29/07/2003 6/10

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FALSIFICAÇÃO ELETRÔNICA
"Blair" venceu

O Jayson Blair brasileiro saiu vitorioso na sua tentativa de difamar quatro jornalistas e este Observatório da Imprensa. Ainda que o artigo falsamente atribuído a Lúcio Flávio Pinto não tenha sido publicado na edição anterior do OI, uma decisão correta, o que resultou da troca frenética de e-mails e telefonemas entre o OI, o falso Lúcio, o verdadeiro e outros três jornalistas citados no "artigo" (Claudio Angelo, da Folha, Alexandre Mansur, da Época, e Klester Cavalcanti, do Terra) foram quase insultos, que deixarão mágoas entre todos durante um bom tempo. Recuperando a estória: há alguns meses, Lúcio acusou Klester, em artigo no OI, de ter inventado um seqüestro no Pará, para carregar em dramaticidade sua cobertura para a Veja. Lúcio também atacou uma certa visão preconceituosa que a imprensa do Sudeste pratica em relação à Amazônia. Klester não se defendeu no OI. Escreveu um texto reafirmando a sua versão na Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, uma lista de internet que existe há cerca de seis anos e onde 260 jornalistas discutem comunicação e ecologia.

O principal culpado da fraude no OI é sem dúvida o autor do texto falso. Ele cometeu pelo menos um crime, o de falsidade ideológica, fazendo-se passar por Lúcio, a quem atribuía um texto que difamava Cláudio, Alexandre e Klester, além de um dirigente de uma ONG conservacionista, a Conservation International. Mas, o OI também tem boa dose de responsabilidade no agravamento do problema – aliás, a segunda maior responsabilidade, logo após a do provocador. Li na madrugada de 20 para 21 de julho, horas antes de o OI ir ao ar, o texto falso. Desde as primeiras linhas duvidei que Lúcio houvesse escrito aquele artigo. O estilo, a profundidade e a complexidade da argumentação que Lucio normalmente aplica a seus textos no Jornal Pessoal são radicalmente diferentes. O Lúcio verdadeiro é muito melhor, e disso a redação – experimentadíssima – do OI precisava ter desconfiado desde o início.

O Lúcio verdadeiro costuma ser até prolixo no assunto em que é especialista: a crítica ao modelo predador de desenvolvimento da Amazônia. O Lúcio falso, limitadíssimo, apenas conseguiu reunir um conjunto de acusações infundadas, amarradas por português que está longe, muito longe, de expressar a capacidade do Lúcio verdadeiro. A certeza de que se tratava de uma falsificação deveria ter chegado ao OI logo que o Lúcio verdadeiro foi consultado. Ele, de imediato, negou a autoria do artigo. Pronto. Estavam dadas as duas condições necessárias para que o OI tivesse certeza de que o texto não era de Lúcio Flávio Pinto: a fraqueza de conteúdo e de estilo e a palavra de um profissional com cerca de 40 anos de atividade, sem registro de qualquer mácula ética em sua carreira.

Sou de um tempo em que a palavra de um homem de bem era atestado de boa conduta. Se tivesse atentado para esse detalhe, e enveredasse ao mesmo tempo pelo caminho da pesquisa técnica da origem da mensagem eletrônica (o OI não tem uma ligação institucional com a Unicamp, onde trabalham técnicos em informática tão qualificados que foram capazes de descobrir a fraude no painel eletrônico do Senado?) e da denúncia à Polícia da fraude, o Observatório estaria dando início a uma investigação que certamente resultaria em uma excelente reportagem investigativa. Em vez disso, o OI consultou os jornalistas citados, que naturalmente se enraiveceram quando souberam da fraude, e daí tirou um texto em que se limitava a elogiar a sua própria conduta no caso. Na prática, ao desviar o foco – da fraude para o auto-elogio –, terminou por atender aos anseios acusatórios do fraudador. Nesse momento, o "Blair" alcançou seu objetivo (aliás, será mal do nome? Ultimamente, os Blair têm mentido muito...). A fraude foi consumada. A simples menção dos insultados originou um mal-estar geral. Lúcio talvez tenha também contribuído para o clima ruim ao ameaçar com processo judicial aos editores do OI que ainda estavam na fase de checagem da autoria do artigo e não demonstravam muito vontade de publicá-lo. A resposta foi um endurecimento e radicalização de posições de partes que, até o início dessa confusão, eram parceiros regulares.

Todos – OI, Lúcio, Klester, Claudio e Alexandre – deveriam ter imediatamente pedido a abertura de inquérito policial para identificar quem se fazia passar pelo editor do Jornal Pessoal. Somente após essa providência ter chegado a termo algum artigo poderia ser escrito. Até aí era factóide criminoso e não deveria ser alvo de artigo do OI. O episódio demonstrou que o OI se guia por regras éticas rígidas. Mas, praticá-las fica muito difícil quando se sabe que todos os (poucos) editores do OI acumulam funções e têm diante de si uma tarefa semanal muitíssimo trabalhosa: editar uma revista (enorme) cujo objetivo é cobrar padrões éticos rígidos de outros meios de informação e de jornalistas. E isso, quando bem feito, dá trabalho e leva tempo, condições incompatíveis com acúmulo de tarefas típicas dos jornalistas brasileiros, principalmente aqueles que, como os do OI, precisam de respaldo para continuar a fazer uma análise bem crítica da imprensa. A tendência em casos de acúmulo de trabalho é a ocorrência de mal entendidos e erros que normalmente profissionais experientes não cometeriam. Não é assim que se desarmam bombas.

Carlos Tautz, jornalista, Rio de Janeiro

 

Vamos com calma

Parabéns, meus parabéns. Estou emocionado. Acho que de tudo isso, fora a aula de jornalismo investigativo, foi muito importante o aviso: cautela com os "meios" destas novas tecnologias e, vamos com calma com a pressa, pois, o calor da apuração, às vezes, queima. Mais uma vez, parabéns a todos.

Alexssandro Loyola Freitas, Mato Grosso do Sul

 

Erros absurdos

Lamentável a atitude do Observatório em relação ao jornalista Lúcio Flávio Pinto. Não sou paraense, mas conheço o trabalho do jornalista e realmente ele não merecia o que os senhores fizeram com ele. Não merecia e não merece. Não é preciso ser especialista em computação, mas quem sabe tão pouco sobre a internet não deveria usá-la como meio de comunicação profissional. Não falo por nenhuma multidão, falo por mim, mas acho que ninguém deixou de ver que vocês cometeram uma série de erros absurdos, como sustentar acusações baseadas em "suspeitas" que eram na verdade uma coleção de disparates e achismos. Errar todo mundo erra, mas desse jeito nem a "Folha de Matão do Oeste". Como se não bastasse, ainda vem o Dines escrever em tom triunfal que o "Observatório desarmou uma bomba". Ora, Dines, o Observatório não desarmou bomba nenhuma. O Observatório se tornou a própria bomba depois dessa. Sugiro que vocês não paguem mesmo ao Claudio Angelo. Guardem o dinheiro e contratem alguém que entenda de computadores, ou mesmo um jornalista para o Observatório. Se der, façam as duas coisas.

Vicente de Córdova, Fortaleza

 

Fica difícil julgar

Que rede emaranhada e confusa de investigação! São muitos os comentários, muitos os pontos de vista e fica difícil julgar. É preciso ler várias vezes para compreender. Acho, porém, que no fim das contas o Observatório agiu certo.

Raphael Perret, Rio de Janeiro

Leia também

Observatório desarma uma bomba – A.D.

A história de uma fraude – Luiz Antonio Magalhães, Marinilda Carvalho e Luiz Egypto

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