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CASO TIM LOPES
Mel matou Tim Lopes
A hipocrisia que existe na discussão sobre violência urbana, crime organizado e tráfico de drogas torna relevante a seguinte questão: será que a Mel (personagem viciada em cocaína na novela das oito) não matou o repórter Tim Lopes?
A individualização da autoria de um crime é indiscutivelmente necessária, mas não é suficiente quando a violência deixa de ser esporádica e se configura como um problema crônico. Tim Lopes não foi assassinado somente por traficantes. Foi morto, também, pelo tráfico de drogas. O problema é que a sociedade insiste em condenar apenas o lado vendedor do comércio de entorpecentes, o que faz com que o desmantelamento de uma quadrilha viabilize quase que imediatamente a formação de um novo grupo ou a expansão de um grupo das proximidades porque um mercado bilionário com demanda aquecida simplesmente não pode ser extinto com medidas pontuais de repressão à oferta.
Enquanto isso, a opção de drogar-se é vista pela sociedade como uma questão de foro íntimo do jovem de classe média e alta, jovem que a mídia e as organizações não-governamentais que soltam bexiguinhas brancas nas passeatas pela paz não ousam criticar. O lado comprador do comércio de entorpecentes é inocentado, chamado de vítima ingênua e até estimulado a comprar cada vez mais.
Na novela das oito, a personagem bem-nascida Mel drogou-se, rejeitou a família, rejeitou o namorado e roubou, mas renasceu, depois de muito sofrimento, como boa filha, boa esposa e boa mãe. A mensagem difundida pela novela é que a garota tímida e insegura atingiu sua maturidade através da provação que passou como drogada. A cocaína, que lhe trouxe prejuízos temporários mas não chegou a comprometer sua gravidez, trouxe-lhe benefícios permanentes, inclusive a possibilidade de exercer a "profissão" de dona de clínica de recuperação de viciados.
Esta idéia de sofrimento que enobrece pode parecer estranha, mas é comum: o sofrimento transforma homens em santos, em heróis de guerra, em heróis do esporte. A cena mais marcante de uma Olimpíada é a do atleta cambaleante cruzando em último lugar a linha de chegada da maratona para cair nos braços dos médicos que o aguardam, e a cena de sofrimento maior que talvez se possa imaginar é a do deus cristão morrendo crucificado, no limite da dor humana, para depois ressuscitar e subir ao céu.
Mas o sofrimento da dependência química não é um sofrimento individual. É um problema que a privilegiada classe média e alta tem a obrigação moral de combater, mesmo que, para isso, seja necessário punir muitos de seus filhos.
Sustentando o tráfico de drogas, o crime organizado e a violência urbana, a Mel matou o Tim Lopes.
Hélio Pimentel
A polícia não funciona
O artigo é primoroso, quase perfeito, só há um equívoco, e grave: afirmar que o sistema policial funciona bem [ver remissão abaixo]. Não é verdade, conheço sem falsa modéstia a questão a fundo. Nenhum sistema público ou privado pode funcionar sequer razoavelmente se sua situação for: 1) com péssimos salários para os policiais; 2) sem assistência à família, seja para a saúde ou formação escolar; 3) com efetivos insuficientes à demanda; 4) com cadeias públicas lotadas, propiciando convívio diário com bandidos; 5) com a imagem estereotipada negativamente; 6) integrando um sistema processual-penal falido; 7) com o conjunto das viaturas sucateadas; 8) desentrosado e bipartido em duas polícias rivais, civis e militares; 9) sujeito a influências políticas; 10) sem estímulo profissional e sistema de méritos.
Last but not least, claro que existem bons policiais, são a maioria e prestam serviços inestimáveis, porém. nas condições antes citadas, jamais darão conta do recado. É óbvio que governo sério tem que agir nas duas pontas, na social e, sem falsa demagogia ou democratismo, agir com competência no combate ao crime com instituições modernas, prestigiadas, bem-equipadas e, como dito, bem-remuneradas e motivadas.
Jose Maria Correia, advogado criminalista, delegado de Polícia aposentado, ex-chefe de Polícia, Curitiba
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Grito a todo pulmão
Não sei o público que este artigo alcança, mas sei de uma coisa: deveria ser popularizado nacionalmente. Temos que gritar a todo pulmão: cadê a minha liberdade? Cadê o direito constitucional de ir e vir? O que fizeram da Cidade Maravilhosa? Por que este desmando das autoridades e o comando do crime? Quem perdeu a autoridade e quem a achou? Por quê?
Elenice Soares de Souza, cidadã brasileira e carioca
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