|
Edição de Marinilda Carvalho
O grande destaque desta edição ainda é a capa da Veja da semana passada, que sataniza o PT. O papel de Regina Duarte na campanha de José Serra também ganhou vários comentários de eleitores.
A nota triste desta eleição, "em que a esperança venceu o medo", nas palavras do presidente eleito, é a perda irreparável do leitor brasiliense. Com a saída de Ricardo Noblat do comando da redação, o Correio Braziliense corre o risco de voltar a ser um mero Diário Oficial – como seus pares do Distrito Federal –, que era nove anos atrás, antes da chegada do jornalista.
Que jornal o brasiliense vai ler?
***
Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.
***
OBSERVATÓRIO ELEITORAL
Reflexões sobre as paixões da eleição
Terminadas as eleições, período no qual se deixaram aflorar as paixões políticas reprimidas nesta era pós-1989, em que se declarar de esquerda ou de direita (apesar de que neste último pólo seja raro quem se revele) passou a ser considerado coisa do passado, podemos fazer muitas reflexões. Por exemplo, que nossas instituições democráticas estão num caminho de plena consolidação. E sabemos que tal consolidação, principalmente em se tratando de uma verdadeira democracia, só será obtida quando os valores democráticos fizerem parte da consciência da população.
E é este ponto que quero focalizar. Antes, porém – e desde já alertando que o que pretendo não é fazer apologia e nem discorrer sobre méritos ou deméritos de Lula e do PT –, será preciso discutir sobre um aspecto da campanha eleitoral do candidato derrotado e de manifestações de diversas pessoas contrárias à candidatura do presidente eleito, além da postura que teve a imprensa em geral diante dele. Num contexto em que pela primeira vez na história do país um partido de esquerda tinha uma chance claríssima de chegar ao poder, e em que os olhos de todo o mundo se voltam para a conjuntura política do Brasil, através da imprensa pudemos ouvir palavras e discursos que nos possibilitam tirar uma conclusão sobre uma mudança e uma permanência no jogo político nacional.
A principal permanência diz respeito ao discurso de muitos que, posicionando-se contra o candidato petista, ainda que declarando uma "postura crítica", acabaram deixando transparecer o mesmo tipo de manipulação elitista e autoritária que, se situada ao longo de todo o período transcorrido entre 1917 (Revolução Russa) e 1989 (queda da União Soviética), poderíamos classificar de anticomunista. Embora não seja mais o comunismo o inimigo declarado, muitos dos recursos do anticomunismo foram postos em prática.
Primeiro, foram as manipulações de alguns fatos dramatizados de forma a criar uma imagem negativa de Lula e do PT. O mais importante deles foi a associação da alta do dólar a um suposto temor dos "investidores" externos de um candidato "despreparado" e de "idéias ultrapassadas". Além da proposital subestimação de outros fatores (como a turbulência política e econômica do cenário mundial), mascarou-se o fato de que há uma diferença entre capital de investimento e capital especulativo. Foi este último, que busca lucros rápidos no mercado financeiro virtual, o responsável pela alta do dólar. Mascarou- se o fato de que o Brasil, sendo um dos maiores mercados do mundo e com um evidente potencial de crescer ainda mais, não pode de forma nenhuma ser isolado do mercado mundial, independentemente de quem o governe. Isto porque o capitalismo, para sobreviver, precisa estar sempre em expansão, em busca de novas oportunidades de investimento. Como abandonar o Brasil? Por causa da eleição de um candidato de esquerda, quando no nosso caso isto vem significar a solidez de nossa democracia (tida como fundamental para a sustentação de uma economia de mercado)?
O perigo seria se o próximo presidente fosse um tremendo incompetente. Nesse sentido, foi declarado antecipadamente o fracasso do futuro presidente caso ele fosse Lula. Mas, não eram os esquerdistas os "teóricos do caos"? O "argumento" utilizado, além de lembrar sua falta de experiência administrativa (pois toda a experiência política parece não valer nada), foi aludir à falta de um diploma acadêmico, numa demonstração do velho elitismo de sempre. (A propósito, aqui podemos lembrar do episódio do vinho de seis mil reais: Lula, por ser de esquerda e de origem humilde, não tem o direito de degustar uma bebida tão cara, mesmo tendo sido um presente de seu marqueteiro. Quer exemplo de preconceito mais explícito?).
Não foi lembrado pelos anti-Lula que o doutor em Sociologia Fernando Henrique Cardoso, como presidente, teve – como se diz – a "história na mão" e a jogou fora (não quero dizer aqui, pois entraria no esquema maniqueísta e irracional, que o governo FHC foi um desastre), ao privilegiar a emenda da eleição – e com direito a compra de votos, sem mencionar outras tantas estranhezas pouco esclarecidas que seria até tedioso lembrar aqui.
Voltando à questão da "crise econômica" (coloco entre aspas para lembrar o uso abusivo da expressão, como bem observou no OI o jornalista Luiz Gonzaga Motta – "Crise, que crise, cara pálida?, edição nº 192), mascarou-se também o fato de que, se nossa economia é tão dependente de capitais externos, isto se deve à política econômica adotada nos oito últimos anos, quando o PT era oposição. Outra importante manipulação foi a associação de um provável governo petista à crise política na Venezuela e à crise político-econômica na Argentina. No caso da Venezuela, foi aproveitado o fato de integrantes do PT terem declarado apoio a Chávez para fazer-se uma tosca equiparação do modelo político praticado pelo presidente venezuelano com o que o PT colocaria em prática no seu governo. E simplesmente foram desconsideradas as profundas diferenças não só entre o caráter populista do governo Chávez e o discurso de conciliação adotado pelo PT nestas eleições como entre nossa conjuntura política dos últimos 10 anos e a do mesmo período no país vizinho.
No caso da Argentina, jogou-se toda a culpa da crise em De la Rúa, mascarando o fato de que sua gênese foi o populismo cambial praticado pelo governo Menem (o mesmo praticado pelo nosso governo passado nos meses anteriores às eleições de 1998), além de sua política econômica geral (o mesmo modelo praticado pelo nosso governo passado). O que interessava aos inconfessáveis partidários do candidato governista era associar Lula a um fracasso e a uma incompetência subliminarmente colocados como inerentes a qualquer governo de esquerda. Desconsideraram-se, enfim, as profundas diferenças entre as esquerdas dos dois países e o brasileiro Partido dos Trabalhadores.
O segundo recurso utilizado foi a associação simbólica e a construção de um imaginário sobre a história, que visa a legitimação da hegemonia do dito neoliberalismo. Depois da queda da União Soviética, a direita em todo o mundo passou a se ver como a portadora da verdade, como se suas ações e idéias passassem a representar a própria marcha triunfante da história. Assim, no Brasil, se antes a disputa desses "democratas" era contra os comunistas, num embate da Ordem contra a Desordem, do Bem contra o Mal, agora, quando vêem seu poder ameaçado (mesmo dentro de uma disputa democrática que dizem defender), os direitistas e anti-esquerdistas declaram como inimigos as "forças do atraso".
Além de colocarem os esquerdistas como aberrações deslocadas no tempo, ainda utilizam argumentos antigos do repertório anticomunista, como alertar para o perigo revolucionário representado, de acordo com eles, pelo "braço armado do PT", o MST, que espera o momento certo para juntar as forças com os outros desordeiros da CUT. E a equipe do candidato Serra chegou mesmo a elaborar uma música na qual há um alerta sobre a bandeira vermelha do candidato opositor (coisa de anticomunista doente que vê o perigo de revolução em cada paninho vermelho).
Diante do claro exagero alarmista da declaração da atriz Regina Duarte (que foi classificada de terrorismo, embora este termo esteja correndo o risco da banalização ideológica), os antipetistas aproveitaram a também exagerada reação dos petistas para associar um futuro governo do PT à volta do autoritarismo e mesmo de um totalitarismo vermelho. Falaram de "patrulha ideológica". Mas, no fim das contas, não foi um patrulhamento ideológico o que eles fizeram durante toda a campanha da eleição? Só faltou dizer que Lula iria, se eleito, colocar famílias de indigentes em nossas casas, como afirmou Fernando Collor nas eleições de 1989. Este foi o nível da "desconstrução" que o candidato Serra prometera fazer na figura de Lula? Com certeza Serra não merecia passar por esse papelão.
Diante de todo esse palavrório, discursos e declarações, qual foi a postura que teve a imprensa? Ainda que eu não tenha nem de longe acompanhado um número suficiente de veículos de imprensa para fazer um estudo aprofundado da questão (e esta não é mesmo minha pretensão), pude perceber que, se nos períodos de surto anticomunista a imprensa teve um papel ativo na caças às bruxas (a propósito, ver o livro, lançado este ano, Em guarda contra o "Perigo Vermelho"; o anticomunismo no Brasil (1917-1964). São Paulo, Perspectiva, de Rodrigo Patto Sá Motta. O historiador utilizou fartamente jornais impressos como fonte de pesquisa), hoje ela se posicionou de forma passiva, apenas reproduzindo os discursos de ambos os lados.
Talvez será difícil sabermos se isso se deve a uma apatia ativa (pois o uso abusivo do termo "crise econômica" serviu para que os adversários de Lula fizessem suas associações de um futuro tenebroso em caso de vitória dos petistas, embora estes também não escapassem do uso do termo, obviamente com propósitos também eleitorais) ou se a imprensa temeu parecer estar se intrometendo na campanha presidencial. Porém, cabe lembrar que, quando ela lembrou do fato de que a Constituição não obriga aos postulantes a um cargo público a posse de diploma, ninguém a acusou de estar defendendo a candidatura Lula. No caso da "crise econômica", creio eu, ficou clara a necessidade (ou mesmo o dever) de que a imprensa deveria ter assumido um papel esclarecedor. Deixo esta questão como proposta de discussão para as próximas eleições.
Bem, chegou a hora de falar sobre a mudança que pudemos perceber no jogo político brasileiro. Ela se resume nos números: Lula eleito com mais de 60% dos votos. Não quero dizer com isso que Lula era o melhor candidato, e nem negar que ele tenha feito promessas além do ponto (o que é característico de qualquer candidato) – e sem fechar os olhos sobre o papel excessivo quem tem hoje o marketing político. Mas, apenas constatar que a cabeça dos eleitores parece estar evoluindo a ponto de não se deixarem levar por discursos que visavam antes de tudo a desqualificação prévia de um candidato por um discurso preconceituoso e ideológico, embora escondido atrás de uma retórica pseudo- racionalista.
A moral (ou ironia) da história, portanto, e para finalizar, é que foram os direitistas e anti-esquerdistas que pareceram estar "presos ao passado".
Victor de Oliveira Pinto Coelho, mestrando em História da UFMG
|