29/07/2003

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Edição de Marinilda Carvalho

Pegadas, pegadinhas, pegadonas. "Gostava do tempo em que pelo menos sabíamos que nossa mídia fedia e que podíamos confiar em duas ou três publicações", escreve o leitor Lucas Rodrigues. Resultado, "leitor tão perdido quanto as balas, que já foram parar até na novela das oito", acrescenta Marcos Lessa.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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MÍDIA INTERNACIONAL
Episódio grave

O assunto da semana é a tragédia Kelly-Blair-BBC. Os jornais brasileiros, como sempre, dão pequeno destaque a temas estrangeiros, preferindo factóides como o boné do Lula. Passei horas no site da BBC, no NYTimes, no Guardian, no Monde para ter um panorama mais amplo e mais profundo e, quanto mais informação, maior o meu alarme. Acho que, à parte o crime de matar ou levar alguém ao suicídio, está em jogo o núcleo duro do jornalismo: a fonte. Sem a confidencialidade da fonte, sem notícia – viveremos todos sob a dieta dos releases. É grave, por qualquer ângulo que se olhe o episódio. É bom lembrar que o Deep Throat do caso Watergate nunca foi revelado, sendo bem provável que esta fonte já esteja morta. O caso da NBC contra as empresas de cigarros foi, segundo o próprio Mike Wallace, o pior momento do 60 Minutes.

Ana Jover

 

Chuva de denúncias

Desde cinco anos atrás, quando ingressei na faculdade de Jornalismo, ouço professores bajularem a mídia internacional. Dizem que o NY Times é exemplo de jornal para os nossos pasquins. Que o Independent é um estandarte do bom jornalismo. Que o Qualquer Um Que Não Seja Brasileiro põe no chinelo a nossa imprensa. Mas ao ler este Observatório de vez em quando, e outros observatórios espalhados por aí, é possível detectar a falácia propagada por meus mestres. Não que estejam com más intenções, mas estes jornais internacionais são tão ruins quanto os nossos. Repórter do NY Times (Blair) afirma que inventou história. O Washington Times publica carta inventada não se sabe por quem (podem ter sido eles mesmos. Por que não?). O Post e o Times nova-iorquinos brigam para saber quem está inventando fatos para ganhar mais dinheiro com imóveis. O Le Monde, até então irretocável, viu-se inserido numa chuva de denúncias de matérias encomendadas.

Gostava do tempo em que pelo menos sabíamos que nossa mídia fedia e que podíamos confiar em duas ou três publicações.

Lucas Rodrigues

 

Nunca esclarecido

Impressionante! Nos últimos dias, quando dei uma passada rápida nas chamadas dos jornais, ouvi o nome Jessica Lynch e fiquei curioso tentando me lembrar de quem se tratava. Mas, acabei esquecendo. E olha que acompanhei (como muitos) a guerra, dia a dia! Já estava até discutindo estratégia militar, se o cerco ia ser rápido ou não, apostava numa reviravolta iraquiana – que, parece, ficou meio desenhada, naquela estranha "tomada" e "retomada" do aeroporto de Bagdá –, o que nunca foi esclarecido pela mídia, sendo que 600 dos correspondentes de guerra estavam dormindo com as tropas da coalizão, sendo, evidentemente, suspeita qualquer notícia do "front".

Moacir de Oliveira Camargo Jr.

 

O veneno mais potente

A meu ver, a imprensa pouco atenta é o veneno mais potente que pode acabar sendo usado até por gente da pior espécie, capaz de qualquer coisa. De levar gente poderosa de reputação ilibada ao suicídio ou condenar um inocente à morte para chegar ao poder. Somente um jornalismo investigativo muito desenvolvido, preocupado com a verdade, poderá enfrentar o poder dessa gente.

Benjamin Ribeiro

 

Matar, sim, de raiva

"Uma profissão de alto risco". Esse foi o grande aprendizado que, até o momento em que escrevo isto, experimentei com o acompanhamento do episódio. Sinto-me tentado a defender que o jornalista que investiga fatos com tamanha magnitude deva ter o direito de preservar o sigilo da sua fonte em todas as instâncias: para com seus superiores, poderes constituídos etc. Os profissionais de comunicação que chefiam os veículos, em comum acordo com os proprietários destes (públicos e/ou privados), devem desenvolver relações de extrema confiança com profissionais que desenvolvam uma atuação comprovadamente mais ética e democrática.

Acho que o jornalismo pode e deve matar, sim. Matar de raiva os poderosos que são denunciados e que caem no ridículo perante a opinião pública, por causa de um trabalho investigativo, sério, feito por um profissional de comunicação comprometido com os valores positivos do seu ofício.

Lorenzo Falcão, jornalista e escritor em Cuiabá

 

Faltam Vaz e Getúlio

Alberto Dines esqueceu de mencionar o caso do Corvo e do bessarabiano! Poxa, Lacerda e Wainer mataram um oficial da Aeronáutica [o major Vaz] e o presidente Vargas! Tudo bem, críticas à parte ao jornalismo que faziam na época, mas foram os responsáveis, de acordo com a ótica deste texto, pelo suicídio do presidente.

Carlos Alciati Neto

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