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DIRETO DA SELVA
Abaixo os buanas
Fui repórter especializado em mineração e por cinco vezes estive na Amazônia, sendo três delas no Pará. Nunca deixei de me espantar com a complexidade da região e tentei ao máximo não operar com os reducionismos que, aqui do Sul, costumamos tratar a Amazônia. Numa das minhas viagens, desta vez ao Amazonas para cobrir a construção do poliduto que liga Urucu a Coari, comprei um livro do Márcio de Souza, no aeroporto de Manaus. Voltei a São Paulo deliciado com a argumentação do Márcio e com todos os pontos de vista dele.
Não há como compreender a Amazônia sem uma experiência de longo curso ou pelo menos uma generosidade de ir além dos estereótipos. Por fim, um jornalista que fala mais de si mesmo do que a própria reportagem que pretendia escrever precisa se repensar também como profissional. Abaixo os buanas.
Nelson Valêncio
Oportunistas sem contestação
Todo esse vexame que Lúcio Flávio denuncia tem, por tabela, outros alvos. Um deles é a própria mídia que, por omissão (ou incompetência), não revela a história urbana de Belém que, descobre-se agora, no Sul Maravilha, por uma publicação crítica sobre o suplemento literário do JB (à época, dirigido pelo poeta Mário Faustino, exuberava de vida cultural e brilhantismo, sem a qual o piauiense poeta jamais seria o que é hoje, no quadro do cânone da literatura brasileira). Há que se responder com informação segura à deformação produzida pela própria imprensa na ditadura cultural do Centro-Sul sobre o resto do país. O colonialismo é endêmico, tem de ser combatido. Só para esquentar o debate: um passar de olhos nos Centros de Humanidades das principais universidades do Centro-Sul e encontraremos estudos canadenses, medievais, anglófilos, francófilos etc., mas um centro de estudos amazônicos, não.
É disso que se valem oportunistas como os que você citou, não há quem os conteste, porque ninguém sabe nada sobre o extremo Norte, exceto aquilo que o colonizador quer que se saiba ou se pense sobre ele.
Ruy Pinto Pereira
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ORIENTE MÉDIO
Crítica e anti-semitismo
Estava eu procurando o significado do termo anti-semita que tanto se usa quando se refere aos judeus e deparei-me com o site do Sr. Emad Musleh, o qual me chamou a atenção, pois eu acreditava que o termo só se referia aos adeptos da religião judaica (seja qual for a nacionalidade), e neste texto o Sr. Emad esclarece que semita se refere aos hebreus e também aos árabes em geral.
Outro ponto interessante é a forma como ele aborda o assunto do conflito Estado de Israel x Estado da Palestina, forma esta muito clara e direta. Pois bem, após ler esse texto deparei-me com outro, escrito pelo Sr. Renê Guedes, sobre a carta do Sr. Alexandre Eisenberg e me identifiquei com seu conteúdo; já é hora de separarmos aquilo que é crítica real e construtiva e análise imparcial dos fatos daquilo que chamamos racismo e preconceito. Chega de se rotular qualquer crítica ao governo de Israel de postura anti- semita.
A história da humanidade sempre estará manchada pela desgraça do Holocausto, onde foram sacrificados milhões de judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, mas isso não dá o direito de se rotular de anti-semita qualquer um que não concorde com a política repressora imposta pelos governantes de Israel sobre a Palestina, e que hoje chega ao seu apogeu pela mão-de-ferro de Ariel Sharon.
Os romanos perseguiram os cristãos na Antiguidade, os cristãos perseguiram os não- cristãos assim que foram oficializados em Roma, na Idade Média veio a Inquisição. Será que o tratamento de Israel na Palestina não está acrescentando mais um capítulo a esta história vergonhosa da raça humana? Será que daqui a 30 anos não estaremos falando do Holocausto palestino o qual vivenciamos hoje ?
Não sou especialista neste assunto, sou apenas alguém que não se conforma com aquilo que vê diariamente nos jornais: mortes e falta de diálogo de ambos os lados, pois o lado árabe radical também é extremamente intolerante.
Tenho certeza que de ambos os lados existem pessoas que estão acima dos conflitos religiosos e econômicos e querem a paz e a criação de um Estado Livre Palestino e de um Estado de Israel que possa viver em paz sem o medo do terrorismo. Espero não ser rotulado de absolutamente nada por estar tendo a coragem de escrever esta carta, mas eu não podia deixar escapar esta oportunidade, pois tocar neste assunto é sempre muito delicado.
Gostaria que governos como o dos Estados Unidos da América do Norte deixassem de ser hipócritas e realmente resolvessem estes e outros problemas vergonhosos que eles simplesmente menosprezam.
Edson Arnaldo Mendes
Nazismo e anti-semitismo
Caro Sr. Renê Guedes, deixei claro, nos dois textos que enviei ao Observatório sobre os artigos de Arbex, que sou contra a direita israelense, contra políticos criminosos como Sharon etc. E concordo que tem sido lamentável a postura conservadora da comunidade judaica brasileira (salvo exceções), bem como a americana (salvo sempre as raras exceções), as quais tenho criticado ferozmente; e tenho sofrido toda sorte de "repreensões" e até "acusações de traição" (como se um judeu que mora fora de Israel não pudesse se opor a um governo israelense), por ridículo que pareça!!
Não sei quantas vezes terei que escrever a mesma coisa até que se perceba que nem só de extremos vive o homem! Parece que entre gregos e troianos não há espaço para cretenses, cipriotas e todos os demais! O e-mail de Renê Guedes me faz crer que ele (assim como Arbex) busca se refugiar numa postura maniqueísta (ainda mais maniqueísta que a das comunidades judaicas brasileira e americana, que defendem qualquer liderança israelense por medo e despreparo típicos das minorias que sofreram algum trauma) e simplista, onde ou se é contra Israel ou a favor de Israel!! Preto ou branco! A realidade é muito mais complexa do que isso.
É incrível que algumas pessoas não leiam direito o que escrevo (e olha que fui muito claro, em especial na tréplica a Arbex), ou não parecem estar dispostas a fazer distinções fundamentais: A minha questão é outra!!! É necessário não esquecer que o mundo é colorido, não preto-e-branco! Arbex está absolutamente correto em criticar os crimes da direita israelense contra os árabes palestinos. Porém, ele usa termos inapropriados, falseia informações históricas e apresenta um quadro extremamente parcial, no qual o único vilão do Oriente Médio é Israel!! São estas as razões que me levam a criticá-lo e deduzir que seja anti-semita.
Ainda mais explicado: 1) A comparação entre Sharon (por pior que seja este) e Hitler (ao chamá-lo, Arbex, de "nazista") é absurda, pois nunca houve nem há genocídio nos territórios ocupados (Hitler assassinou premeditadamente cerca de 6 milhões só de judeus, fora outras minorias, ou seja, mais que a atual população de Israel e Palestina juntos, e num contexto em que nenhuma das minorias assassinadas por ele representassem qualquer ameaça à integridade da Alemanha!!); não há trabalho forçado com inanição até a morte nos territórios nem se usam árabes palestinos como cobaias em experiências "médicas"; e Israel não se pretende geneticamente superior a ninguém... Ora, diante disso, como pode um jornalista responsável sugerir ao seu leitor que "Sharon faz com os árabes palestinos o que Hitler fez com os judeus do gueto de Varsóvia?" Sabendo do significado que o Holocausto tem para os judeus (e para a humanidade que pensa e sente), chamar um judeu (por pior que seja) de nazista, além de fora de contexto, é um ato propositadamente ofensivo (assumido inclusive por Arbex quando este, cinicamente, diz que "não entende por que os judeus ainda se irritam quando ele o faz) que, além de sugerir uma "falsa equivalência de crimes" também singulariza Israel naquilo que não lhe é singular (ou o "nazismo" deixou de ser singular? Ou você considera que os crimes da ditadura brasileira, que eram politicamente motivados, tiveram a mesma dimensão colossal e grau de perversidade dos nazistas?). Afinal, Saddam, o falecido Assad e até a "moderada" Turquia cometeram crimes piores que os de Sharon contra partes de suas próprias populações, e ninguém os chama de "nazistas"...
2) É absolutamente incompleta (para dizer o mínimo) qualquer explicação da política e dos crimes da direita israelense que não passe pela responsabilidade dos países vizinhos a Israel na atual situação dos árabes palestinos. Quem não conhece a história do Oriente Médio e lê Arbex "aprenderá" que "Israel é um país genocida, nefasto, que se formou de maneira especialmente mais abusiva contra os nativos que os demais países!" Com isto, seu leitor desinformado deve desenvolver ódio contra Israel e os judeus, sem nada saber sobre a história daquela região...
Por que Arbex não menciona que foram os árabes (não os palestinos apenas, mas todos os demais, Egito, Síria, Iraque etc.) que não aceitaram a partilha da Palestina (uma terra já pequeníssima se comparada ao território dos vizinhos) em dois estados, um árabe e um judeu? Partilha instituída pela então Liga das Nações (pouco depois, ONU), que justamente é hoje citada como "o documento, por excelência, que legitima a criação de um estado palestino diante da comunidade internacional"? Que sentido faz tentar deslegitimar Israel, que foi legitimado por este mesmo documento que é hoje usado para legitimar a criação do Estado Palestino? Você já se perguntou por que razão os árabes palestinos não proclamaram o seu estado desde a partilha da Palestina em 1947? Apesar de todos os erros e abusos cometidos pelos judeus na Palestina antes e quando da criação do Estado de Israel (conflitos típicos do surgimento de qualquer país até que se ajustem fronteiras), os árabes palestinos não puderam criar um estado para si porque os seus irmãos árabes (muito mais numerosos e poderosos) não aceitaram a partilha, nem entendiam que devesse haver um estado árabe palestino.
Em vez de buscarem negociar com os judeus a posse dos territórios que lhes interessavam para além do que a partilha previa, preferiram opor-se à existência do estado judeu e devotar toda a sua energia para uma guerra (a primeira iniciada por eles desde 1948) que até hoje não terminou e que resultou no surgimento da terrível direita israelense. E, o que é pior, em nada lhes contribuiu (muito ao contrário) para a criação de um Estado Palestino! Tenho colegas palestinos aqui nos EUA que se ressentem profundamente da traição dos seus irmãos árabes.
4) O alinhamento da Europa com os palestinos só piora as coisas (eles não aprendem!). Se a Europa prometesse apoio militar a Israel em troca do voto na esquerda, o Estado Palestino seria criado amanhã! Só que eles preferem criticar por fora e apoiar os EUA na prática, pois não querem abrir mão do petróleo árabe a preço de banana e "otras cositas más"... Velha e decrépita Europa... Percebe como as coisas são mais complicadas do que parece, "coloridas" até demais?
5) Por fim, não sei quem inventou essa deslavada farsa de "holocausto palestino". Nunca houve isso, e se os judeus chegassem a esse grau de degradação moral Israel não sobreviveria nem um dia mais, pois numa democracia, por mais que haja guerras, não há espaço para o genocídio. Vocês sabem o que significa o termo "holocausto" (queima por inteiro)? Vejam o número de mortos de ambos os lados e tirem conclusões mais realistas!!
A partir do momento em que resolvam encarar a realidade como ela é, juntem-se a mim e a todos que lutam para derrubar a direita israelense e ajudar na criação do Estado Palestino, não na destruição dos judeus e do Estado de Israel. O melhor caminho continua sendo o do meio... Saudações,
Alexandre J. Eisenberg
Nazismo e anti-semitismo II
Sr. Alexandre, o senhor tem se mostrado um bravo interlocutor, defendendo o seu ponto de vista de maneira honesta e bastante clara. Contudo, continua a exacerbar seu discurso no que tange aos possíveis críticos das ações israelenses. Sua cólera, ao que parece, se deve ao adjetivo utilizado por Arbex, ou mesmo eu: Sharon e Netanyahu se apropriam sim de expedientes fascistas, quando invocam o medo e a exacerbação militar como resposta aos atentados. O conflito degenerou-se numa luta tribal absolutamente incontrolável, e ao que parece, completamente inútil. A ocupação de qualquer povo por outro é algo odioso, seja ele israelense ou não. Intervir em aldeias, munidos do mais completo arsenal, enquanto do outro lado milicianos se escondem com seus pífios kalashnikovs provoca, sim, ódios e ressentimentos, que durarão décadas para serem sanados. O desespero leva aos atos mais estapafúrdios, como carregar uma bomba e ceifar a própria vida, levando consigo mais alguns, quase sempre jovens. Após o fim da Guerra dos Seis dias, Israel unificou Jerusalém, e grande parte da Cisjordânia veio de roldão. Não houve investimentos nas áreas palestinas. O clima de opressão era permanente. Para os jovens palestinos, não existia outro contato com israelenses sem que esses apontassem armas, numa batida policial ou vasculhando suas casas.
A primeira Intifada nasceu muito mais da revolta espontânea do que essa que, evidentemente, possui alguma organização programática (seja do Hezbolah, seja da Fatah). Mesmo assim, essa "artificialidade"não impediu que os jovens mais uma vez se insurgissem contra o status quo, que naquela região representa somente, e não mais que somente, jipes militares em rondas ostensivas, colonos vivendo em enclaves militares e estradas que trespassam os territórios ocupados, ligando realidades tão parecidas. O que se vê, portanto, é terreno fértil para o ódio e o desespero. O que se vê, sim, é algo muito próximo do apartheid sul-africano, ou do brasileiro. Qual a diferença de uma Nablus para qualquer de nossas periferias? Por acaso a polícia daqui tem relacionamento melhor com as populações desses bairros? Nossa polícia se comporta como a de um país alienígena, que desconfia permanentemente de todos. Seu histórico de violência prova isso. Anos de políticas públicas pautadas pelo cacete truculento e odioso. E o que ganhamos? Mais violência...
Nossas favelas se parecem, e muito, com as moradas palestinas. Ambas são de alvenaria, desprovidas de quaisquer adornos. Elas se acotovelam até onde a topografia do lugar permite. Os trabalhadores procuram os subempregos de Israel. Porteiros, lixeiros, faxineiros, trabalhadores braçais servem de massa muito barata para a eficiente economia israelense.
Nos últimos anos, os israelenses têm se servido de romenos, búlgaros e até russos para substituição dos palestinos, já que os sucessivos bloqueios e as normas mais restritas de segurança atrapalham a mão-de-obra árabe. Digam-me, não se parece com o nosso cotidiano? Os israelenses deveriam nos estudar, a nós, brasileiros... Ensinaríamos muito a eles. Nossa realidade tem mais paralelismos com a crise entre israelenses e árabes do que se imagina. Claro, existem lá conflitos históricos, diferenças e ressentimentos de outro gênero, mas o componente básico está em ambos os lugares: a estupidez humana!
Sr. Alexandre, a juventude israelense continuará a sangrar enquanto essas questões forem ignoradas. Infelizmente. Israel, país culto e próspero, tem o dever de voltar às suas origens ideológicas, e construir um canal permanente, mais uma vez, com os palestinos. Pessoalmente, acredito que Arafat errou e feio ao não aceitar as propostas de Barak, nos encontros patrocinados por Clinton. Sim, existiam os enclaves dos colonos como desculpa para a não-aceitação do acordo, mas ao negar o diálogo o líder palestino perdeu a chance de conseguir algo concreto. Deixou-se levar pela dureza de seu espírito carbonário, e jogou a iniciativa para os falcões likudistas, que agradecem até hoje por isso.
Na se trata, portanto, de uma discussão semântica. Os fatos se encarregam de descrever tais atos, dando-se a eles os adjetivos mais ou menos apropriados.
Renê Guedes
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Dez míseros parágrafos
Meus parabéns ao historiador Pedro Eduardo Portilho de Nader, que em míseros 10 parágrafos conseguiu transmitir-me uma visão mais aprofundada acerca das raízes do conflito árabe-israelense do que vários jornais e revistas em dúzias de edições.
Ele está certo, a abordagem, principalmente no que tange a acontecimentos internacionais, é factual, mesmo em veículos semanais como Veja e Época. Mas isso aprendemos desde a faculdade de Jornalismo, onde devemos usar uma linguagem que supostamente não manifeste partidarismos, mas, em detrimento disso, desfazemo-nos do verdadeiro "furo", este sim inédito, o de transformar o leitor de nosso periódico no próprio intérprete dos fatos, fornecendo-lhe base para reflexão própria.
Não que não haja bons artigos como o de Pedro em jornais e revistas, é que, devido ao destaque que se dá a eles, e ao olhar viciado em letras "garrafais" do brasileiro, ninguém os lê. Ninguém não, há quem os leia, mas geralmente é quem também os escreve.
Carlos Artur Matos
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