30/12/2003 3/7

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SAÚDE NA MÍDIA
Mais perto da demissão

O excelente artigo de Heliete Vaitsman toca num ponto essencial ao desfazer o mito do especialista acima de qualquer suspeita e apontar o jogo de interesses existente na veiculação de informações (melhor diria, propaganda) na área da saúde, através das quais divulgam-se medicamentos e, sobretudo, um determinado estilo de vida supostamente alcançável pelo consumo de certas receitas. Também concordo em que precisamos de ética.

Mas o jornalista não é autônomo: o sistema que o artigo denuncia funciona exuberantemente não apenas porque há jornalistas que participam dos lobbies ou cedem a eles pela lei do menor esforço, mas porque servem ideologicamente a esse estilo de vida que as grandes empresas de comunicação desejam vender. Jornalistas perfeitamente preparados e éticos conseguiriam enfrentar esse sistema?

Não quero com isto sugerir uma situação sem saída, à maneira de certos intelectuais de tanta projeção na própria mídia; apenas argumentar que a crítica precisa chegar às questões estruturais e ser incorporada pelas entidades de classe como uma questão essencial para o exercício da profissão. Do contrário, ficaremos eternamente apostando na sempre louvável resistência individual de um ou outro jornalista, que estará entretanto sempre mais perto da demissão do que de uma atuação efetiva em defesa da ética.

Sylvia Moretzsohn

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DIÁRIO DE VARGAS LLOSA
Construção sem alicerces

Não me parece assim tão simples como quer Mario Vargas Llosa. A própria dissensão entre os países do Primeiro Mundo com assento no Conselho de Segurança da ONU revela o conflito de interesses, tanto quanto as contradições na ação internacional desses países ao longo da história. O apoio a ditaduras ilegais e cruéis, encenado no limite do mais deslavado e ridículo cinismo imperial, tudo devidamente midiatizado, depõe contra esse arrazoado de Vargas Llosa. A depuração crítica tem que ser mais profunda, retroativa, e um código de ética mundial deve ser elaborado, já que nunca existiu. Sem que se explicitem as regras do jogo não haverá avanço. Nem credibilidade.

Se nos episódios que caracterizaram aquelas contradições a mídia embarcou como claque do poder, a mera repetição e o tempo, que permite à opinião pública confrontar a virtualidade das notícias com a realidade dos acontecimentos – mormente nesses tempos de extraordinária velocidade – fez com que o público leitor de mídias percebesse a diferença entre o que se diz e o que se faz, e a ausência de compromisso com a verdade. É um sentimento difuso, carregado de passividade e descrença.

Sem uma carta mundial – uma convenção do condomínio Terra – protagonizada por todos os países a opinião pública não se moverá de sua descrença – e Mario Vargas Llosa continuará a falar no vazio de uma construção sem alicerces.

Luiz Paulo Santana, Belo Horizonte

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