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CASO SONINHA
Maconha e mídia, qual é a droga?
A Época colocou quatro pessoas na capa com a manchete entre aspas: "Eu fumo maconha." Lendo a matéria, fica evidente que a manchete é apelativa, podendo ser tomada como um outdoor a favor da maconha. Hoje, terça-feira, a primeira página de O Globo traz a notícia da demissão de Soninha (uma das pessoas que estavam na capa). O depoimento dela à revista está longe, muito longe mesmo, de uma apologia à maconha. Fica a questão:
** Foi demitida pelo que disse ou pela manchete da revista?
Em medicina, existe a iatrogenia, quando o paciente adoece do tratamento que lhe é ministrado. Como revista e jornal pertencem às Organizações Globo, não poderíamos chamar esse tipo de notícia que cria notícia de "midiagenia"?
Afinal, maconha ou mídia, que droga demitiu Soninha?
Antonio Mello
Louvor à cultura totalitária
Independentemente da aceitação da tese da descriminalização defendida por Soninha (de que, nas circunstâncias atuais, discordo), coloca-se primeiramente a aceitação da premissa de que ela tenha o direito de externar suas opiniões e atitudes, inclusive se elas forem diferentes das defendidas pela direção da instituição em que ela ocupava uma função. Qualquer discussão racional de um problema em que participem profissionais de qualquer área só é possível com a aceitação desta premissa.
Um profissional de imprensa não pode sacrificar sua liberdade individual de expressão e se tornar 24 horas por dia um mero defensor do discurso oficial da instituição em que trabalha. Não permitir isso é promover uma cultura totalitária, dogmática, estranguladora da consciência crítica.
Lendo o documento redigido pela TV explicita-se ainda mais o tamanho do disparate cometido pela emissora: afirma o comunicado que a Cultura "não pode permitir a manifestação pública, por seus funcionários e colaboradores, de práticas atentatórias às leis vigentes". A direção emissora parece preferir que tais práticas permaneçam ocultas . O importante seria a manutenção de uma imagem oficial por parte de seus funcionários, mesmo que mentirosa.
Observa-se que nem a Justiça se incomoda com essas declarações. É bastante improvável que qualquer um daqueles que se declaram usuários na revista Época sofram qualquer espécie de condenação. Aliás, ressalta-se que em termos de infração pública e notória da lei, a direção da Cultura já fez história ao colocar descaradamente no ar um certo candidato em dia proibido pela Justiça Eleitoral, o que lhe valeu uma suspensão do TRE. No entanto, não consta que sua cúpula se autodemitiu por isso.
A nota da emissora ainda afirma que "não pode aceitar que o descumprimento (das leis) seja defendido por apresentador da TV Cultura". Neste ponto observa-se uma distorção das afirmações de Soninha que parece obedecer à lógica típica das práticas inquisitoriais: em seu texto na Época, Soninha afirma: "Não incentivo ninguém a fumar." Se o crime é usar a maconha e ela disse que não incentiva o uso, logo ela, em nenhuma hipótese, defendeu o descumprimento da lei. Não perceber ou omitir isso é sinal ou de uma idiotia extrema ou de uma extrema falta de caráter por parte do(s) redator(es) do texto.
Vitor Nocenzi, São Paulo
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