4/11

Envie para um amigo  Procure no arquivo

OBSERVATÓRIO ELEITORAL
Veja e a ética na imprensa

Mais uma vez a revista Veja procura conduzir a opinião de seus leitores, utilizando recursos que considero antiéticos para um meio de comunicação, confundindo liberdade de imprensa com falta de responsabilidade no seu papel de produção e circulação de informações. A capa da Veja da semana passada fazia alusão às correntes radicais do PT associadas às doutrinas socialistas e comunistas, a partir das figuras de Karl Marx, Lênin e Trotski. Não haveria problema se Lula já tivesse sido eleito. Mas estamos justamente na semana decisiva do pleito, que apesar de tudo apontar para uma vitória tranqüila de Lula, esta capa pode influenciar na decisão de votos dos eleitores, prejudicando a candidatura do candidato petista.

E para piorar, a revista ainda coloca na capa uma chamada falando do risco do calote da dívida, contrariando tudo o que o candidato disse em toda a sua campanha, que afirmou categoricamente que pretende honrar todos os compromissos do governo brasileiro. Inclusive, essa postura faz parte de sua estratégia eleitoral, que visa diminuir o preconceito e o medo do eleitor em relação a Lula.

Como um meio de comunicação, a revista Veja, tem o compromisso ético com a informação, devendo atuar com isenção de valores em sua cobertura, mas o que estamos assistindo é a uma cobertura tendenciosa, afinal a capa de Veja desta semana acaba servindo para alimentar o medo de um possível governo PT, que existe no imaginário popular, principalmente quanto as correntes mais radicais existentes no partido, papel este que deve ser desempenhado pela campanha do candidato rival e não por uma revista semanal.

A questão ética da imprensa é sempre um tema polêmico, assim como a própria imprensa, que sucessivamente utiliza a argumentação da liberdade de imprensa quando é acusada de estar agindo de forma parcial, favorecendo determinada pessoa. Isso nos remete justamente a uma das principais características dos meios de comunicação: o espetáculo, toda a polêmica e discussão gerada em torno de determinados tópicos favorecem o próprio canal de comunicação, despertando a atenção do público para assuntos que muitas vezes estavam passando despercebidos pelo grande público e a controvérsia gerada em cima de determinada reportagem ou capa ajuda a aumentar as vendas e tornar famosas as pessoas envolvidas.

As capas da Veja nesses últimos anos buscam chamar a atenção do público, que pela curiosidade acaba por comprar a revista. Esta estratégia de marketing editorial é uma das características centrais do atual mercado, onde o espetáculo está substituindo o conteúdo das informações. Entretanto, podemos notar uma situação paradoxal, pois a Veja conquistou sua posição na sociedade brasileira justamente por seu compromisso com a informação imparcial, ajudando a construir o processo de redemocratização do país, principalmente com reportagens investigativas, que permitiram desmascarar uma série de irregularidades que acontecem no Brasil, criando uma credibilidade para a publicação, que se tornou um dos grandes referenciais da sociedade brasileiras.

A capa da Veja e suas reportagens são pautas para conversas da população brasileira, principalmente pelos formadores de opinião. Por outro lado, a guerra comercial do mercado editorial empurra a revista para uma nova dinâmica, preocupada em atrair novos leitores e aumentar seu faturamento. Estamos assistindo nos últimos anos à popularização de suas reportagens, que passam a adotar um estilo mais espetacular que seduza um número maior de eleitores, colocando seus editores em saia justa. De um lado a revista tem compromisso com a qualidade, por outro precisa conquistar novos leitores e aumentar seus lucros.

A ética nos meios de comunicação é uma questão extremamente complexa, principalmente porque envolve empresas comerciais que precisam gerar lucros para sobreviver no mercado, adotando práticas que do ponto de vista da ética estão erradas, mas são necessárias para seu funcionamento comercial.

É claro que não defendo a postura adotada pela Veja, pelo contrário, sou extremamente crítico, mas procuro compreender o problema em sua estrutura e apontar para a crise social em que estamos vivendo: os compromissos com a ética e a sociedade estão sendo deixados de lado e se tornando figuras de retórica política e comercial. Estamos vivendo na sociedade do espetáculo, individualizada e consumista.

Cláudio Luis de Camargo Penteado

 

Pelo leitor ou por Serra

Ajudem-me! Estou em dúvida: qual foi a real intenção da Veja? Um serviço ao leitor ou uma mãozinha à campanha do Serra, na reta final do segundo turno?

Antonio de Jesus, Cascavel, PR

 

No coro do repúdio

Venho juntar-me ao coro dos que repudiam a matéria com que Veja tentou demonizar o PT. Aliás, não é a primeira. Duas semanas antes a Veja cuidou de manchar a imagem de Lula, pintando-o como um "oportunista" que não pensa por si próprio. Naquela semana a Abril zelou para que seus assinantes recebessem a revista no sábado (véspera do primeiro turno), e não no domingo, como de costume. Parabéns pelo artigo de Luiz Weis.

Luis Eduardo Pontes, João Pessoa

 

Cérbero, guardião do inferno

O cão da capa tem três cabeças e cauda de dragão, assim como Cérbero, o mitológico cão guardião do inferno (Reino de Hades). Este cão permite que as almas entrem mas não saiam do reino. Ou seja, é um guardião ao contrário. Alguns links para compreender melhor a história do personagem: <http://www.dogtimes.com.br/cerbero.htm>; <http://meltingpot.fortunecity.com/malta/242/cerbero.htm>.

Há também uma cena desconcertante na obra Divina Comédia, de Dante Alighieri, a respeito, que ocorre no Canto VI do Inferno, conforme esta nota:

6.1 Os gulosos: O prazer solitário concedido pela gula é ampliado no inferno onde os gulosos jazem solitários na lama, sem comunicação com seus vizinhos. O contrapasso pelo prazer e o conforto de comer alegremente além dos limites quando viviam é o desconforto de uma dolorosa chuva gelada e a presença de Cérbero, que, com seu apetite insaciável, os morde pela eternidade.

Angelo Martins

Leia também

A degradação da Veja – Luiz Weis

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe