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CASO SONINHA
Informação de qualidade?

Uma pena que a TV Cultura tenha tratado a publicação da matéria sobre o uso de maconha demitindo a apresentadora Soninha. Como uma TV pública, democrática e de qualidade que deveria ser, a TV Cultura deveria ter levado o tema para ser discutido em seus programas. Não apenas o uso da maconha, mas o da ética jornalística, do uso da imagem das pessoas indevidamente e do sensacionalismo – que parecem ser mais importantes do que a discussão sensata e ética de temas relevantes para a sociedade.

Não é demitindo a apresentadora, que executava o seu papel de mediadora de qualidade, num programa de qualidade, que a TV Cultura vai varrer para baixo do tapete o uso de drogas legais ou ilegais. Também não é assim que o tráfico vai ser resolvido ou sequer esquecido.

Chega do jornalismo feito apenas para a venda; chega de manchetes sensacionalistas que não têm verdadeira relação com o conteúdo das matérias; chega das câmeras escondidas, que em vez de fazerem "jornalismo investigativo" apenas o transformam em sensacionalismo barato e em uso indevido da imagem de pessoas que têm o direito de não serem filmadas ou fotografadas sem consentimento.

A revista Época e a TV Cultura fizeram de modo diferente a mesma coisa: se esquivaram da verdadeira discussão. A primeira usou a apologia às drogas como mote para vender mais revistas, esquecendo-se da verdadeira discussão contida em suas páginas; já a segunda esquivou-se do papel de TV pública, ao não discutir o assunto.

Quando o telespectador, o leitor, o ouvinte vão ter o direito à informação de qualidade? Quando seremos respeitados como seres inteligentes, e não como meros receptores/consumidores sem direito a resposta? Quando também os jornalistas serão tratados com respeito? Não acredito que a repórter que fez a matéria soubesse que ela viraria outdoors espalhados com uma frase sensacionalista. Ao mesmo tempo, não acredito que nesse esquema de "escravidão silenciosa" em que vivemos possamos modificar o jornalismo que é feito hoje na maioria dos meios de comunicação do país.

A discussão do registro profissional em jornalismo não deve ser apenas burocrática. Tem que ser ética e voltada para qualidade. Por que não discutir a qualidade do que temos feito, lido e visto em jornais, revistas e TVs?

Deveríamos refletir sobre o porquê de muitos leitores ainda pensarem que o jornal ou a TV servem para resolver o problema da sua rua ou do seu bairro... que os problemas de ordem pública só serão resolvido depois do denuncismo de jornais, revistas e TVs. "O cano estourou na minha rua? Ligo para a TV que eles resolvem!"

Foi para isso que nos formamos jornalistas? Para vendermos mais jornais e inserções publicitárias? Para denunciarmos o buraco na rua X ou Y? Para sermos os juízes de questões públicas? Ou para avaliarmos a situação, ampliarmos a discussão e trazermos diferentes e mais variados pontos de vista, para que o telespectador/ouvinte/leitor pensante tenha suas próprias conclusões?

Por que grande parte dos cientistas tem a certeza de que suas pesquisas serão deturpadas nos meios de comunicação?

Os meios de comunicação deveriam estar atentos às verdadeiras questões que atormentam a sociedade. Elas estão aí e, apesar de serem esquecidas por quem escolhe o que é ou não uma grande matéria, uma grande manchete, uma grande venda de papel altamente descartável, não são esquecidas por quem as vive.

Juliana Cavalcanti, Recife

 

Drogas e a hipocrisia brasileira

O episódio da demissão pela TV Cultura da apresentadora Soninha demonstra a hipocrisia social em que vivemos no Brasil. Será que a atitude de Soninha seria tão polemizada e prejudicial à própria apresentadora caso ela, por exemplo, confidenciasse "dar uns tapas" num scotch "12 anos" depois das gravações dos programas? A mídia inteira, seja por forma direta (publicidade) ou indireta (novelas), todo dia invade a casa dos brasileiros induzindo jovens e adultos ao prazer proporcionado por bebidas e cigarros.

Será que o álcool e a nicotina, pelo fato de serem legalizados e fonte inesgotável de receita em impostos pelo governo, deixam de ser drogas e seus efeitos menos perversos e nocivos à sociedade?

Se formos seguir a mesma linha de repressão, então os quatro atores globais, Fábio Assunção, Murilo Benício, Marcos Palmeira e Eduardo Moscovis, que recentemente estrelaram grandiosa campanha de uma marca de cerveja, deveriam sofrer algum tipo de retaliação por parte da TV Globo e do público que os sustentam. Defenderam ou induziram a um vício, que nas estatísticas, aparece como a principal causa de acidentes de trânsito, homicídios etc.

A situação é um momento ímpar para a sociedade discutir com profundidade a questão. Tanto pela vista grossa das autoridades com relação a bebidas e cigarro, quanto pela responsabilidade social que formadores de opinião devem ter quando expõem suas preferências e prazeres.

Walland Silva, São Luís


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