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OBSERVATÓRIO ELEITORAL
Terror constante
A revista Veja, em recente matéria de capa, me fez lembrar um conceito de Hanna Arendt: o terror constante, como forma de controle social. Como um panfleto provindo de alguma entidade à la TFP (Tradição, Família e Propriedade), a superconservadora entidade católica que vê o Brasil sempre a um passo do comunismo, a Veja destrói o título "revista". Em matéria de uma fonte só, os vermelhos do PT, o repórter desfila uma série de argumentos sem embasá-los, quase como um caráter de show: mais importantes que o conteúdo da frase é a forma como ela se apresenta e o impacto que produz no leitor. Aparenta que o repórter já foi para a rua com a matéria na cabeça; as fontes só lhe servem como último refúgio de credibilidade. Tal qual uma linha direta da campanha Serra, assume um discurso de extrema-direita, semelhante ao politicossauro Enéas, termo cunhado pela própria Veja como forma de referir-se a idéias atrasadas. Aliás, seja lá o que idéias atrasadas signifiquem... Isenção seria uma delas?
Há de se concordar que saber a composição do partido que está prestes a ocupar a Presidência é algo interessante. Mas panfletarismo barato não é necessário. Porém... A surpresa seria maior caso Veja se dedicasse a fazer uma matéria tal qual lhe cobramos. O pseudojornalismo feito pelo veículo de comunicação da Editora Abril destacou-se nos anos FHC como um porta-voz do contra-senso, "mais realista do que o rei".
Suas defesas da privatização e do câmbio fixo foram mais veementes do que as de Gustavo Franco e Malan. Seu projeto de desqualificação de adversários foi mais ousado do que os "neobobos" de FHC. Basta ver em que termos tratou as candidaturas de oposição em 1994, 1998 e 2002. E mesmo quando se referiu a temas como a Campanha da Fraternidade de 1999, da CNBB, que falava sobre desemprego. Chamar os bispos de medievais, atrasados, que não entendem nada de nada foi pouco.
Seria muito surpreendente que de uma hora para outra o panfleto decidisse ser democrático. Afinal, o terror constante garante leitores crédulos, sempre dispostos a embasar seus preconceitos. Um discurso fácil, baseado em supostos pares de opostos, como "progresso e atraso", "liberdade e socialismo", serve mais como simplificação do que ao caráter informativo necessário a uma revista. O abuso de adjetivos e de ironias acrescentava a dose de familiaridade. "Os olhos do Brasil", slogan evocativo de pelo menos algum compromisso, termina o serviço.
Sem medo de assustar, Veja se comporta como um partido. Obriga os leitores, constrange-os, incita-os a serem seus correligionários. Esse é o seu maior crime, e pelo qual, talvez, tenhamos o único direito de lhe cobrar, sabendo o que ela se propôs a fazer nos últimos anos.
Leandro Pereira Beguoci
Tradição anticomunista
A propósito da matéria de Luiz Weis sobre a capa da Veja (o monstro petista de três cabeças), gostaria de sugerir a leitura de meu livro "Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil" (Perspectiva, São Paulo, 2002). Num dos capítulos do livro analiso a iconografia anticomunista produzida no Brasil, que freqüentemente se utilizou do imaginário demoníaco para atacar os comunistas. Nesse sentido, a caricatura publicada pela Veja é caudatária de uma longa tradição que deitou raízes no imaginário social brasileiro.
Rodrigo Sá Motta, professor do Departamento de História da UFMG
Saudações do curral
A isenção não existe, e esperem para ver o que vai acontecer depois do Lula eleito. Os "formadores de opinião" (isto é ótimo! as pessoas não formam opiniões sozinhas. Precisam de revistinhas semanais chinfrins para descobrir o que o senso comum pensa!) faão campanhas semanais para derrubar a popularidade do Lula, ainda que sustentada por 58% da população, até chegar ao caos institucional e dizer "viu? nós avisamos! A única liberdade possível é aquela que o mercado nos proporciona. Amém".
A ilusão de que vivemos em democracia vai cair um dia. Só é eleito neste país quem tem dinheiro. O voto continua sendo censitário. E Weber acertou quando disse que o melhor sistema para o povo eleger sua elite era o democrático. Assim, pode-se gastar dinheiro com marketing para convencer os populares a votar neste ou naquele. O Lula que se prepare! Se for eleito, enfrentará uma campanha ferrenha contra ele. Será semanalmente criticado por aqueles "formadores".
A democracia só pode triunfar se todo o povo for educado e tiver acesso às altas discussões, hoje restritas à universidade. Enquanto isso, continuemos a nos deliciar com estas ilusões de participação popular. É bom ter a ilusão de que se pode influir em alguma coisa. Saudações do curral, povo.
Márcio Gama
Já cancelei a assinatura
Nota 10 para os comentários e para a lucidez. Por esse e outros motivos que vêm levando a revista Veja a uma degradação jornalística é que encerrei a minha assinatura de já alguns anos!
Margarida Pressburger
Aposta no caos
Será que editores, redatores e jornalistas que pensaram, ajudaram e trabalharam na última edição da "revista" Veja intitulada "O que querem os radicais do PT", e na redação das reportagens intituladas "Vai ser preciso segurar" e "Transição na crise" aceitam mesmo a democracia e têm o compromisso de lutar por ela? Ou têm mesmo é vocação para profetas do caos? Que é que isso minha gente? Sejam mais otimistas e menos egoístas, mais humildade e menos prepotência (cabeças de dinossauros?)... Certamente vocês que fazem a Veja não gostariam de ver como diretor de finanças da empresa "um suposto amigo" de "um suposto brilhante intelectual", responsável "diretamente ou indiretamente" por deixar um rombo de mais de meio trilhão de dólares nos cofres de tão "prestigiosa e confiável" instituição jornalística... Dom Helder Câmara já dizia: "Engana- se quem pensa que o povo não pensa, o povo pensa." Se for da vontade de Deus e da vontade da maioria da nação (como reza a lei do Estado democrático) que o brilhante torneiro mecânico seja eleito, mesmo tendo sido tão "demonizado" nos últimos dias por uma minoria de "supostos intelectuais, supostamente amigos do amigo do suposto brilhante intelectual contratado para dirigir a nação, sem que este último tenha tido a competência necessária para alcançar os louros de um suposto e tão decantado sucesso na direção da estabilidade econômica e na resolução ou amortização de tão graves problemas sociais até então supostamente insolúveis".
Desejo de todo o meu coração que acerte em seu governo, não por ele próprio, mas pelo bem do Brasil. Quem aposta no medo por preconceito ou por pragmatismo egoísta aposta no fracasso. Ou, quem sabe, deseja o fracasso. Tal medo não combina com democracia, combina mesmo é com covardia (e covardia no duplo sentido). Desculpem-me, não tenho a intenção de ofender ninguém, mas enquanto cidadão brasileiro que aposta, crê em dias melhores tive a impressão de que a Veja aposta ou deseja o fracasso do governo de Lula. Então refleti um pouco mais: Será que a Veja seria capaz de agir ou trabalhar no sentido da materialização do caos? Suposições?
Daniel Falcão Santos
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