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OBSERVATÓRIO ELEITORAL
IBEC, mídia e candidatos

Alexandre Martins escreveu artigo no OI do dia 16/10 tratando dos espaços dados pela imprensa – durante a primeira semana da campanha do segundo turno – aos presidenciáveis. Serra ocupava muito mais espaço. Escrevi carta na qual fazia uma réplica: o ponto principal era a capacidade de os candidatos produzirem notícias. Ou seja, são os candidatos que ocupam espaço na imprensa; não a imprensa que dá os espaços.

Agradeço encarecidamente a Alexandre Martins a consideração em sua resposta. Na sua resposta, ele faz duas ponderações importantes. Primeira, no item 3: que a auditoria do IDEC considera, sim, o papel das assessorias dos candidatos. Termina com um pequeno truísmo constatado pela auditoria do IBEC: entre as assessorias, "quem trabalhou melhor" "foi quem conquistou mais espaço".

Segunda ponderação que considero importante, feita no item 6: "Não há, nunca houve e jamais haverá qualquer tipo de análise por parte do IBEC que diga respeito às intenções dos veículos de comunicação, muito menos dizer, insinuar ou supor que houvesse uma grande conspiração em benefício de qualquer candidatura à Presidência da República".

Duas passagens do texto original merecem ser lembradas: "A vantagem qualitativa e quantitativa dos conteúdos veiculados pela imprensa [...] é de Serra". No parágrafo seguinte: "A preferência da imprensa por Serra [...]". O texto do dia 16 omite o papel dos próprios candidatos – e de suas assessorias, ou daqueles através de suas assessorias – em ocuparem espaço na imprensa. Existe uma diferença considerável entre, de um lado, dizer que um candidato ocupa mais espaço na imprensa que outro e, de outro lado, dizer que a imprensa dá mais espaço para um candidato do que para outro. O texto original de Alexandre Martins não afirma "intenções dos veículos de comunicação" – como observa ele na tréplica, lembrando que o IBEC não trata mesmo disso –, mas afirma textualmente uma "preferência da imprensa" por um candidato, o que mais do que sugere uma espécie de parcialidade, ou mesmo uma ausência de neutralidade.

Além disso, o título que o OI deu ao artigo de Alexandre Martins aumenta consideravelmente o problema. "A imprensa escolheu seu voto" – o título em questão – antecede as afirmações do texto sobre a "preferência da imprensa por Serra" e de que os conteúdos veiculados dão vantagem a um candidato, ampliando ainda mais a idéia de que o texto sugere que a imprensa está sendo, em algum grau, anti-ética ao conferir mais espaço a um candidato do que a outro. Alexandre Martins estaria usando agora a indefinição, em seu artigo, desse grau para dizer que não disse o que escreveu – a preferência da imprensa. Por um lado, talvez Alexandre Martins possa reclamar do título que o OI deu a seu artigo, mas, por outro lado, esse título pode ser sugestivo de como o artigo foi (e pode e talvez deva ser) lido e entendido.

Concordo com Alexandre Martins: a simples análise dos índices IBEC efetivamente não permite, mesmo, fazer afirmações sobre as intenções dos veículos de comunicação. Mas seria preciso fazer uma análise mais apurada dos processos que levam um candidato a ocupar mais espaço que outro. Sob risco de – não esclarecendo que o que o artigo original chamou "preferência da imprensa" por um candidato é resultado de um processo mais complexo que uma suposta "intenção de voto dos veículos de comunicação" – parecer que o texto, ao afirmar a preferência da imprensa, diz que a imprensa adota uma postura desigual anti-ética. "Preferência da imprensa" está diretamente relacionado à idéia de que a imprensa escolheu seu voto. Se o artigo não diz que a imprensa escolheu seu voto, é, na melhor das hipóteses, vago de maneira mais que suficiente para parecer que diz.

Ou seja, se não permite inferir as intenções dos órgãos de comunicação, a análise dos índices IBEC também não permitem inferir sobre a "preferência da imprensa". A não ser que abranja e defina clara e cuidadosamente os processos que levam a ocupação desigual de espaços. Como o artigo deixou de fazê-lo (e a consideração dos índices não permitem mesmo fazê-lo), inferiu de forma abusiva.

Efetivamente, a análise sugere que, a não ser que a imprensa dê coberturas jornalísticas de modo a que os índices IBEC dos diferentes candidatos sejam iguais, há falha – para não dizer parcialismo – nas coberturas. O meu argumento é que, se um candidato faz mais para produzir índices IBEC mais altos, então o correto no que se refere às coberturas é manter essa diferença. Isso não denota uma preferência da imprensa nem tampouco que a imprensa confira uma vantagem a algum candidato. Creio que haja, na análise do diretor do IBEC, uma inversão de causa e efeito. Na sua leitura, os índices IBEC são conseqüência dos conteúdos veiculados pela imprensa, enfim, de uma preferência da imprensa. Minha formulação é que os conteúdos veiculados são resultados dos espaços conquistados pelos candidatos – de diferentes maneiras, que não se esgotam no trabalho das assessorias dos candidatos.

Nas semanas finais da campanha do primeiro turno, o IBEC mostrava que Lula e Serra tinham índices mais altos que os adversários e, assim, as análises dos índices IBEC sugeriam que Serra e Lula passariam para o segundo turno – desta maneira, esses teriam a "preferência da imprensa". Pelo resultado do primeiro turno, parece que a análise estava certa. Mas há aí a inversão da relação de causa e efeito. Nessa leitura, como os índices IBEC de Lula e Serra eram mais altos, isso indicaria que esses tinham a preferência da imprensa e, assim, seriam os que passariam para o segundo turno (na sua resposta à minha réplica, Alexandre Martins faz referência a esse acerto das pesquisas do IBEC). Essa leitura sugere, em contrapartida, que Ciro Gomes caiu na preferência das intenções de voto porque não tinha a preferência da imprensa.

Ainda: o IBEC fez análises do primeiro turno das eleições presidenciais francesas, prevendo a passagem de Le Pen para o segundo turno? Porque, na análise que Alexandre Martins faz dos índices IBEC, no primeiro turno francês, Chirac e Le Pen teriam que ter índices IBEC (ou índices similares ao do nosso IBEC) superiores ao de Jospin. Mas mesmo que Jospin talvez tenha tido um índice similar ao do nosso IBEC muito baixo, devido às críticas sofridas por sua campanha feitas à esquerda, certamente a passagem de Le Pen para o segundo turno (ao contrário do que se esperava) não refletiu a "preferência da imprensa" no primeiro turno pelo candidato ultra-direitista ao candidato socialista. Le Pen necessariamente teria um índice como o do IBEC baixíssimo, porque o índice conta a incidência do conteúdo positivo e o negativo para um candidato em relação ao total de conteúdos dados a todos os candidatos – o que assegura um índice baixo.

Ainda, uma questão relevantíssima: o gráfico das medições diárias dos índices IBEC, que Alexandre Martins publicou em seu artigo, mostra claramente que nos quatro dias imediatamente depois das eleições houve um equilíbrio e mesmo uma alternância entre os índices IBEC de Lula e de Serra. Não é preciso ser um estudioso de cálculo avançado para perceber que as duas áreas formadas, nesses quatro dias, entre as funções dos índices IBEC de cada um dos candidatos e o eixo horizontal são muito próximas. No dia 7, o índice IBEC de Lula é mais alto que o de Serra. No dia 8, o contrário, mas a diferença a favor de Serra nesse dia é menor do que a diferença a favor de Lula no dia anterior. A diferença no dia 9 em favor de Lula é totalmente invertida no dia 10! No entanto, o texto de Alexandre Martins de modo algum sugere isso, embora seja facilmente percebido por um exame simples, minimamente apurado, do gráfico!

Assim, o artigo se diz baseado nos índices IBEC da "primeira semana de cobertura do segundo turno"; no entanto, essa "primeira semana do segundo turno" tem seis dias e abrange os dias 5 e 6 – para não falar do dia 7, que é mais um dia de cobertura sobre as votações do primeiro turno do que um dia de cobertura do segundo turno. Alexandre Martins teve que puxar a "primeira semana da cobertura do segundo turno" até o dia 5 – incluindo também, é claro, o dia 6, dia do primeiro turno da eleição – para poder dar um índice IBEC de Serra muito alto nessa "primeira semana". E, no entanto, nenhum esclarecimento, no artigo, sobre por que considerar como semana do segundo turno um período que começa na véspera do primeiro turno e, ainda, abrange o dia do próprio primeiro turno.

Preterir dados que não são a favor de suas conclusões (ou sua teoria ou interpretação) é uma coisa. Outra coisa, muito diferente, é preterir dados – como no caso do equilíbrio e alternância dos índices de Lula e Serra entre os dias 7 e 10 – que são frontalmente contrários às suas conclusões (ou sua teoria ou interpretação): aí é negligência. Igualmente no que se refere a manejar dados – como considerar os dias 5 e 10 de outubro como a "primeira semana da cobertura do segundo turno". E negligenciar dados (preterindo ou manejando) de maneira grosseira (afinal, eu não precisei me aprofundar na análise dos índices IBEC para perceber isso tudo que, neles, é cristalino) deve, então, ser visto sob grave suspeita de ser negligência manipuladora.

Enfim, a preferência da imprensa não pode ser inferida pelos índices IBEC. Os índices podem aferir quem ocupou mais espaços na imprensa – mas aí os índices estão aferindo apenas o que eles são mesmo (aferidores do espaço na imprensa). As interpretações meramente baseadas na análise de tipo econométrica dos índices IBEC negligenciam os fatos políticos e jornalísticos, tornando-se assim manipuladoras e parciais.

Na verdade, a dificuldade da análise dos índices IBEC é devido ao fato de que os índices dificilmente saem dos truísmos. Como o de que, no que se refere aos trabalhos das assessorias dos candidatos, "trabalhou melhor" "logicamente quem conquistou mais espaço". Isso não é segredo de Tostines: trabalhou melhor quem conquistou mais espaço ou conquistou mais espaço quem trabalhou melhor?

Aquele artigo referia-se à "primeira semana da campanha do segundo turno": naquele período, dizia Alexandre Martins, Serra tinha índices IBEC mais altos, o que, portanto, previa o diretor do IBEC, "vai interferir, e muito, em mudanças significativas no quadro eleitoral". Tudo e qualquer coisa que acontecesse depois daquele período poderia ser lido, pelo diretor, como resultado de "mudanças significativas no quadro eleitoral". Mas, afinal, isso não esclarece muito.

Na verdade, se nas semanas finais do primeiro turno podia-se sugerir (ou mesmo afirmar) que Serra e Lula eram os candidatos favoritos para passarem para o segundo turno, era porque as pesquisas de intenção de voto sugeriam isso – e não por causa da pesquisa dos índices IBEC. Inversão de causa e efeito: na leitura ibequiana (ou ibequense?), o que resulta nos índices IBEC causa a preferência por um candidato (ou mais). Diferentemente, na verdade, o que resulta nos índices são, de modo geral e difuso, conseqüência da ocupação de espaços pelos candidatos. A questão que me parece efetivamente importante é sobre os processos dessas ocupações de espaços. Os índices IBEC podem ser extremamente úteis como pista para a análise desses processos de ocupações de espaço.

Por fim: também eu preciso rejeitar o título que deram à minha carta anterior na qual fiz a réplica a Alexandre Martins."Falta análise qualitativa" não era um bom título porque não se tratava tanto de criticar a análise dos índices IBEC à luz do que lhes faltava – mas à luz dos limites dos próprios índices, do que eles são capazes de produzir e o que eles podem permitir inferir. Ou os índices levam a meros truísmos ou devem ser vistos com muito cuidado, porque podem falhar mais do que pesquisas de intenção de votos, ao levarem a análises que superdimensionam a importância dos próprios índices a importância dos instrumentos econométricos. Se a minha carta levou àquele título escolhido pelo OI provavelmente é porque havia algo errado na minha carta. Espero ter sido um pouco mais claro aqui.

Pedro Eduardo Portilho de Nader, historiador e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP

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Falta análise qualitativa – P.E.P.N., e Alexandre Martins responde, no Caderno do Leitor (rolar a página)

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