29/07/2003 3/10

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TV GROTESCA
Repúdio a "reportagem"

Abaixo segue e-mail encaminhado a Gugu Liberato e à produção do programa. Ontem, 27/7, no Domingo Legal, ele mostrou matéria feita no mínimo há dois anos sobre o trabalho infantil nos laranjais em Sergipe. O pior é que a reportagem mostrou o presidente do sindicato dos trabalhadores, Carlos Gato, como se ele estivesse vivo. Mas o sindicalista morreu em setembro de 2001. A matéria, em tom sensacionalista, traz dados desatualizados e mentirosos. Uma pena. Fatos dessa natureza só servem para manchar a imagem da boa imprensa, dos verdadeiros profissionais de comunicação que não jogam uma coisa no ar feita há mais de dois anos como se aquilo ainda fosse verdade. Como jornalistas, não podemos deixar que isso passe em branco. Merece ser avaliado e, no mínimo, repudiado pelos que fazem uma imprensa séria e decente. Abaixo, o e-mail enviado ao programa.

Cícero Mendes

Lamentável a reportagem exibida em seu programa agora há pouco sobre o trabalho infantil nos laranjais em Sergipe. Com intuito apenas de ganhar audiência, apelando para o sensacionalismo, vocês mostraram uma matéria fria feita, no mínimo, há dois anos, cometendo uma das maiores barrigadas da história da TV: mostrando uma pessoa morta como se ainda estivesse viva. Nem isso vocês se preocuparam em verificar. Fora isso, que é um absurdo sem tamanho, a matéria traz dados ultrapassados que não mais condizem com a realidade. A situação hoje é bem diferente, e a maioria das crianças e adolescentes já está na escola graças ao PETI. Essa reportagem – com o objetivo apenas de alavancar audiência – contribui para criar uma imagem negativa do estado, que nestes dois últimos anos se esforçou para tirar as crianças dos laranjais e colocar na sala de aula. Minha indignação foi tanta que liguei para a TV Atalaia de Sergipe e pedi para que corrigissem o erro gravíssimo que vocês estavam cometendo. Pena que nem toda a verdade foi colocada para o público brasileiro, apenas uma frase explicando que o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Citricultura que aparecia na reportagem, Carlos Gato, tinha sido assassinado. Nem quando ocorreu o crime vocês quiseram mostrar, pois assim os telespectadores notariam que estavam sendo enganados com uma reportagem que mostrava alguém vivo, mas que tinha sido assassinado em setembro de 2001, ou seja, há dois anos. Lastimável, repito, esse tipo de atração em seu programa. Pena que esse erro não será corrigido como deveria ser. Pelo menos, vejam se dá próxima vez vocês tomam mais cuidado ao veicular uma reportagem fria, desatualizada e completamente fora do contexto. Se querem prejudicar um Estado, façam com provas, com fundamentos, mas não joguem tão baixo assim. Cordialmente, Cícero José Mendes Leite, jornalista e telespectador, Aracaju

 

Inércia moral

A cidadania das pessoas deficientes fica em xeque quando a população assiste calada à ignorância encenada nas chamadas "pegadinhas", sem se indignar ou se envergonhar diante da bestialização da televisão brasileira comandada por pseudo-apresentadores. É absurdo, para não dizer execrável, o que acontece nas "pegadinhas". É preocupante e até enigmática a atitude do público, que permanece horas prostrado diante da telinha... cena que se reproduz casa a casa, revelando a inércia moral da sociedade. Pior... é que não sei o que aflige mais, os apresentadores ou a sociedade, haja vista os altos índices da audiência e a falta de consciência das empresas que apostam neste tipo marketing barato.

Vale tudo pela audiência... pelo dinheiro. Vale até reproduzir ou simular situações do cenário urbano: "Atravessando uma avenida movimentada, um cadeirante solicita ajuda aos transeuntes para transpor a via e no meio da pista se atira ao chão. Rapidamente o pretenso deficiente é socorrido, carregado até margem da avenida. Ao colocá-lo no chão, se levanta e anda até a cadeira, chamando àqueles que o auxiliaram de otários, pois queria apenas dar uma voltinha – é pegadinha." Risos... se não fosse trágico. Os otários somos nós. É vergonhoso. Estou tão indignado que não encontro palavras para protestar. É lamentável, absurdo, execrável. Mas o que mais me assusta é ver que a grande maioria acha graça. Graça do quê? Da dificuldade da limitação de um cidadão. Da decadência humana. Do achincalhe ao direito de cidadania. Cadê a Promotoria Pública? Cadê os direitos humanos? Cadê a indignação das pessoas? Cadê?

Agora entendo a violência, entendo a guerra, entendo tantas outras coisas. Parabéns, brasileiros. Nós merecemos. Merecemos ter Joões Klebers, Sérgios Malandros, Gilbertos Barros, Lucianas Gimenes, Gugus, Faustões e outros tantos perdidos nas grades das emissoras. Nesse ritmo... quem sabe ainda elegeremos o Bush presidente do Brasil. Acorda, Brasil!

Adelino Ozores Neto II, militar reformado, servidor público, jornalista, tetraplégico indignado

 

Pouca exigência

Não é de se admirar a proliferação das "pegadinhas" televisivas num universo de empobrecimento cultural, corroborado pela precariedade educacional. As vítimas "fortuitas" desse tipo de entretenimento revelam mais do que a ingenuidade que beira a simploriedade: revelam o tipo de telespectador (pouco exigente) que assiste ao ridículo a que são expostos os imprecavidos transeuntes, bem como a excessiva credulidade ou a carência de uma formação crítica (mínima que seja) por parte desses coadjuvantes, que se deixam abordar e envolver em situações grotescas, como por parte dos referidos telespectadores prontos a engolirem qualquer baboseira risível.

Não menos reveladoras da miserabilidade cultural são as "pegadinhas" impingidas àqueles que freqüentam os palcos televisivos – pseudo-artistas, capas de revistas masculinas, pagodeiros etc – que se prestam a isso, obedecendo à máxima do showbiz: afinal quem não é visto não é lembrado; e de quinze em quinze minutos de fama acumulam-se algumas horas (e um bom cachê ou um futuro contrato). Diga-se de passagem que o nível educacional e crítico dessa trupe não difere muito dos ingênuos cidadãos das ruas. Mas há também os que se aproveitam do poder encantatório da telinha (também de publicações ditas jornalísticas do mundo dos famosos) e com aguçado faro comercial se autopromovem como no recente caso de conhecido apresentador e dono de poderoso grupo do ramo da comunicação.

Se há aqueles que defendem que a televisão não tem a obrigação de educar ninguém (talvez nem tenha condições de fazê-lo) senão oferecer entretenimento e alguma informação, poderia ao menos fornecer boa informação e entretenimento de qualidade – já estaria contribuindo para evitar a idiotia generalizada. Mas o que se apregoa (e fica evidente pelas opções dos programas) é o velho embuste de que as redes de televisão só disponibilizam (e produzem) aquilo que o público quer ver. Nada melhor para elas do que uma produção de baixo custo, com pouco ou nenhum investimento técnico e uma audiência fácil, comprovada pelos índices do ibope.

Parece redundante afirmar a estreita relação entre a sociedade e os meios de comunicação, especialmente a TV. De certa maneira a sociedade reflete-se (sem reflexão) no mágico aparelho, por vezes num jogo de dissimulada perversidade, principalmente quando conhecemos o déficit educacional e crítico de nosso país. Os meios de produção, a formação de opiniões, a maneira como se constroem impérios de comunicação ou a maneira como são produzidos (e conduzidos) programas alienados e alienantes, as políticas adotadas em diferentes setores da sociedade, as relações desses segmentos, a manipulação de informações e dados estatísticos, bem como a crise de valores porque passamos estão altamente imbricados – e embora pareça óbvio repeti-lo é preciso fazê-lo para que não se corra o risco de se esquecer o óbvio.

Afinal consumimos os programas que satisfazem as nossas exigências – se estas forem parcas, se nossa curiosidade intelectual for reduzida, se nosso nível educacional for insuficiente ou nenhum e nossa capacidade crítica nula – assim serão os programas, indigentes e fúteis. Talvez o exercício democrático se dê nos mesmos moldes – quanto mais críticos, responsáveis e exigentes formos mais o deverão ser os políticos que nos representam. Na verdade trata-se de uma equação perversa que não justifica nem encobre nossas carências.

Pequenas mudanças como desejar educar-se ou melhorar o nível cultural podem resultar em mudanças significativas – esbarra-se novamente no problema educacional, claro – mas a simples iniciativa pessoal de querer e de buscar alternativas de entretenimento (boicotando, por exemplo programas como os referidos) ou medidas de aprimoramento cultural (quem sabe com adoção de políticas públicas que estimulem e incrementem a leitura, também com a participação do terceiro setor) já configuram um primeiro passo na direção de alguma criticidade em meio a tanto cretinismo televisivo e social.

Afonso Caramano

 

Feirantes e faxineiros

Achei o artigo do Paulo ótimo! É isso mesmo: ou os jornalistas se defendem ou vão acabar substituídos por motoboys, feirantes, faxineiros, porteiros e outros "donos da verdade". Vamos nos mobilizar para defender a nossa profissão.

L.R.Pimentel

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