|
MÍDIA & GUERRA
Tanques correndo no deserto
Mais uma vez estamos vendo a cobertura de um conflito que só interessa a quem quer mostrar. Faltam informações exatas e imagens da invasão no Norte do Iraque, onde vive a minoria curda e, principalmente, sobre a parte dela ligada ao antigo Partido Comunista Curdo, o PKK. Depois da captura do líder Abdula Ocalan, a organização mudou o nome para Partido Pela Liberdade, mas continua sob cerco iraquiano e turco. Preocupa a notícia de que tropas turcas teriam invadido a região. É ao noroeste também que se encontra a fronteira do Iraque com a Síria, para onde devem se dirigir milhares de refugiados, que temem ser mal recebidos na Arábia Saudita, na Turquia ou Irã. Sem falar na importância política e econômica de Kirkuk, que aparece aqui e ali em mapas e citações, mas nada de imagens e informações mais detalhadas.
Pensam que estão nos satisfazendo com "cortina de fumaça" de imagens via videofones e tanques correndo no deserto rumo ao nada.
Michele Akira
Um espetáculo chamado guerra
Mais uma vez os grandes canais de televisão decepcionam em sua cobertura jornalística. Desde que o presidente dos Estados Unidos declarou guerra ao país do ditador Saddam Hussein, várias emissoras iniciaram uma cobertura ao vivo, com câmeras localizadas nas cidades iraquianas, aguardando o início dos bombardeios. Portanto, não esperemos nada de novo. O circo está armado. A cobertura da guerra não será muito diferente, por exemplo, da cobertura que é dada aos conflitos entre policiais e traficantes no Brasil. Um show de imagens, informações que se perdem em análises superficiais, nada do qual não estejamos habituados.
Nenhuma emissora fez ao menos debates ou mesas-redondas, como estão fazendo alguns canais árabes. Isto, como todos sabem, poderia focalizar as opiniões divergentes, quebrar argumentos frágeis e ajudar a combater um fenômeno cada vez mais crescente entre aqueles que se posicionam sobre a guerra: o extremismo. A mídia que condena o maniqueísmo do presidente George W. Bush, está ela mesma colaborando para a construção desta visão. Desde a declaração de guerra estão sendo vinculadas muito mais informações sobre o arsenal bélico de cada país, do que as razões do conflito e seus possíveis desdobramentos. A cobertura está se resumindo à narração, muitas vezes até com tons emocionantes e cores vibrantes, que aumentam ainda mais a expectativa do telespectador, prendendo-o pela emoção.
De um lado mostram-se cidades iraquianas sendo bombardeadas, do outro cidadãos norte-americanos preocupados com uma possível retaliação terrorista. E só. O telespectador poderá até se confundir: será uma guerra na qual morrem civis e existem muitos interesses em jogo, ou apenas uma briga pessoal entre dois poderosos que se odeiam? Quem duvida que muitos estão apostando na última opção? Não é raro encontramos pessoas que estão verdadeiramente torcendo, por um ou pelo outro, um fruto da má informação. Preocupante...
Leonardo Góis, estudante, Salvador
Aliados de quem, cara-pálida?
No CBN Express: "Tropas aliadas avançam no deserto do Iraque e ocupam porto e bases aéreas." Ouço a Rádio CBN e este "tropas aliadas" me incomoda profundamente! Aliadas de quem, cara pálida? Sou aliada da paz! E o presidente do Brasil também! Vocês estão reproduzindo o mesmo acinte da TV Globo. E vejam o recadinho de Mauro Gama a Fátima Bernardes, em carta enviada à Globo, que bem cabe aos ilustres jornalistas da CBN.
Maria da Conceição Carneiro Oliveira
Srs. Responsáveis: ouvir a Fátima Bernardes, com sua inocente beleza, encerrar o Jornal Nacional com uma referência a novas notícias sobre a "ofensiva aliada" no Iraque nos dá a certeza, mais uma vez, de que todos vocês são paus-mandados da nação mais repugnante da Terra, trabalham para os EUA, agem como autômatos e lacaios das agências americanas de informação e deixam, por isso mesmo, de tomar partido contra uma guerra absolutamente covarde e criminosa. Vocês também ficaram surdos e cegos? Não vêem as imagens da própria Rede Globo, com o planeta inteiro marchando contra essa corja de bandidos de Bush, Blair & Cia.? O que é que há? Não sabem o que é direito internacional, aceitam que um pulha qualquer afronte a soberania territorial de um país e falam em aliados? De quem? Protesto veementemente contra isso: digam coalizão, digam ala americana ou excrementícia, digam o que quiserem, mas não empulhem o povo brasileiro com essa história de aliados. Pelo menos façam de conta que prestam serviço aos brasileiros, não à canalha truculenta e rapineira de tio Sam. Este país não é, como vocês pensam ou sugerem, constituído de débeis mentais, psicopatas ou analfabetos que os ouvem como oráculos de uma verdade feita de sangue e m...! Não é possível, tomem vergonha! Vocês nasceram aqui, e o próprio governo brasileiro deixou bem clara a sua posição. Não é aliado dos invasores. Sua aliança é com a paz. Reiterando essa posição da Rede Globo – de quatro para com os interesses norte-americanos –, vocês estão, portanto, traindo não só o povo brasileiro, mas também seu governo legítimo e, pela primeira vez, verdadeiramente democrático. Os EUA estão em pleno processo de fascistização. Quando é que vão enxergar isso? Bela Fátima, pobre Fátima! Teleguiada como um míssil, a partir de Washington. Atenciosamente, Mauro Gama, poeta, em 20/3/2003.
A guerra começou antes
A Folha deu manchete de caderno esta semana: "As vítimas". No miolo, fotos de vítimas civis iraquianas da guerra recente, da semana. Nenhuma alusão às centenas de milhares de mortos de câncer, desde 1991, conseqüência do uso de urânio empobrecido no bico de mísseis. Nenhuma lembrança da mortalidade infantil, que foi multiplicada por 5. Nada sobre a fome e a carência de tudo, que vem matando desde então. Nada sobre venenos químicos jogados de aviões sobre plantações do país. Não, a guerra começou ontem. E estas são as primeiras vítimas. Parabéns, Folha de S.Paulo.
Chico Villela
O petroterrorista
Algo muito sério está acontecendo no mundo. Não é pouca coisa! Bush (o fritador do Texas, o petroterrorista) tira o fascismo de suas fronteiras e avança mundo afora. Bush está pondo em prática, com Sharon, Blair e o débil mental Aznar, o que Hitler não conseguiu. Acho que OI deveria se ater mais a essas questões.
Mirian Mirkos
O teatro de operações
O teatro medieval em língua portuguesa foi rudimentar na forma. Jograis e jogralesas, com seus cantos, recitativos e danças, foram definitivamente os primeiros atores em nosso idioma. Entre suas habilidades a imitação caricata de pessoas, a gozação com fatos e gente da época era o que atraía os espectadores às praças públicas e paços reais.
Na linguagem da época, o que eles faziam era "arremedar", ou seja, faziam "arremedilhos". Há um documento do século 12 que reputa a dois jograis, Bonamis e Acompaniado, da corte de D. Sancho I, arremedilhos bastante venenosos. A ponto de a igreja e o Estado serem obrigados a intervir para reprimir abusos. Este documento menciona também que os tais arremedos eram tão populares que chegaram a ocupar espaço nas igrejas. Portanto, a paúra paroquial era pelo menos justificável.
Os arremedilhos, ou se preferirem, "jogos de escárnio" (devido a sua tendência quase habitual de escarnecer tudo e todos) eram bastante populares em Portugal nos fins do século 15. Um outro documento cita que D. João II mandou tirar da cadeia, onde amargava pena nem um pouco engraçada, um estudante de artes famoso pela prática de arremedilhos. O jovem ator sabia arremedar ofícios divinos, proclamas, segredos nada secretos das alcovas lisboetas, se utilizando do italiano na hora de alardear as tais inconveniências. Dono de uma maleabilidade dramática impressionante, esse rapaz deu numa noite uma sessão de "arremedilhos" quando imitou um capelão, zombou de um rabino, um tabelião e outras personalidades carimbadas do quehacer da corte.
D. João irado, mandou-o para a cadeia. O povo, desconsolado, clamou por sua liberdade. E D.João II acabou cedendo às pressões. Fora os arremedos, outra manifestação teatral bastante em voga na Idade Média eram os "momos" (em tempos idos do meu Colégio Santo Antonio Maria Zaccaria os padres nomeavam essa atividade como "entremezes"). Grandes figurações, os tais momos reproduziam desproporcionalmente gentes e animais para manifestarem de forma cômica e carnavalesca tudo que lhes cercava e incomodava. Exibiam animais imaginários ou reais, naus, castelos, além de homens sob a indumentária de bestas ou estranhas criaturas.
Infelizmente nenhuma dessas manifestações culturais sobreviveu a qualquer monumento literário. Mas se quiserem atribuir-lhes importância para o progresso do teatro de Gil Vicente vamos todos acertar na mosca.
Recordando esse período da história veio-me à mente uma idéia singular, porém não menos impactante, de mostrar descontentamento com o que anda ocorrendo em Bagdá. Sem ter que abrir mão das minhas cocaslight, dos meus William Carlos Williams, Paul Auster e Sylvia Plath, sugiro ao próximo Conselho de Segurança das Nações Unidas (caso sobreviva) uma enorme sessão de arremedos e momos. Com direito a CNN, al-Jazira, para mouros e cristãos do mundo inteiro. Um espetáculo, por exemplo, onde o Brasil poderia se destacar e ganhar definitivamente uma cadeira em tão importante casa. Técnica e conteúdo não nos faltam. Portugal, se assim o desejasse, poderia vir no embalo, em vez de ter que emprestar suas ilhas para a realização de eventos de prestidigitação.
Os chanceleres da França e Alemanha, revestidos dos animais de suas preferências, entoando arremedos contra uma nau avariada (Britannia?), levando el rey D. Bush II, o breve, para tomar posse de Ur. Imaginem isso. Minha filha de 12 anos diria: show, pai. Pois é, filhota. Ainda bem que é só teatro
Ilidio Soares
|
|