante décadas várias ditaduras em todo o globo (inclusive a de Saddam Hussein), os EUA, assim como um pai que insiste em dizer que sabe o que é melhor para o filho, decidiram implantar autoritariamente uma nova democracia no Iraque. E começaram-na escolhendo por conta própria o futuro presidente iraquiano – democracia no melhor estilo estadunidense.
Acredito que na noite do dia 11 de setembro de 2001, no principal quarto da Casa Branca, o presidente americano deitava sua cabeça no travesseiro enquanto sua face esboçava um tímido sorriso. Nada poderia ter sido melhor para Bush do que dois aviões colidindo com o World Trade Center, e o conseqüente aumento de sua popularidade. Agindo com inteligência (o que não me parece um costume seu), Bush soube trabalhar com a mídia para instalar um clima de terror entre a população americana, que fez com que mais de 70% dela entrasse no mês de março considerando normal e correta uma chacina como a que agora acontece. Confirma este ponto vista a chuva de documentários, reportagens, comentários, imagens e previsões sobre os atentados e suas conseqüências, enquanto pouco ou nada se falou ou mostrou sobre a conseqüente ação no Afeganistão. Alguém se lembra de imagens televisivas em que crianças afegãs apareciam feridas? Mas todos se lembram da infinidade de entrevistas com parentes de mortos do 11/9.
Se até mídia brasileira entrou nessa onda, podemos imaginar como o presidente convenceu os americanos de que o melhor seria uma nova guerra contra o Iraque. O que, para o cidadão americano, pode até ser verdade – o poeta disse que "uma guerra gera empregos e aumenta a produção".
Agora o que nos resta é esperar que a mídia em geral e a mídia brasileira em particular não entrem nesta onda legitimando aquela célebre frase que diz que, nas guerras, a primeira vítima é a verdade. Caso tenhamos, hipoteticamente, uma cobertura imparcial, poderemos mobilizar a opinião pública contra o belicismo e novas guerras preventivas. Enquanto esperamos para ver, podemos fazer com produtos americanos o mesmo que a população americana fez com produtos franceses, discriminar. Hoje, domingo, Danuza Leão assumiu na Folha uma iniciativa que há algumas semanas já vem sendo tomada por pessoas que acham que é hora de uma providência. O "não" a coisas americanizadas como forma de protesto. Segundo as palavras da escritora: "Pode parecer infantil, mas Coca-Cola nunca mais."
Fred Carvalho, Belo Horizonte
O fundamental relegado
Parece-me que agora entendi o porquê da sensação que eu tive dia desses, em não querer ler mais jornal algum. As notícias mais bobas em primeiro plano, só para afligir a população, e o fundamental nem sequer comentado. Gostei muito desse artigo esclarecedor de Alberto Dines.
Martha De Gennaro
Dois conflitos
Desde estudante considerei o jornalista Alberto Dines uma das mentes mais privilegiadas do jornalismo brasileiro, e assim literalmente tomei um susto ao ler a primeira parte da sua análise da cobertura da mídia sobre as guerras do Iraque e do narcotráfico. Isto porque, embora criticando a mídia por "simplificar a narrativa" sobre essas guerras, ele mesmo simplifica ao extremo a questão quando afirma que a mídia nacional e mesmo a internacional reduzem tudo a um confronto entre Bush e a paz, e que os pacifistas teriam tomado partido defendendo Saddam Hussein.
Tenho acompanhado pela internet a imprensa (séria) nacional e internacional, bem como pela TV via satélite alguns canais internacionais, e, se é verdade que há muita superficialidade, também é verdadeiro que podemos encontrar um desnudamento dos interesses econômicos e imperialistas norte-americanos (curiosamente, da "turma" do Echelon: Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália e Espanha, que está tentando entrar na turma. É até uma surpresa o não-envolvimento canadense). Também está clara a mensagem dos pacifistas, em que pesem algumas manifestações (sobretudo nos países árabes) defenderem Saddam (fora dos países árabes, me parece mais uma defesa do princípio de autodeterminação dos povos). A mensagem dos pacifistas é até muito simples: "No blood for oil" é o recado das ruas, e foi o recado do ativista que jogou tinta vermelha no primeiro- ministro dinamarquês.
Evidentemente, ninguém com um mínimo de lucidez pode defender o regime de Saddam Hussein, mas não usaríamos sequer todos os dedos de uma só mão se quiséssemos contar os regimes democráticos naquela região. Se a questão fosse essa – e unicamente deste ponto de vista, ainda bem que não é – teríamos a expansão do conflito a dimensões incontroláveis. Aqui cabe um comentário maldoso: Bush sequer tem autoridade moral para falar em democracia, pois nem foi eleito democraticamente, nem nunca, em nenhum outro governo, se tirou do povo americano tantos direitos democráticos.
Felizmente, reencontrei o Dines na sua fina interpretação do encontro Aznar, Blair e Bush nos Açores, e na objetividade com que fala do nosso inimigo real, o narcoterrorismo. Realmente, esta é uma questão de defesa do estado democrático de direito, que começa pelo combate à corrupção e à impunidade, desde as cúpulas do poder (aí incluído o Judiciário). O problema é que esses assuntos só podem ser abordados por jornalistas do cacife dele. Para os menores, é matéria que não será publicada (na melhor das hipóteses) ou demissão na certa (na pior delas).
Marta Guerra
Pobres de nós
Temos a visão deturpada do tio Bush, que teve de engolir o September-11, e que faz do mundo um grande quintal; do tio Sharon, o da Terra Prometida, que faz do mundo um grande "armarinho"; e do tio Saddam, um aspirante a füher. Misture-se a isto uma mídia que batalha pela audiência e a defesa de interesses nem sempre claros e distantes da liberdade e democracia. E este é o mundo civilizado? Pobres de nós!
Cássio Maffazzioli, Porto Alegre
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